19 de agosto de 2013

O crescimento fica na fila

Fonte: Brasil Econômico / 19/8/2013

Ao anunciar um lucro líquido de R$ 10 bilhões no primeiro semestre, inflado pela receita de R$ 4,9 bilhões obtida com a venda de parte da BB Seguridade, o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, fez uma advertência bastante preocupante.

Afirmou que, na estratégia do banco estatal, não há mais espaço para a redução de juros e de spreads. "Já repassamos aos clientes tudo que poderíamos repassar. Agora, somente quando melhorarmos nossa eficiência", disse. Pode-se concluir daí que o atual ciclo de ajuste, que beneficiou os correntistas do BB, está definitivamente encerrado. A não ser que se acredite que a instituição vai se tornar mais eficiente nos próximos meses.

A reportagem do Brasil Econômico destaca que a opinião de Bendine (foto) não casa com a dos executivos do Itaú, do Bradesco e do Santander. Em comentários recentes, eles previram que a queda dos spreads vai continuar por um período mais longo, principalmente nas linhas de crédito menos arriscadas. E atribuíram essa tendência à lei da oferta e da procura. Apesar da posição cautelosa do BB, deve haver mesmo margem para novos recuos.

Basta verificar que o spread bruto no Brasil atinge 10,9 pontos percentuais e só fica atrás dos níveis praticados no Paraguai e no Peru. No BB, o spread é menor, em torno de 5 pontos percentuais. Mas se trata de uma instituição que opera debaixo do guarda-chuva da União, com as devidas regalias oficiais.

Vale lembrar, ainda, que o BB não reduziu sua margem operacional de livre e espontânea vontade. Na verdade, tanto o BB quanto a Caixa Econômica foram fortemente pressionados pela presidente Dilma Rousseff, para que servissem de exemplo para o setor privado.

Acreditava o Planalto que só assim, sob a ameaça de perder mercado para o setor público, os grandes bancos comerciais concordariam em baixar seus spreads. A estratégia deu certo e os custos para os tomadores de empréstimos caíram em todo o país. Mas, a crer no presidente do BB, não há mais gordura para queimar.

Para as indústrias, essa é uma péssima notícia. Tão ruim quanto as previsões sobre o que deve acontecer na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central. A maioria dos analistas aposta em nova alta dos juros ao fim dos dois dias de discussão, na quarta-feira 28 de agosto.

Acredita-se que a diretoria do BC não vai se deixar influenciar pela queda da inflação em julho. Falará mais alto a desvalorização do real em relação ao dólar e a cotação de R$ 2,30 está de bom tamanho. Daí a necessidade de uma nova volta no torniquete dos juros, com a Selic subindo de 8,5% para 9%, e provavelmente fechando o ano em 9,5%.

Entende-se a preocupação do BC com o câmbio. Até porque a queda da inflação nada teve a ver com a política de juros. Se a situação está sob controle, como afirma o ministro Mantega, deve-se à moderação no reajuste de tarifas públicas e ao recuo no preço dos alimentos.

 

A contribuição do Banco Central ainda não se fez sentir. Mas certamente a elevação dos juros terá efeito mais à frente, sobre a atividade econômica. Com taxas de juros em alta e spreads no limite do possível, será muito difícil convencer os empresários a realizar novos investimentos. E a possibilidade de um crescimento econômico mais consistente ficará cada vez mais remota. No pragmatismo da política monetária, não há espaço para sonhos.

Octávio Costa é Chefe de Redação do Brasil Econômico.

Compartilhe

Este site usa cookies e dados pessoais de acordo com os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade e, ao continuar navegando neste site, você declara estar ciente dessas condições.