Fonte: O Estado - http://www.oestadoce.com.br/ - 6/5/2014
Por Tarcilia Rego*
O clima está cada vez mais impactando os negócios e tirando o sono de investidores, especialmente no mercado de grãos. Artigo do coeditor, Kieran Cooke, da Climate News Network, publicado no último domingo, alerta que nos últimos dias grãos de café arábico – “de longe, a variedade mais popular de café” – encerrou abril, com alta em torno de US$ 2 americanos por libra, no mercado mundial. Isso é quase o dobro do preço de um ano atrás.
“Vários fatores parecem estar empurrando o mercado para cima: na América Central, uma área significativa de produção, um surto de uma doença chamada ferrugem da folha, que se acredita, pode estar ligada às mudanças climáticas, danificou severamente a cultura”. No Vietnã, hoje, o segundo maior produtor de café do mundo, um período prolongado de seca e excepcionalmente alguns dias de clima frio afetou as previsões de colheita de grãos Robusta, usado principalmente para a produção do café instantâneo. “A falta de chuva também atingiu as áreas produtoras de café na África Oriental”.
BRASIL
Mas, são os eventos relacionados com o clima no Brasil, o maior produtor de café do mundo e responsável por pelo menos 40% da produção global, ao que tudo indica, está é o que está causando mais preocupação entre os comerciantes do mercado internacional.
O estado de Minas Gerais, por exemplo, que produz 25% da safra de café do país, foi atingido por temperaturas que subiram bem acima da média, e as típicas chuvas no mês de dezembro, janeiro e fevereiro – nomalmente período de maior precipitação – ficaram em torno de 10% do normal.
Segundo um relatório recente da Coffee & Climate (C & C), organização que colabora com os produtores de café em todo o mundo com relação às questões de adaptação às mudanças climáticas, os dados de 68 estações meteorológicas e de 264 pluviômetros, indicam que o clima em Minas Gerais está mudando. “Quase todas as áreas do estado foram, significativamente, impactadas pelo aquecimento global, ao longo do período 1960 a 2011. Os períodos extremamente quentes aumentaram, enquanto os períodos de extremo frio diminuíram.” O relatório está disponível em http://www.coffeeandclimate.org/tl_files/CoffeeAndClimate/
“O estado mineiro foi afetado por temperaturas máximas médias entre 3 ° C e 4 ° C (5,5 ° F e 7 ° F) em janeiro, bem acima da média de longo prazo. O resultado tem sido um desastre para muitos produtores de café. Sem água suficiente, bagas secaram ou tornaram-se os chamados flutuantes [cascas praticamente vazias]. Nas últimas semanas, as chuvas chegaram de forma torrencial: o que pode ser maléfico ao invés de benéfico para a colheita está se aproximando rapidamente. Os produtores brasileiros de café têm esperança de uma reviravolta de última hora”.
QUEDA
Especialistas em commodities projetam que em consequência da queda na produção de grãos arábica no Brasil, no decorrer de 2014, provalvelmente, significa queda de até 35% na produção mineira, e de 18% na produção global. Como a demanda mundial por café disparou nos últimos anos, os agricultores estão correndo para plantar mais mudas de café, porém essas novas plantações, são mais suscetíveis à escassez de água, por isso agricultores e comerciantes de café também estão preocupados com a qualidade, bem como com a quantidade, e o quanto a cultura poderá ser afetada pelo clima adverso.
IPCC
O maior temor está relacionado às condições de seca e aos padrões climáticos, cada vez mais voláteis, que ameaçam uma grande parte do Brasil, um dos maiores produtores agrícolas do mundo. O mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirma que a produção de café está susceptível e pode diminuir em todo o mundo em consequência das temperaturas altas.
NÃO VAI FALTAR
Para àquelas pessoas que não dispensam um cafezinho, mesmo em tempos de aquecimento global, tem uma luz no fim do túnel. Os preços não devem subir este ano – ou pelo menos, não muito. A maioria das grandes casas de café ou torrefadores tende a comprar no que é chamado mercado futuro – “fazem uma reserva do produto e garantem um preço fixo para os grãos, muitas vezes, com anos de antecedência”. Além do mais, os comerciantes estocaram os grãos colhidos fartamente na safra do ano passado. Por enquanto não vai faltar café.