24 de janeiro de 2014

O Mercado Como Ele É... O fim está próximo

Fonte: Brasil Econômico / 24/01/2014

A ata branda do Copom e o IPCA-15 de janeiro abaixo do previsto abriram concretamente a possibilidade de o Banco Central encerrar o ciclo de alta da Selic no mês que vem com uma elevação derradeira de 0,25 ponto

A taxa básica subiria para 10,75%, acumulando desde abril avanço de 3,5 pontos percentuais. O BC vê elementos estruturais favoráveis a um ritmo mais comedido dos preços nos meses vindouros. Mas não fecha questão sobre o encerramento do ciclo de aperto porque precisa conhecer antes o comportamento do IPCA fechado de janeiro. Para ter certeza, anseia por um sinal inequívoco da política fiscal. Mas como, de modo geral, os indícios são de fim iminente do processo de ajuste monetário cresceu expressivamente a procura por títulos prefixados.

Durante a manhã, os juros caíram no mercado futuro de juros da BM&F, refletindo a ata e o IPCA-15. À tarde, o dólar disparou por um misto de fatores. Turbinado por indicador industrial ruim na China, medo de contágio das crises na Argentina (onde o peso caiu ontem perto de 13%) e na Turquia e por avaliação pessimista feita pela Pimco, o dólar superou R$ 2,40. E os juros foram atrás. A taxa para a virada do ano subiu de 11,07% para 11,16%. E o contrato para janeiro de 2017 pulou de 12,49% para 12,65%.

O IPCA-15 de janeiro trouxe duas notícias, uma boa e outra ruim. A boa: veio inesperadamente baixo. Subiu 0,67%, desacelerando em relação à dezembro (0,75%) e bem abaixo da mediana das expectativas dos analistas (0,79%). Essa perda de fôlego pode indicar que o IPCA cheio de dezembro, com alta assustadora de 0,92%, responsável pelo Copom ter mantido o ritmo de avanço da Selic em 0,50 ponto na reunião da semana passada, pode ter sido mesmo um ponto fora da curva, insuflado pelo item transporte (aumento da gasolina). A ruim: o índice de difusão do IPCA-15 saltou de 70,1% para 75,1%, retornando ao patamar de um ano atrás que levou o presidente do BC, Alexandre Tombini, às televisões para revelar o seu carrancudo "desconforto" com a inflação.

A ata reforçou entre os economistas a percepção de que a decisão do Copom da semana passada revestiu-se de um "caráter pontual", nas palavras do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. O documento incorporou a nota assinada por Tombini para comentar o IPCA de dezembro. Nela, Tombini diz que a inflação tem mostrado resistência "ligeiramente acima daquela que se antecipava". No entender do economista-chefe do Bradesco, Octávio de Barros, uma inflação ligeiramente acima do previsto irá requerer "um aperto de juros, de forma análoga, ligeiramente acima do originalmente imaginado" pelo BC.

Ele espera o fim do ciclo em fevereiro com alta adicional de 0,25 ponto "desde que os resultados do IPCA de janeiro e do IPCA-15 de fevereiro não realimentem projeções altistas para a inflação deste ano". Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú, também acredita que o ritmo de alta da Selic cairá para 0,25 ponto no Copom de 26 de fevereiro, mas pode não ser a alta final. Outras poderão vir, "dependendo da evolução da inflação corrente". O Itaú revisou sua projeção para o IPCA cheio de janeiro de 0,77% para 0,64%.

A ata não se compromete com o fim do ciclo por causa de uma variável que o BC não é capaz de controlar: a política fiscal. O BC anseia por um "sinal" fiscal. Este condiciona os próximos passos da política monetária. Gonçalves, do Fator, viu a hipótese do sinal na referência feita pela ata aos "superávits primários em patamares próximos à média dos gerados em anos mais recentes", isto é, no atual mandato presidencial. A presidente Dilma Rousseff dará este sinal em Davos?


O economista do Fator viu uma novidade importante na ata: a inclusão da avaliação de que a atividade em 2014 vai se comportar como em 2013, baixa, mas vai ocorrer, no horizonte da política monetária, uma mudança na composição da demanda e da oferta agregadas. A demanda tende a se deslocar do consumo para o investimento e o setor externo, incentivado pelo cenário global mais favorável ao crescimento da economia doméstica. E a oferta se desloca do setor de serviços, em crescimento mais lento, para a indústria e a agropecuária.

Contrariando os seus princípios, o dólar nadou ontem na corrente oposta à dos títulos do Tesouro americano. A moeda americana fechou em expressiva alta de 1,27% frente ao real, cotada a R$ 2,4026, maior preço desde 22 de agosto, enquanto os rendimentos do T-Notes de 10 anos tombaram de 2,87% para 2,77%. O mercado americano decepcionou-se com a avalanche de indicadores menos exuberantes do que se imaginava. Subitamente, a economia não parece estar preparada para uma contínua retirada, mesmo que modesta, dos estímulos monetários aplicados pelo Federal Reserve (Fed).


Dos seis indicadores de atividade divulgados ontem, quatro sugeriram ao Fed pisar no freio do processo de saída do afrouxamento quantitativo. Cresceu ontem a suspeita de que o Fed não poderá cumprir a sinalização informal de reduzir de US$ 75 bilhões para US$ 65 bilhões o volume de compras de títulos em sua reunião de política monetária marcada para quarta-feira.
O indicador antecedente do Conference Board subiu 0,1% em dezembro, metade do 0,2% projetado pelos analistas. O PMI Markit de manufatura caiu de 54,11 em dezembro para 53,7 em janeiro, quando o mercado apostava em alta para 55. Foram vendidas no mês passado 4,87 milhões de casas usadas, número inferior à estimativa de 4,93 milhões. O índice de preço de residências FHFA caiu de 0,5% em novembro para 0,1% em dezembro, ante expectativa que recuasse só ligeiramente para 0,4%.


Esses quatro indicadores ruins pesaram mais que os dois bons: os pedidos de seguro-desemprego subiram na semana passada de 325 mil para 326 mil, quando se esperava alta para 330 mil; e a sondagem de manufatura feita pela regional de Kansas City do Fed avançou de -3 em dezembro para 5 em janeiro, acima dos 2 projetados.

Ao reduzir a atratividade dos títulos do Tesouro americano, a suspensão temporária do programa de redução das aquisições pelo Fed poderia ser uma boa notícia aos mercados de risco, mas há o temor de que a autoridade poderia continuar cortando a liquidez a despeito dos novos indicadores fracos.

A alta do dólar contra o real foi exagerada e especulativa. O fundamento no qual se escorou foi a queda do PMI de manufatura chinês, calculado pelo HSBC, de 50,5 em dezembro para 49,6 em janeiro. Qualquer nível abaixo de 50 indica contração, palavra muito forte para uma economia que cresceu 7,7% no ano passado. As moedas de países exportadores de commodities metálicas caíram em bloco. Contribuiu para a especulação altista artigo de Michael A. Gomez, co-responsável pela gestão de portfólio de emergentes da Pimco, a maior gestora global de bônus desses países. Ele desancou a política econômica brasileira, jogando grosseiramente com o dístico positivista da bandeira nacional, Ordem e Progresso.

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