Fonte: InfoMoney - 5/3/2015 - 13h33
# Gastos médicos ligados a sobrepeso extremo decolaram nos Estados Unidos, pesando na economia do país
Por Bloomberg - Paula Zogbi
(SÃO PAULO) – A obesidade está pesando na economia dos EUA.
Enquanto cientistas buscam maneiras de ajudar americanos a maneirarem, uma pesquisa não publicada mostra que gastos médicos ligados a sobrepeso extremo decolaram. Especialistas dizem que o dano é reforçado por produtividade reduzida, aumento de desigualdade de gênero e renda e custos de transportes ainda mais altos.
A maior consequência ainda é no bem¬estar do indivíduo, mas “há alguns custos econômicos significativos associados a obesidade”, disse Ross Hammond, sênior em estudos econômicos na Brookings Institution em Washington. “Infelizmente, não é mais um resultado raro”.
Cerca de 35,7% dos americanos de 20 a 74 anos eram obesos no período de 2009 a 2012, de acordo com os últimos resultados do Centro para Controle de Doenças e Prevenção em Atlanta. Isso ante 13,3% de 1960 a 1962.
O CDC considera adultos obesos quando seu IMC, que leva em consideração altura e peso, é de 30 ou mais. Como resultado disso, há urgência crescente por planos para observar essa tendência.
O Dietary Guidelines Advisory Committee, grupo de cientistas que aconselha agências do governo, recomendou no mês passado que comidas e bebidas açucaradas fossem taxadas, como forma de reduzir o consumo.
O relatório, lançado no dia 19 de fevereiro, também aconselhou que os rendimentos gerados por essas taxas poderiam ser usados para promover comportamentos mais saudáveis ou subsidiar custos de frutas e vegetais.
“Essa é uma situação que ultrapassou o normal”, disse Walter Willett, professor e chefe de departamento de nutrição na T.H. Chan School of Public Health, da Harvard University. “Nós temos que pensar em intervenções sérias que vão além da norma”.
Custos aumentam Sem tratamento, os custos continuam a crescer, com despesas relacionadas a tratamentos de saúde sendo a consequência econômica mais direta. A obesidade difundida aumentou custos com tratamentos médicos em US$315,8 bilhões em 2010, de acordo com o professor de economia da Cornell University John Cawley.
Isso significa cerca de US$3.508 por ano para cada pessoa obesa, segundo os dados mais recentes. As despesas, que incluem consultas médicas, estadias em hospitais, prescrição de remédios e cuidados médicos a domicílio, cresceram 48% dos US$213 bilhões de 2005 com ajustes inflacionários, disseram os pesquisadores.
As descobertas, que serão publicadas nesse ano no jornal PharmacoEconomics, representam o trabalho dos pesquisadores Chad Meyerhoefer, Adam Biener, Mette Hammer e Neil Wintfeld. Tratamentos caros Doenças crônicas ligadas à obesidade, como diabetes e doenças relacionadas ao coração, assim como derrame e câncer, possuem tratamentos caros, disse Cawley. Além disso, os custos são normalmente pagos por seguros médicos públicos e privados, o que significa que todas as pessoas estão pagando para as pessoas com dietas menos saudáveis, ele disse. “Todos nós estamos arcando com esses custos”.
Ainda que tal gasto não reduza diretamente o crescimento econômico, ele representa uma mudança de prioridades direcionadas a questões de saúde, em contraposição a investimentos em outras indústrias que poderiam impulsionar a produção. A obesidade também traz problemas em assuntos menos diretos.
Gordura excessiva está relacionada com um aumento em ausências no trabalho relacionadas a problemas médicos, disse Tatiana Andreyeva, diretora de iniciativas econômicas no Rudd Center for Food Policy and Obesity na University of Connecticut. Isso gera um custo ao país de cerca de US$8,65 por ano, descobriu Andreyeva em pesquisa em conjunto com Joerg Luedicke e Y. Claire Wang.
Empregados obesos perdem de 1,1 a 1,7 dias a mais por ano em comparação com colegas de peso normal. Produtividade prejudicada “O empregado provavelmente estava sendo pago para para isso, mas não havia trabalho sendo feiro e havia um custo ao empregador”, disse Andreyeva.
