09 de dezembro de 2013

O Mercado Como Ele É... FED pode testar o 'Tapering'

Fonte: Brasil Econômico / 9/12/2013

Apesar de auspiciosos, os dados sobre a recuperação da economia americana divulgados na semana passada não foram capazes de alterar de vez o consenso dos mercados globais de que o Federal Reserve (Fed) só irá iniciar o desmonte do seu programa de hiperliquidez no início do ano que vem


Os investidores não desconsideram a hipótese de o banco central dos EUA desfechar o ajuste já na última reunião deste ano, no dia 18. Mas acham improvável. Antes de consumar uma decisão, o Fed costuma cumprir pacientemente todas as etapas de preparação. Desta forma, quando faz a mudança o impacto é mínimo, pois já foi integralmente precificada.

Na hipótese mais audaciosa, os analistas acreditam que o Fed poderá no dia 18 fazer um teste efetivo, e reduzir minimamente a recompra de títulos, do atual volume de US$ 85 bilhões para US$ 80 bilhões, e sentir a reação dos mercados.

Após uma maratona de excelentes resultados, a semana encerrou-se com chave de ouro. Relatório oficial do Bureau of Labor Statistics mostrou a criação de 230 mil novos postos de trabalho em novembro, como os outros indicadores da semana acima das projeções. No caso, eram de 185 mil. Melhor do que isso, a taxa de desemprego caiu de 7,3% para 7%, bem aquém do esperado, 7,2%. Logo após a divulgação desse relatório, o rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro americano deu um salto de 2,88% para 2,94%, mas não demorou muito para refluir a 2,87%.

Todas as advertências feitas incansavelmente pelos dirigentes do Fed de setembro para cá - de que o desarme do afrouxamento quantitativo será muito lento e não definitivo, ou seja, se o Fed perceber que exagerou na dose dos cortes poderá voltar atrás, e de que, encerrado este programa, o juro básico permanecerá em zero por pelo menos mais um ano - parecem ter surtido efeito. Os mercados mostram-se mais maduros, o que significa dizer, menos propensos a aventuras especulativas favorecidas pela ignorância alheia.

O mais ingênuo e desinformado cotista de fundo sabe que o Fed, sobretudo o comandado por Janet Yellen, não irá fazer nenhuma loucura. Todo passo será dado em terreno muito firme. O que o Fed menos está propenso a fazer é um gesto abrupto capaz de furar alguma bolha de ativo mundo afora. Tal estouro poderia precipitar um movimento de venda de posições em mercados emergentes para cobertura de prejuízos. E o efeito-dominó seria desastroso.

Mas, faltando oito dias para a reunião derradeira de 2013 do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, o Copom dos EUA), tudo pode acontecer em se tratando de mercado financeiro. Até porque esta reunião do dia 18 é especial, é uma das quatro do ano em que, após comunicada a decisão, há a divulgação das projeções do Fed sobre as principais variáveis macroeconômicas e, em seguida, Ben Bernanke faz uma coletiva de imprensa. Será a última vez que Bernanke atenderá os jornalistas no ambiente do Fed. Pode ser um momento apenas de despedidas ou de grandes revelações. Haverá, portanto, até lá boas razões para incertezas e volatilidades.

O dólar caiu aqui muito mais do que seria necessário para meramente acompanhar o "amadurecimento" das treasuries. Fechou sexta-feira cotado a R$ 2,3270, em baixa de 1,36%. Na semana, acusou desvalorização de 0,43%. Dois outros fatores magnificaram a extensão da baixa: comentários de que a Petrobras só espera a melhor oportunidade para ir ao mercado externo lançar novo megalote de bônus e o prolongamento do programa de fornecimento de hedge cambial e empréstimos em dólar do Banco Central.

Ainda repercute nas mesas a declaração do presidente Alexandre Tombini de que, em 2014, o BC "não sairá de cena desse mercado". Trata-se de uma frase carregada de ameaças. Com ela, demonstra que não está preocupado com a rolagem dos US$ 70 bilhões em swaps cambiais que o BC já vendeu este ano, nem com a existência de uma suposta limitação técnica à oferta de novos instrumentos.

A semana passada foi especialmente vitoriosa para o BC. Colheu tanto do câmbio quanto do IPCA indícios de que poderá levar adiante o seu plano de ajustes na política monetária, ou reduzindo o ritmo de alta da Selic de 0,50 ponto para 0,25 ponto nas próximas reuniões ou simplesmente encerrando o ciclo de alta já na reunião de janeiro. Os dois principais temores foram afastados. O primeiro seria uma escalada do dólar que pudesse posicioná-lo na faixa de R$ 2,40 na virada do ano. O segundo seria não poder entregar em 2013 um IPCA abaixo dos 5,84% de 2012. Divulgado na sexta-feira, o índice referente a novembro sinalizou que será factível ao BC cumprir sua meta pessoal de inflação.

A alta registrada pelo índice oficial de inflação no mês passado, de 0,54%, inferior à mediana das expectativas, de 0,58%, fez a variação acumulada em doze meses recuar de 5,84% para 5,77%. Com isso, o IPCA fechará o ano entre 5,65% e 5,8%. Trata-se exatamente da escadinha de baixa perseguida pelo BC, de 6,5% em 2011 para 5,84% em 2012 e algo perto de 5,75% em 2013. E 2014? Bem, aí já é uma outra história. Depende do câmbio e dos preços administrados.

O aperto monetário só conseguiu por enquanto impedir avanços maiores dos preços que são sensíveis aos efeitos da alta da Selic, mas quem foi decisivo para segurar o IPCA foi o pessoal da Fazenda. Sem a compressão dos preços administrados, cuja alta acumulada em doze meses até novembro foi de apenas 0,94%, o IPCA estaria na faixa entre 7% e 8%.

Basta verificar o comportamento dos preços livres (7,31%) e dos de serviços (8,53%). Os juros futuros se recusaram a acompanhar o declínio do dólar. A taxa para janeiro de 2015 cedeu levemente de 10,65% para 10,62%, enquanto o contrato para janeiro de 2017 avançou de 12,24% para 12,25%.

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