23 de agosto de 2013

Temor de 'pacote' derruba dólar

Indústria de café em ritmo de espera para ajustar preços

Fonte: Brasil Econômico

Contra o impulso de alta vindo de fora, o dólar fechou ontem em queda de 0,78%, cotado a R$ 2,4320.

A expectativa de que o governo estava preparando um enérgico pacotão de medidas cambiais destinado a reverter o movimento ascendente da moeda fez o mercado ignorar o avanço das taxas dos títulos do Tesouro americano e também a valorização do Dollar Index, indicador que apura o comportamento do dólar em relação a uma cesta de moedas.

Como a apreensão foi dissipada depois que o Ministério da Fazenda informou que a reunião extraordinária de ontem do Conselho Monetário Nacional (CMN) não tratou de câmbio, hoje será um dia de revanche.

Prevaleceu o entendimento de que o governo reluta em tomar providências mais intervencionistas contra a disparada do dólar pois receia atemorizar o capital estrangeiro, cortejado hoje com vistas à participação nos leilões de concessão de infraestrutura previstos para setembro.

 

A única medida adotada ontem foi exclusiva do Banco Central. Ele decidiu padronizar suas intervenções. Ao invés de atuar ao sabor das agitações, oferecerá diariamente US$ 500 milhões em swaps cambiais entre segunda e quinta-feira. E fará um leilão de venda de dólares com compromisso de recompra, no valor de US$ 1 bilhão, às sextas-feiras.

Serão, portanto, US$ 2 bilhões em swaps por semana. Esse montante eleva em US$ 1 bilhão o volume mensal que já vem colocando de swaps. Diante da previsibilidade, o mercado traçará agora as suas estratégias. Ontem, ele rolou um lote de 20 mil contratos de swaps que vencerão no início do mês que vem, no valor de US$ 986,4 milhões. E fez um leilão de linhas em dólar, operação que consiste em vender moeda das reservas internacionais mas com cláusula de recompra futura. Colocou à disposição do mercado US$ 4 bilhões.

Foi o segundo leilão deste tipo realizado esta semana. No primeiro, pela estimativa dos operadores, vendeu cerca de US$ 3,6 bilhões. No de ontem, deve ter colocado menos ainda.

Se não fosse pela aflição acerca do iminente anúncio de medidas para conter a valorização do dólar, a moeda teria tido ontem vastos argumentos para persistir na toada de alta. O mercado secundário de títulos do Tesouro americano resolveu se rebelar contra a hesitação do Federal Reserve (FED).

A ata da última reunião de política monetária, confusa e indefinida, foi tida como um passo atrás na comunicação pró-aperto do FED inaugurada por discurso de Ben Bernanke no dia 22 de maio. Mais cauteloso que os textos anteriores, o documento passa a sensação de que os 12 votantes do comitê não sabem ao certo o que irão fazer, nem como nem quando.

Ao cancelar sua participação no tradicional seminário de Jackson Hole, organizado pelo Fed de Kansas, Bernanke parece querer deixar a maior parte do fardo do reaperto monetário para o seu sucessor, em fevereiro. E o mercado de treasuries resolveu externar sua frustração com o FED da forma mais eloquente que conhece: está fazendo ele mesmo o arrocho negado pelo seu banco central.

As taxas dos títulos sobem com a mesma desenvoltura que teriam se a ata tivesse sinalizado o início dos cortes dos estímulos já para a reunião de setembro. Na terça-feira, o rendimento dos T-Notes de 10 anos gravitavam em torno de 2,80%, deram um pulo para 2,89% na quarta e ontem chegaram ao máximo de 2,94%. Seria um prato cheio para os especuladores "comprados" em dólar futuro na BM&F.

Mas o governo não se convenceu ainda da necessidade de adotar iniciativas mais drásticas para evitar não só um overshooting cambial, mas até mesmo que o dólar se consolide numa faixa de preço próximo de R$ 2,45.

Nesse nível, já estaria vindo a toda velocidade o "caminhão de inflação" ao qual se referiu o presidente do BC, Alexandre Tombini, em entrevista. Pelas suas contas, a cada 20% de alta do dólar 1 ponto percentual será acrescentado ao IPCA de 12 meses. E se alguém se der ao trabalho de comparar os R$ 2,45 com a última cotação do dólar de 2012 (R$ 2,0430) constatará uma variação cambial de 19,92%. Adeus ao teto de 6,5% da banda inflacionária.

 Em gradual elevação há sete semanas, a projeção de IPCA para os próximos 12 meses do Boletim Focus do BC já evidencia a preocupação das instituições com o repasse da oscilação do dólar aos preços. A projeção subiu de 5,78% para 5,97%. Ainda é pouco, comparativamente ao caminhão antevisto por Tombini. O adicional de 1 ponto a título de repasse do câmbio deve ser acrescido à projeção de 5,65% feita pelo último Focus de junho.

Ou seja, se nada for feito, o limite máximo da banda inflacionária pode estourar. O gradualismo do Focus, manifestado pelo movimento lento mais firme da expectativa de inflação, se explica pela incerteza em relação à capacidade da economia em aceitar repasses de aumentos dos custos onerados pelo câmbio nesse momento de debilidade.

Os investidores estrangeiros posicionados na compra de dólar futuro já haviam pressentido o risco de o governo reagir à puxada à vista das cotações por meio de medidas fiscais. Para evitar que as posições sofressem um corte abrupto determinado pelo governo, já trataram de ir reduzindo gradualmente o volume de apostas contra o real.

Do recorde absoluto de posições compradas estabelecido na sexta-feira, 16, de US$ 16,46 bilhões no pregão de dólar futuro da BM&F, o montante caiu para US$ 14,62 bilhões na segunda-feira, US$ 13,56 bilhões na terça e US$ 12,46 bilhões na quarta-feira.

Se as posições em dólar futuro estavam em célere declínio, como explicar então a alta de 2,3% acumulada pela cotação spot no mesmo período? O diretor-executivo da NGO Câmbio, Sidnei Nehme, tem uma resposta. Para impulsionar o preço à vista, especuladores recorreram ao velho expediente destinado a incrementar artificialmente o giro de negócios que consiste em uma mesma instituição vender e recomprar moeda de e para si mesma.

Nehme detectou a utilização do artifício chamado informalmente de "zé-com-zé". O mecanismo cria uma demanda fictícia que impulsiona o preço para cima. Fornece a ilusória impressão de que há no mercado muita agitação e vários players tomando a moeda a qualquer preço. O nervosismo dos pregões assusta as empresas que estavam esperando o dólar se estabilizar e correm para fazer hedge. O objetivo é instaurar o pânico e, no final do dia, vender a moeda aos incautos pelo maior preço possível.

Os juros não acompanharam a queda do dólar. As taxas subiram por causa das notícias de que o governo estuda um aumento no preço dos combustíveis. O contrato para a virada do ano avançou de 9,20% para 9,29%. Para janeiro de 2015, a taxa subiu de 10,40% para 10,62%. O Tesouro continuou dando saída a investidores posicionados em ativos prefixados. Recomprou ontem lotes de LTN e NTN-F no montante de R$ 1,46 bilhão.

Fonte: Brasil Econômico / 23/8/2013

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