04 de setembro de 2014

‘Precisamos organizar as inovações’

Fonte: Tribuna do Norte - 4/9/2014

Entrevista - Luís Nassif, Jornalista e editor do portal GGN

Nadjara Martins - repórter

Na última década, dos 93 pedidos de patentes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte depositados no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), apenas um foi aprovado. Entre as “invenções” estão soluções para a retirada de água do gás de petróleo produzido no estado e a criação de um soro para o escorpião amarelo – o mais comum no nordeste do país. Todas elas, porém, esbarram num processo lento: a análise e aprovação da carta patente, que chega a consumir dez dos 20 anos de exploração da propriedade industrial no Brasil.

Entretanto, este não é um problema apenas das universidades. A burocracia é uma trava em todos os setores de desenvolvimento brasileiro, principalmente os que envolvem inovação – um termo que o país vem descobrindo aos poucos, com os investimentos em tecnologia da informação e na indústria de alto valor agregado, por exemplo. “Quando você começa um levantamento  tivemos muita inovação nos últimos anos, só não sabemos bem como organizá-la”, opina o jornalista econômico Luís Nassif, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

De acordo com o jornalista, a inovação no país precisa ser tocada pela interligação entre setores produtivos e as universidades. No dia 8 de setembro, Nassif apresentará a palestra “O papel da Universidade na interiorização do desenvolvimento e no aumento da competitividade empresarial”, durante a 21ª edição do seminário Motores do Desenvolvimento. O evento acontece no auditório da Federação da Indústria (Fiern). Em entrevista, Nassif fala sobre as possibilidades de interligação entre universidade e indústria. Confira:

- Como a universidade pode auxiliar na competitividade empresarial?

Quando você fala em desenvolvimento, o território tem um papel muito importante. Você não desenvolve um país a partir de Brasília ou de São Paulo – principalmente nesta era do conhecimento que estamos entrando. O território tem que ser um local de inteligência, que absorva e transfira conhecimento. Um dos pontos mais relevantes nos últimos anos em termos de descentralização foi a abertura de outros campi de universidades federais, distribuídas pelos país inteiro. O ponto que precisa se dar o salto é amarrar essas universidades às vocações empresariais do país. Em cima disso, você tem alguns países muito interessantes entre o MCTI, o Governo Federal e a CNI, como a Embrapii, a Embrapa da indústria.

- Como funciona?

O papel dela é identificar os problemas na indústria e bancar os projetos a serem desenvolvidos pelas universidades. Com isso, as UFs tiveram um bom upgrade no que se diz à laboratórios e infraestrutura da parte do Governo Federal. Vamos supor que Embrapii teria um grande desafio para a indústria do Rio Grande do Norte. Ela aloca os recursos na universidade da própria região e com isso vai casando a universidade com as demandas do setor produtivo. O que são os segmentos competitivos? Não é só indústria, podem ser outros segmentos da economia local.

Mas fazer essa interligação entre universidade e indústria já não é o papel das agências de fomento, como a Fapern (Fundação de Apoio à Pesquisa do RN)?

Também. Quando você pega o sistema nacional de inovação, a ideia é juntar todas as pontas. Os próprios estados, por exemplo, são obrigados a aprovar a sua regulamentação da Lei de Inovação. O ponto central é a identificação dos problemas que tem que ser resolvidos e o meio campo para ter acesso a essas verbas. Ainda hoje, esse recurso ainda está ligado a uma metodologia econômica. Nesse sentido é que a universidade precisa se aproximar da indústria, criando um sistema de inovação onde ela vai ter que prospectar os problemas tecnológicos do setor produtivos e a responsável por buscar a verba.

- A Lei de Inovação já tem 10 anos e os estados precisam regulamentar essa lei. Não tivemos avanço nesse período?

Os desafios do país são dois: um é que ele é continental, então você tem que fazer as políticas resolvidas em Brasília chegarem na ponta. Nessa área específica, a maneira de chegar na ponta são as universidades, que têm contato com MEC e MCTi, e as federações da indústria, que têm ligação com as demandas do setor produtivo. Então cabe a eles fazer o diagnóstico dos estados e levar essas demandas para a opinião pública.

- Você acha que ainda existe uma resistência das universidades em ter uma aproximação com os setores produtivos?

