17 de janeiro de 2014

O Mercado Como Ele É... Juro salta. Não só por ajuste

Fonte: Brasil Econômico / 17/1/2014

Os juros dispararam ontem no mercado futuro da BM&F

O contrato para a virada do ano, o que reflete as expectativas para o curso da política monetária ao longo de 2014, saltou de 10,74% para 10,93%. Na ponta mais curta, a alta não foi menos expressiva. A taxa para abril pulou de 10,28% para 10,43%. Não foi um mero ajuste à decisão tomada pelo Copom na véspera de elevar a Selic de 10% para 10,50%, preservando um ritmo mais intenso de elevação da taxa básica.

Os investidores do mercado futuro já tinham se protegido tanto para encarar a alta que prevaleceu quanto para a diminuição da velocidade. O que mais motivou a escalada do DI futuro foi a mensagem de que o Banco Central não tem muita certeza do que fará adiante. Se o BC não sabe, muito menos o mercado.

A divisão pré-Copom persiste no pós-Copom. Quem achava que iria encerrar o ciclo de altas com avanço de 0,25 ponto sustenta a mesma opinião para o próximo encontro. Quem acreditava na aposta vitoriosa do 0,50 ponto também não mudou de lado. Um mercado sem rumo é propício à volatilidade e às especulações.

Ao enfatizar em seu comunicado que, "neste momento", optou por contrariar a sinalização anterior de abrandamento do acelerador monetário, o BC assumiu o abandono dos fundamentos do "forward guidance" - a confiança que os bancos centrais costumam demonstrar na perseguição implacável do objetivo de fazer uma desinflação num determinado horizonte de tempo. E o "neste momento" poderá eternizar-se se o BC não conseguir golpear as expectativas inflacionárias negativas.

O meio utilizado para tanto foi a explicitação do tamanho da alta que estava fazendo. Se subiu a Selic de 10% para 10,5%, seria ocioso enfatizar que a alta foi de 0,50 ponto. Foi o que fez no comunicado. Não, o BC não está supondo que os seus leitores desconhecem os rudimentos da aritmética. Quis dizer o seguinte: para quem já fez 2,75 pontos, um 0,50 adicional é muita coisa. Ele iluminou o 0,50 ponto como um alerta antiexpectativas: tomem cuidado, pois um aperto monetário com magnitude total de 3,25 é comparável a um bloco de cimento despencando de repente na cabeça dos remarcadores de preço.

E se essa tática antiexpectativas não funcionar? O BC ficará refém do "neste momento". Há quase um ano, quando o presidente do BC, Alexandre Tombini, veio a público manifestar seu "desconforto" com a inflação, uma forma para preparar o mercado para o início de um ciclo de aperto poucos meses depois, o gatilho foi o índice de difusão de 75% do IPCA de janeiro. Estava quase todo mundo remarcando preços. O Copom começou a elevar a Selic e o índice caiu a 56,3% na média do trimestre encerrado em agosto.

O Comitê continuou puxando a taxa no mesmo compasso de 0,50 ponto por reunião mas a média do trimestre encerrado em novembro subiu para 64,6%. No mês de novembro, com a Selic a 10%, a difusão foi a 68,2%. E, no mês passado, bateu em 69,3%. Os agentes econômicos parecem ter perdido o medo do aperto monetário. O que vai acontecer agora em janeiro?
Se a difusão passar de 70%, o "neste momento" terá de ser repetido no próximo Copom, o de 26 de fevereiro. Essa incerteza, de quando chegará o "momento" da parada, intranquiliza quem faz negócios no mercado futuro de juros. Como assumir a ponta prefixada dos contratos se não há teto visível. Na nota que divulgou para comentar o IPCA de 0,92% de dezembro, Tombini diz para onde o mercado deve olhar para saber quando o instante da parada chegará: câmbio, salários e tarifas públicas. O BC pode aumentar as suas intervenções e segurar o câmbio e a Fazenda pode sentar em cima dos preços administrados.

Os salários dependem da demanda. Os trunfos eleitorais de Dilma Rousseff são IPCA abaixo de 6% e pleno emprego. O BC estará autorizado a subir a Selic até o ponto em que não cause um desemprego que ameace a reeleição. Qual que é essa taxa mágica de equilíbrio? Ninguém sabe. O Copom do final de 2013 temia já estar bem perto dela, torcia veladamente para já não ter ultrapassado o limite. O do começo de 2014 tem um outro tipo de inquietação - o de que ela pode ainda estar longe. Por isso a preocupação de agir no aqui-agora do momento presente.
O problema do DI futuro é que o Copom não sustentou o ritmo de avanço de 0,50 ponto porque, conforme a nota de Tombini, o IPCA de dezembro mostrou "resistência ligeiramente acima daquela que se antecipava". Parte dos analistas comprou essa ideia. Algumas análises frisaram que o índice, ao subir 0,92%, superou de fato apenas "ligeiramente" as expectativas de 0,85%. Seria uma surpresinha tecnicamente irrelevante, de 0,07 ponto. Não foi bem assim. No início de dezembro, setores do governo comemoravam sem disfarces a expectativa de um IPCA ao redor de 0,72%.


E as cem instituições pesquisadas no Focus previam 0,75%. Aí, dia 19 de dezembro, o IBGE divulgou o IPCA-15. Veio uma alta de 0,75% e uma luz de alerta se acendeu nos grandes bancos. Apenas no início de janeiro cresceu a suspeita de que o índice cheio passaria de 0,80%, não ninguém supunha que ultrapassaria 0,90%. No dia 10 aconteceu a paulada: 0,92%, nada menos que 0,20 ponto acima da projeção do Planalto. Não se trata de "resistência ligeiramente" maior.

O IPCA de dezembro não poupou ninguém. Foi um duro golpe na credibilidade do Focus. Para janeiro, o boletim (tanto o pleno quanto as Top 5) prevê alta de 0,74% e, para fevereiro, de 0,64% (cem instituições) e 0,67% (as cinco que mais acertam). Isso não será garantia de que o Copom do dia 26 de fevereiro irá encerrar o ciclo de alta da Selic com um ajuste simbólico de 0,25 ponto. Depende do índice de difusão. As expectativas precisam ser quebradas antes disso.


Operadores construíram um raciocínio tortuoso para explicar a alta de ontem do dólar. A moeda fechou cotada a R$ 2,3657, com valorização de 0,35%. A viagem: com a momentosa alta da Selic, o BC deprime a atividade econômica, a arrecadação federal cai, com isso fica mais difícil a Fazenda fazer superávit primário e o resultado final dessa cadeia de infortúnios é o rebaixamento do rating brasileiro.

Nada disso. Bem que o BC gostaria que o ciclo da Selic tivesse algum efeito sobre atividade. As vendas varejistas divulgadas ontem pelo IBGE - alta em doze meses até novembro de 7% -, ainda parecem refletir uma taxa básica de 7,25%. Na verdade, o dólar subiu aqui porque subiu no mundo inteiro. Só não avançou mais porque a Selic de 10,5% atrai capital especulativo.
O BC iniciou ontem a rolagem dos US$ 11,03 bilhões em swaps cambiais que vencem no dia 3. Nesse primeiro leilão, renovou 25 mil contratos, no valor de US$ 1,25 bilhão. Se o câmbio é uma das variáveis-chave, não há a menor dúvida de que irá revalidar todo o lote nesses onze dias úteis que restam para terminar janeiro. Ou será que ele gosta de viver perigosamente?

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