Fonte: The Wall Street Journal - 20/5/2014 - 0h02
Por BENOÎT FAUCON
Alguns dos maiores países produtores de petróleo do mundo devem começar a facilitar a realização de negócios com as petrolíferas ocidentais.
Durante anos, México, Irã, Iraque, Argélia e Líbia — a maioria deles entre os dez maiores produtores do mundo — mantiveram-se fortemente nacionalistas quando a questão era petróleo. Eles costumavam oferecer condições desfavoráveis às empresas ocidentais que queriam explorar suas reservas ou simplesmente não estavam abertos a negociações externas, controlando o petróleo de forma intensiva através de estatais.
Agora, diante da série de dificuldades que vêm enfrentando, estes países estão procurando explorar mais suas reservas, oferecendo acordos generosos para atrair a ajuda de petrolíferas ocidentais.
Em muitos casos, a liberalização representa um potencial impulso econômico. A gigante de private-equity BlackRock afirma que, só no caso do México, a liberalização pode elevar o Produto Interno Bruto em 1 ponto percentual, o equivalente a cerca de US$ 12 bilhões.
Também há considerações políticas locais e mundiais a se levar em conta. Irã, Líbia e Argélia contam com uma população viciada em combustível barato e programas sociais custeados pelo petróleo. Tudo isso está em risco, já que os países estão tendo dificuldade para elevar a produção. Mais receita é necessária para evitar novos possíveis distúrbios e novos problemas.
O Irã, por exemplo, está tentando esfriar a tensão política que enfrenta com o Ocidente e a assinatura de acordos com as petroleiras pode ajudar no processo.
Para os consumidores ocidentais, a liberalização pode gerar mais estabilidade. Eles estarão menos expostos a um salto nos preços — como os US$ 147 por barril registrados em julho de 2008 — se houver novas fontes de abastecimento. Mas o petróleo não deve descer muito abaixo dos níveis de hoje. A maior parte dessa produção sairá de lugares onde a exploração é cara, o que manterá o preço elevado e acima de US$ 70 por barril, dizem analistas.
A grande incógnita são as próprias empresas de petróleo. Executivos hesitam em comentar sobre potenciais negócios. Mas não está claro se as companhias estão dispostas a voltar para estes países, dizem analistas, porque a economia do setor de petróleo pode estar mudando para favorecer outros tipos de exploração em outros lugares do mundo. E essas novas regiões não possuem o tipo de risco político que o Oriente Médio e o Norte da África apresentam.
Por outro lado, o fato de esses países estarem procurando pelas empresas ocidentais significa, no mínimo, que elas voltaram a ter influência em partes do mundo que costumavam dominar.
"O pêndulo pode estar se afastando de um mundo onde a produção de petróleo é dominada pelo Estado", diz Jonathan Wood, diretor associado da consultoria britânica Control Risks.
Quando as grandes petrolíferas foram impedidas de entrar nesses países, houve uma grande mudança na balança de poder. Até o início da década de 70, as grandes empresas controlavam 85% das reservas de petróleo mundial. Mas os países produtores começaram a ver o envolvimento ocidental como uma forma de neocolonialismo e quiseram retomar o controle de suas próprias reservas.
Então, eles nacionalizaram o petróleo e reduziram o investimento internacional. As grandes petrolíferas acabaram ficando com uma fatia de apenas 6% das reservas mundiais. Ao mesmo tempo, as reservas existentes caíram nos Estados Unidos e Europa, e as empresas não tinham muito poder de barganha quando tiveram de negociar termos duros para operar no Oriente Médio e Norte da África.
Em 2004, por exemplo, a Líbia exigiu ficar com 90% do petróleo produzido pelas empresas. No ano seguinte, a Argélia forçou as estrangeiras a desistir do controle de seus campos e criou um imposto sobre lucros acima de US$ 30 por barril. Nos contratos fechados com o Iraque em 2009, as empresas recebiam menos de US$ 2 por barril adicional produzido nos campos que elas ajudaram a explorar, apesar dos preços se manterem a US$ 70 por barril.
