18 de novembro de 2013

O Mercado Como Ele É... Quem vai descascar o abacaxi?

Fonte: Brasil Econômico / 18/11/2013

Ben Bernanke ainda presidirá duas reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve (Fed) antes de passar o bastão para Janet Yellen

São as reuniões de política monetária de 18 de dezembro e 29 de janeiro. Foi ele quem iniciou a aplicação de um instrumento não convencional de fornecimento de liquidez batizado de "afrouxamento quantitativo" (o QE, na sigla em inglês), mas sempre com a assessoria de sua vice-presidente, Yellen. Após a sua sabatina conduzida por senadores americanos, o mercado achou que não seria nem oportuno nem lógico concluir que ela será, em sua gestão, ainda mais heterodoxa que Bernanke.

Tanto é assim que os juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano quase não saíram do lugar, oscilando entre 2,71% e 2,72%, próximos ao fechamento anterior. Ou seja, nada muda. O Fed começará o ajuste do QE entre dezembro e março, dependendo da geração de novos empregos e da taxa de inflação.

As opiniões de Yellen têm e terão evidente peso no Fomc. Em tese, o presidente do Fed controla o Fomc, pois, dos 12 votantes, sete são membros do board de diretores, ou seja, trabalham diretamente com ele. Os outros cinco são o presidente do Fed de Nova York e quatro presidentes de regionais que se submetem a um sistema de rodízio. Os analistas entendem que Bernanke gostaria de comandar o início do fim daquilo que começou. O fato é que o QE vai acabar, já cumpriu seu papel e hoje pode estar gerando mais problemas do que soluções.

O Fed precisou gastar cerca de US$ 4 trilhões nos últimos cinco anos para tentar tirar os EUA da crise econômica detonada pela insolvência do sistema bancária. A simples derrubada da taxa básica de juros - a federal funds rate - não foi suficiente. Ela foi sendo reduzida gradualmente de 5,25% em junho de 2006 até alcançar, em dezembro de 2008, a variação entre zero e 0,25% que permanece até hoje e deve se prolongar até 2016. O juro básico caiu a zero e o PIB americano amargou recessão de 0,3% em 2008 e de 3,1% em 2009. Foi aí que o presidente do Fed, Ben Bernanke, sempre escudado por sua vice, teve a ideia de radicalizar o afrouxamento quantitativo, já tentado timidamente em 2008.

O "quantitative easing" é um instrumento ultra-heterodoxo utilizado para evitar, primeiro, a quebra de bancos, e depois tentar reerguer a economia. O mecanismo é simples: o Fed emite dinheiro e recompra títulos de baixa negociabilidade que contaminam o balanço das instituições. Esses papéis de escassa qualidade são assumidos pelo Fed e contabilizados no seu balanço e, quando a economia sair da crise, tentará repassá-los adiante, evidentemente com enorme prejuízo. É o balanço do Fed que sofre as consequências da operação.

Por meio de três QEs, o Fed já despejou nos bancos o equivalente a 25,5% do PIB americano. Está ficando muito pesado para ele sustentar essa política. Ela é eficiente, mas muito onerosa, e traz o malefício de tornar os mercados viciados em dinheiro grátis. O primeiro efeito do QE é faxinar o balanço das instituições. Depois disso, ocorre um empoçamento da liquidez. Saneados, os bancos têm medo de emprestar os recursos ao setor produtivo e se sujar de novo, preferindo adquirir ativos rentáveis mundo afora. Trata-se do fenômeno que ficou conhecido como "tsunami monetário": hiperabundante, a liquidez vaza dos EUA e provoca surtos de especulação e prosperidade em outros lugares.

Mas, em algum momento, os bancos perdem o medo de emprestar e a riqueza volta para casa. É o que está acontecendo agora. Como estimuladores do crescimento, os QEs deram certo. Depois da forte recessão de 2009, os EUA cresceram 2,4% em 2010, 1,8% em 2011 e 2,2% no ano passado. Para 2013, projeta-se 2,8%, uma expansão mais forte do que os esperados 2,5% (estimativa consensual tanto do Banco Central quanto dos analistas) para o Brasil.

O efeito colateral perseguido pela política de afrouxamento é a queda dos juros de longo prazo. Não basta derrubar as fed funds, é preciso trazer para baixo os rendimentos das treasuries, sobretudo do título de 10 anos. Este caiu de 4,76% em 2007 para 3,74% em 2008, chegou a 2,52% em 2009, mas voltou a subir em 2010, para 3,73%. Mas só estacionou no nível abaixo de 2% desejado pelo Fed em 2012. Em janeiro do ano passado estava em 1,97% e abriu 2013 em 1,91%. E quando bateu na mínima histórica de 1,66%, no dia 2 de maio, o Fed começou a mandar recados de que poderia estar chegando a hora de iniciar um retorno às condições normais.

E o T-Note começou a subir rapidamente, batendo em 3% em setembro. Diante disso, o Fed engavetou seu plano. Mas a gaveta está ao alcance da mão. E deverá ser novamente aberta entre dezembro e março. A ideia é ir reduzindo a dose mensal consumida pelo viciado até que possa tocar a vida sem sinais de dependência. Dos US$ 85 bilhões injetados todo mês na veia dos bancos, o estimulante seria reduzido em cerca de US$ 15 bilhões por mês ao longo de um período de seis meses.

Mesmo se a síndrome de abstinência não for severa não haverá, após a supressão total da droga, um "aperto monetário" logo de imediato. Este começaria pela retirada de liquidez do mercado por meio da venda gradual dos ativos que o Fed comprou ao longo dos cinco anos. E só depois seria iniciado um movimento de alta das fed funds.

Tudo muito simples? Janet Yellen sabe que tem um enorme abacaxi em suas mãos. Será melhor para todo mundo que Bernanke, o pai da criança, comece a descascá-lo antes. Yellen, a primeira mulher a presidir o Fed em seus 100 anos, não é um poste, teria plenas condições de comandar o início do desmonte do QE3 no seu primeiro Fomc, em 30 de abril. Mas isso daria um pretexto aos especuladores.

Enquanto os mercados externos não deram nenhum refresco a Yellen, os domésticos de dólar e juros se ampararam no seu discurso comedido para realizar lucros inflados ao longo da semana pelo receio de descontrole fiscal. O dólar fechou a R$ 2,3220, em desvalorização de 0,56%. Na semana, ainda acumulou um pequeno ganho de 0,17%. No pregão de DI futuro, a taxa para janeiro de 2015 recuou de 10,85% para 10,81%.

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