Sim, mas muito menos do que há alguns anos atrás. No final dos anos 1990, fiz um debate nas minhas colunas sobre o papel da universidade, e houve uma polêmica muito grande porque se achava que o único papel da universidade era produzir e passar esse conhecimento. Mas gradativamente alguns setores ligados à pesquisa eles entenderam a importância de ser um fator de desenvolvimento regional. Isso aí veio desde o Reuni, os projetos do ministro Haddad, que eu tenho a impressão de estar crescendo a consciência da universidade sobre o seu papel no desenvolvimento.

- Essa interligação é positiva porque as universidades geralmente não têm recursos para bancar as pesquisas sozinhas...

Mas veja bem, o papel da Embrapii é esse. Se localizar um problema na indústria do Rio Grande do Norte e as empresas tiverem uma proposta para darem um salto tecnológico em determinada área. Entra em contato com a universidade, banca laboratórios, com algumas pré-condições: a universidade tem que ter um projeto claro, se constituir em rede – por exemplo, ter cooperação internacional – e apresentar um conjunto de resultados. Com isso você casa o conhecimento acadêmico com os problemas específicos e o estímulo ao contato com as áreas internacionais de cada área pesquisada.

- Mas além da Embrapii, são necessárias outras políticas federais para interligar esses dois lentes? Ou é questão de interesse dos setores?

Há um projeto recente, o Inova Brasil, que tem várias pontas. As possibilidades de políticas públicas, hoje, são inéditas. O trabalho, por exemplo, que a Petrobrás está fazendo com o Sebrae para a criação  de Arranjos Produtivos Locais (APLs) para fornecimento para a cadeia de Petróleo e Gás. Essa é uma política fantástica. Você tem de um lado o Sebrea entrando com o lado de gestão, a Petrobrás com as demandas de produto e todo mundo junto com o arranjo produtivo para desenvolver uma malha de pequenos fornecedores. É um conjunto muito diversificado de políticas que estão disponíveis. E as redes são fantásticas: você vê os centros de pesquisa que estão sendo desenvolvidos no CENPES (Centro de Pesquisas da Petrobrás no Rio de Janeiro).

- A UFRN tem uma boa produção de patentes – foram 93 nos últimos seis anos –, mas os pesquisadores reclamam muito da burocracia por parte do Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial). É preciso rever o sistema de inovação no Brasil?

É esse um grande desafio. Estou com um grupo de economistas que nós estamos montando um conjunto de sugestões para o próximo governo e uma delas é justamente a burocracia. Nos seminários em que discutimos essa questão de burocracia pega em todos os pontos. Estamos fazendo um diagnóstico do país e dos instrumentos que temos de políticas públicas, isso em todas as áreas de desenvolvimento. Quando você começa esse levantamento, temos todas as peças do xadrez, só precisamos saber como organizá-las. Tivemos muita inovação nos últimos anos, só não sabemos bem como organizá-la.

- É preciso ser tomado como política prioritária para o próximo governo que assumir?

Sem dúvida. O Brasil não pode mais voltar atrás. Vivemos numa democracia social: os modelos que geravam lucro com redução dos salários, por exemplo, não tem como voltar mais. Não existe mais espaço político para isso. Por outro lado, para manter o bem estar social de hoje é preciso gerar emprego e de valor agregado, o que exige empresas trabalhando com valor agregado, inovação. É uma questão de não ter escolha é esse o caminho, todos os candidatos trazem isso nas suas propostas.

- Uma política social muito forte voltada para a ciência foi o Ciência sem Fronteiras (CsF). Mas não há um receito de se perder o pesquisador que está no Brasil, por ele ser captado pelas condições mais favoráveis do mercado...

Temos pré-condições, mas se pegarmos a forma como a Índia entrou no mercado americano foi mandando pesquisadores para lá. Claro que se voltar melhor ainda. Mas eles criam linhas de aproximação entre o Brasil e o país que o está recebendo.

- Ao voltar, ele traz alguma mudança para o ensino no Brasil?

Sim, você passa por uma mudança de paradigma social completa. É um programa muito bom, assim como o Pronatec, que é poucos anos teve uma grande expansão. A regionalização das universidades federais também foi extremamente importante porque levou o conhecimento para todo o país, e todo o sistema de inovação também está criando a possibilidade de uma parceria entre a universidade e setor produtivo. Então, estamos chegamos no ponto de democracia como as européias, que independente de quem entrar essa deve ser a política de Estado. O país entrou em um caminho de desenvolvimento que não tem retorno.

Compartilhe

Este site usa cookies e dados pessoais de acordo com os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade e, ao continuar navegando neste site, você declara estar ciente dessas condições.