A diminuição da produtividade é uma das fontes principais de desaceleração da economia, já que leva a custos mais altos de produção e força de trabalho menos competitiva, ela disse.
Isso poderia piorar uma desaceleração recente na eficiência conforme a recessão econômica dos 18 meses até junho de 2009 fez com que companhias diminuíssem gastos em maquinaria mais sofisticada e dispositivos poupadores de tempo como computadores mais rápidos.
Os resultados por hora cresceram em média 1,3% por trimestre desde o final da recessão, em comparação com os 3% na década até 2005. Em níveis individuais, a obesidade pode limitar o quanto trabalhadores ganham e que tipos de ocupações exercem, mostram as pesquisas.
Mulheres obesas mórbidas, ou aquelas com IMC superior a 40, em ocupações que envolvem interação com outras pessoas, ganharão cerca de 5% menos que suas colegas com peso normal, de acordo com um estudo de Jennifer Shinall, professora¬assistente na Vanderbilt University Law School.
Lucros menores Isso mais do que contrabalanceia uma bonificação que geralmente existe nesses campos, descobriu Shinall.
Além disso, os efeitos da obesidade podem cair desproporcionalmente naqueles que não tem tantos recursos, de acordo com Shinall.
Minorias e trabalhadores com menos educação têm mais probabilidade de estar acima do peso, o que se soma à diferença salarial que já existe para esses grupos de trabalho.
Trabalhadores negros - com quase 1,5 vezes mais probabilidade de ser obesos do que os brancos – em empregos de período integral reportaram salários de US$ 263 por semana no quarto trimestre, de acordo com dados do Departamento de Trabalho dos EUA. Isso em comparação com US$349 para brancos.
Os custos da obesidade também se manifestam de maneira menos óbvia. Pessoas mais pesadas usam mais combustível para se locomover e precisam de apoio de infraestruturas mais reforçadas.
Mais gasolina - Até um bilhão de galões adicionais de gasolina são consumidos por ano para transportar norteamericanos acima do peso e obesos, de acordo com uma pesquisa de Sheldon Jacobson e Douglas King na University of Illinois. Isso custaria cerca de US$2,5 bilhões, seguindo os cálculos do custo médio da gasolina no dia 3 de março.
O Departamento de Saúde e Serviços Humanos e o Departamento de Agricultura dos EUA oganizarão uma conversa pública nesse mês a respeito das recomendações do Dietary Guidelines Advisory Committee, e aceitará comentários até o dia 8 de abril.
O documento resultante – a oitava edição do Dietary Guidelines for Americans – deve ser publicado no final de 2015. As taxações não são a cura para todos os problemas relacionados a obesidade, disse Cawley, já que consumidores podem simplesmente substituir um produto pouco saudável por outro.
E alguns esforços anteriores para diminuit o consumo, como o limite para bebidas não alcoólicas vendidas em restaurantes e cinemas apoiado pelo ex¬prefeito de Nova York Michael Bloomberg, que falhou em urnas ou em tribunais.
Viabilidade política - “É uma leitura falha imaginar que uma taxa modesta em uma categoria de alimentos teria um impacto substancial em calorias ou peso”, disse Cawley. “Provavelmente seria necessário uma taxa maior e mais expansiva pare realmente mudar o comportamento das pessoas, e eu não sei se isso é viável politicamente”.
Apesar disso, aliar isso a com outras políticas como aumentar as atividades físicas e melhorar o acesso a uma alimentação saudável, uma abordagem multifacetada que inclui alavanca financeira, pode fazer a diferença, disse Willett.
Uma taxa de obesidade de menos de 5% seria o ideal, enquanto uma de 10% seria a realista, ele disse. Uma predisposição genética ao sobrepeso atinge apenas de 1% a 2% da população, ele disse.
“Parece que estamos começando a causar alguma movimentação no problema, mas ainda há um enorme caminho a percorrer”, disse Willett. A obesidade está “afetando massivamente nossas crianças e nosso futuro, diminuindo nossas vidas, e as consequências não são triviais".