Em muitos casos, as petrolíferas aceitaram esses acordos desfavoráveis, mas não ficaram paradas. Elas começaram a investir em novas tecnologias e, nos últimos anos, esses investimentos estão dando frutos. Avanços como a exploração de petróleo em águas profundas e o fraturamento hidráulico, para extrair gás natural e petróleo de formações de xisto, abriram reservas que antes eram inacessíveis e reverteram quase 30 anos de queda na produção de petróleo bruto nos EUA.
O resultado é que empresas americanas — e algumas europeias — estão reduzindo sua presença no exterior. Produzir o petróleo de xisto nos EUA custa 14 vezes mais que o petróleo convencional do Oriente Médio. Mas os operadores têm a posse da produção e dos projetos, em contraste com os países do Oriente Médio, onde a maior fatia fica com os governos.
Com o aumento da produção dos EUA, os países com regras protecionistas estão patinando. No Irã, a produção de petróleo bruto caiu mais de 20% em dois anos. No México, a queda foi de 25% em 2013 em relação aos níveis de 2005. No mesmo período, a produção da Argélia recuou 12%. O Iraque é a exceção, com produção em alta e uma meta do governo para triplicá-la para 9 milhões de barris diários até 2020.
Tudo isso tem levado esses países a procurar o Ocidente para ajudar na exploração de novas fontes que antes não eram acessíveis. A reforma mais séria está sendo feita no México, o décimo maior produtor em 2012, de acordo com relatório estatístico da BP. A produção mexicana está em queda e a demanda por eletricidade subiu, o que fez com que o país se tornasse dependente de gás natural importado e provocou alta de preços.
Novas leis acabaram com o monopólio da estatal Petróleos Mexicanos e em breve permitirão a participação de estrangeiros pela primeira vez desde 1938. As americanas Chesapeake Energy Corp. CHK +1.16% e Chevron Corp. CVX -0.19% e a francesa Total SA FP.FR -1.13% estão interessadas em entrar no México. A Total assinou um termo de cooperação técnica com a Pemex em abril.
As mudanças no Irã, o sexto maior produtor em 2012, vêm com expectativas políticas. Um embargo ocidental para investimentos em campos de petróleo do país deve ser extinto nos próximos anos, na esteira de um acordo provisório com as maiores potencias mundiais sobre o programa nuclear de Teerã. Com a esperança de ampliar a produção em 43%, O Irã dará às empresas mais controle sobre os projetos, elevando o prazo das operações dos atuais 5 anos para 15 a 20 anos.
Erfan Ghassempour, um analista independente de Teerã, diz que a liberalização significa "relações mais próximas entre as gigantes ocidentais e o governo do Irã, o que vai ajudar as relações econômicas e políticas dos países ocidentais com o Irã".
Alguns observadores acreditam que o cenário é mais complexo. "O processo será lento para que as empresas ocidentais voltem ao Irã, e o potencial comercial irá determinar a velocidade desse retorno," diz Amy Myers Jaffe, diretora executiva de energia e sustentabilidade da Universidade da Califórnia. "As reservas do Irã são abundantes, mas são complexas e estão deterioradas," o que as torna menos atraentes para o Ocidente.
No Iraque, nono maior produtor de petróleo no relatório da BP, autoridades estão oferecendo termos mais suaves para seu próximo grande projeto: a reexploração do campo de Nasiriya. As empresas poderão negociar uma fatia do faturamento, em vez de ficarem presas a uma taxa fixa. "Em 2009, o Iraque conseguiu impor contratos duros, mas, agora, com a competição do petróleo de xisto, eles não conseguem mais", diz um importante executivo de uma empresa que opera no país.
Para ampliar sua produção de petróleo, a Argélia também está oferecendo impostos e royalties mais baixos em certos projetos. A Líbia considera adotar mudanças semelhantes. Tudo depende, porém, da resposta das petrolíferas. Elevar os investimentos no Oriente Médio e Norte da África representa uma volta aos projetos tradicionais, diz Jaffe. "Há uma preferência crescente para se explorar o petróleo de xisto na América do Norte, Austrália e China. A crise na Ucrânia reforçou a tese da importância do risco geopolítico."
O dinheiro também é um fator importante. "Os investimentos no petróleo e gás de xisto dos EUA têm sido como imprimir dinheiro", diz Jaffe. Os países que exploram petróleo no Oriente Médio e Norte da África "não devem conseguir retirar capital do boom do petróleo e gás dos EUA".