Fonte: Brasil Econômico / 22/01/2014
Setores com faturamento expressivo, como o de materiais elétricos, convivem na economia com outros nem tão pródigos, como o de bebidas
Rio - Uma grande lacuna separa diferentes segmentos da indústria. Entre os grupos de produtores de máquinas e materiais elétricos e de bebidas há uma discrepância próxima àquela da economia brasileira nos anos 70, que levou o economista Edmar Bacha a batizar o país de "Belíndia" - metade com a riqueza de uma Bélgica e a outra, com a escassez de uma Índia.
"Existe, atualmente, uma divergência entre os setores, um comportamento heterogêneo, de especificidades que fazem com que se comportem de formas diferentes dependendo das condições de mercado, como câmbio, juros e alterações tributárias", ressalta o economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Fábio Guerra.
Os produtores de máquinas e materiais elétricos faturaram 19% mais de janeiro a novembro de 2013, comparado a igual período de 2012, passando de longe pelo que, para a maioria da indústria, foi um período, minimamente, de estabilidade, com tendência à crise. Para a média, o faturamento cresceu bem menos, 4%, com reposições de margens por alguns produtores, como revela o Indicador Industrial da CNI.
Na ponta oposta à dos materiais elétricos aparecem os fabricantes de bebidas, liderando o ranking das maiores quedas de faturamento do acumulado do ano até novembro, com taxa de 14,9%. E, no meio do caminho, uma infinidade de produtores reagindo à concorrência com importados e interferências pontuais.
"Mas a concorrência com os importados não é suficiente para explicar as divergências entre os segmentos", diz Guerra, para quem as estatísticas de dezembro que ainda serão divulgadas não deveram alterar significativamente o cenário desenhado até então.
O que justificou o avanço do faturamento dos produtores de máquinas e materiais elétricos foram as encomendas feitas ainda em 2012, entre elas as de equipamentos para grandes projetos de geração de energia, como as usinas instaladas no Rio Madeira - Santo Antônio e Jirau - e a hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu. Pesaram também as encomendas destinadas à manutenção de equipamentos industriais, já que, diante da instabilidade econômica, uma parcela da indústria preferiu investir na manutenção das suas máquinas a comprar novas. Por fim, pelas estatísticas da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), contribuíram os materiais de uso doméstico.
Luiz Cezar Rochel, economista da entidade, atribui o bom desempenho aos três grupos que formam o segmento, em proporções semelhantes - o grupo de geração e transmissão de energia; de equipamentos industriais; e de material elétrico de instalação, voltado para o consumo doméstico.
A venda para o setor agrícola ajudou, diz ele, assim como a indústria automobilística, uma tradicional compradora de componentes elétricos. A exceção foi a distribuição de eletricidade, que não acompanhou o nível de encomendas e o crescimento dos demais grupos consumidores.
Mesmo diante dos números positivos de 2013, no entanto, os fabricantes de máquinas e materiais elétricos não conseguiram evitar demissões. Sem a renovação de contratos, principalmente após a determinação do governo de reduzir a tarifa de energia - o que inibiu o investimento das empresas do setor elétrico -, a indústria de máquinas e materiais elétricos não só reduziu o contingente de empregados, como não avançou na utilização da capacidade instalada, cenário que deve permanecer neste ano, pela projeção da Abinee. "Algumas empresas encerraram o fornecimento de equipamentos, e não conseguiram retomar a produção, o que obrigou essas companhias a dispensar partedo seu pessoal. Houve um ajuste da produção para um novo cenário e novos devem ocorrer em 2014", afirmou.
A principal fonte de preocupação, diz Rochel, é como segmento de GTD (geração, transmissão e distribuição de energia). A expectativa é que os efeitos da redução da tarifa de eletricidade sejam sentidos mais claramente neste ano, embora a decisão tenha sido tomada ainda em 2012.
Já no fim do ano passado o segmento começou a perder o ritmo. A pesquisa industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstra que, na média de setembro a novembro, a produção seguia uma trajetória inversa à da média do ano. No trimestre até novembro, caiu 0,7% (média móvel trimestral), enquanto, no acumulado do ano subiu 4,5%, influenciada pelas entregas no primeiro semestre de encomendas feitas no ano anterior.
Comportamento inverso ocorre coma indústria de bebidas, a que, no outro extremo do ranking da CNI, desponta como a principal queda de faturamento de 2013. A receita despencou, mas esse foi o segmento que mais ampliou o número de empregados de janeiro a novembro, 4,3% mais. O seu desempenho está diretamente relacionado à inflação, concentrada exatamente no segmento de alimentos e bebidas em 2013, que subiu 8,48%, bem acima da inflação média de 5,91% medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Assim, as vendas, em igual período, avançaram 1,9%, abaixo da média do varejo, de 4,3%.
Se analisados alguns itens separadamente, é perceptível que a inflação tem ainda maior peso sobre as vendas. Os preços da cerveja, por exemplo, subiram 10,52% em 2013; e o de refrigerantes e águas minerais, 7,39%.