Fonte: Administradores.com.br - 14/5/2014
# O presente artigo realiza uma reflexão sobre o gargalo do dinâmico mercado de monodoses de café: a distribuição
Mara Luiza
O modelo do consumo do café no Brasil, desde os anos 1990, sofre revoluções silenciosas. A primeira e mais marcante, decorrente da introdução do café espresso, uma criação italiana do final do século XIX. O espresso, também a partir da década de 1990, fortaleceu gradativamente o movimento em prol da valorização da qualidade técnica do café ao longo de toda a cadeia produtiva, igualmente tornou-se parceiro imprescindível da maioria das bebidas a base do café, criando um dinâmico e inovador movimento no mercado de trabalho nacional, o barismo. Esses três ícones - espresso, qualidade do café e barismo – alçaram o produto tradicional em território nacional ao status de iguaria gastronômica, impulsionando o consumo fora de casa, em espaços especiais para apreciadores, as cafeterias.
É claro que ante a cultura de consumo impulsionada por essas variáveis, a satisfação obtida fora de casa, passou a se tornar gradativamente um objeto de desejo dentro de casa. Esse novo anseio consolidou um segmento de consumo ainda em ascensão no país, que é o consumo de cafés especiais em dose única em casa. Esse processo tornou-se possível com o estabelecimento de parcerias estratégicas entre torrefações e companhias especializadas em produção de linha branca, mais especificamente, equipamentos como máquinas de café.
Essa modalidade de parceria estratégica tem sua origem na União Europeia. Marcas tradicionais como a Lavazza, IllyCafé e Nespresso (talvez a configuração desse negócio mais bem-sucedida entre tais marcas) conquistaram importantes fatias de mercado, inclusive no Brasil, com a venda de seus sachês e cápsulas contendo cafés produzidos em praticamente todas as regiões cafeeiras do mundo. No caso do mercado brasileiro, essa inovação também impulsionou um cenário inédito, a importação de café industrializado. A expansão em particular da Nespresso, com seu modelo de boutiques e vendas de cafés on-line, tornou-se, então um modelo desafiador para a indústria de café nacional. Companhias torrefadoras com plantas instaladas no território brasileiro, como a Café Utam, Nestlé (com a linha Dolce Gusto), Três Corações e Douwe Egberts tornaram-se pioneiras na proposição de um modelo de negócio, reunindo as características de sucesso da indústria estrangeira, através do estabelecimento de parcerias entre suas companhias e as especializadas na produção de máquinas de café espresso para uso doméstico.
Trata-se de um mercado promissor e em crescimento que possui um risco elementar: a distribuição de produto. Escrevo como proprietária de uma máquina e em razão disso, existe certo conforto em realizar os apontamentos que faço a seguir.
Enquanto as empresas responsáveis pela produção das máquinas mantêm sua expertise no uso de seus canais de distribuição e rede de assistência técnica, as companhias torrefadoras nacionais ainda não atuam com a mesma energia na distribuição de sachês. O principal canal é de compra é a internet, o que gera um impasse comportamental de consumo para a grande maioria: até então, para consumo em casa, a aquisição do produto dava-se presencialmente, através de uma ida no supermercado. Sentir o cheiro do café, ler a embalagem e colocar no carrinho é um ritual ainda que compõe a realidade da grande maioria dos consumidores do produto. Compra-se café no momento de realização da compra do mês ou quando ele acaba, o que torna a compra do sachê pela internet um dilema, porque essa modalidade de compra não consegue satisfazer o desejo de se consumir um espresso agora.
Considerando que o custo das máquinas de espresso em casa tem se tornado cada vez mais acessível ao consumidor brasileiro face à sua forte rede de distribuição, é possível considerar que o consumo de café no país possa se reduzir ainda mais, em razão da insatisfação que se é gerada pela não disponibilidade do café (sachê ou cápsula), no local e na hora que o consumidor desejar?
Essa questão daria uma tese e, ao que parece, traz em si um desafio à indústria de café muito maior do que a discussão da importação de matéria-prima. Ela tangencia o dinâmico desenvolvimento de um novo paradigma de consumo que pode no médio prazo comprometer a longevidade do setor (não é possível pensar-se na dinâmica da máquina de escrever, por mais vintage que seja, quando na verdade o mercado deseja o tablet).
Observação da consumidora-autora: Douwe Egberts, em Lavras não é possível encontrar o meu café Senseo e não gosto de comprar meu café pela internet. Troco a máquina? Escrevi para o seu SAC e não recebi nenhuma orientação a respeito.