13 de maio de 2014

O café diante da seca

Fonte: A Tribuna - 13/5/2014, página A-2, Editorial

Em 2013 havia expectativas que a próxima safra de café no Brasil traria resultados espetaculares. Falava-se em produção de 60 milhões de sacas, enquanto alguns, mais otimistas e ousados, chegavam a estimar até 65 milhões de sacas. A seca do verão de 2014 (período de janeiro a março), exatamente quando os frutos do café crescem, derrubou a produção. A safra atual não deverá atingir 45 milhões de sacas, com uma redução de 15% em relação à produção do ano anterior. Segundo o engenheiro agrônomo da Fundação Pró Café, José Braz Matiello, a redução deverá ser de 6,7 milhões de sacas, com a produção total entre 40,9 e 43,3 milhões.

Foi a maior seca na Região Sudeste brasileira dos últimos quarenta anos, provocando sérios problemas no abastecimento de água (caso do Sistema Cantareira, na Grande São Paulo) e na produção de energia elétrica. A produção do café, especialmente em Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, foi duramente afetada, com algumas lavouras registrando perdas de até 70%. O Sul mineiro, com 40% de redução em algumas fazendas, foi uma das regiões mais castigadas. O resultado imediato é o aumento dos preços no mercado internacional.

Nesse movimento perdem os compradores e ganham os produtores. No entanto, os eventuais ganhos podem acabar contrabalançados por um volume menor de vendas ao exterior, tendo em vista a menor safra. São beneficiados também os cafeicultores mais capitalizados, que não venderam sua produção, e podem ter o benefício agora dos preços mais vantajosos.

Diante do fato consumado, as preocupações estão voltadas para a próxima safra de 2015. Não se esperam resultados muito positivos, e a atenção volta-se para o cenário climático.

Meteorologistas apontam para a probabilidade alta do fenômeno El Niño, que aquecendo as águas do Oceano Pacífico aumenta as chuvas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil.

Se essas precipitações ocorrerem, porém, já em junho-julho, meses tradicionalmente secos e quando acontece a colheita do café, elas poderão atrasar o processo.

Anos seguidos de baixas safras podem ainda comprometer o precário equilíbrio entre produção e consumo. Estima-se que haverá no Brasil no final de julho estoques da ordem de 8 a 12 milhões de sacas, suficientes para dar conta do consumo interno (20 milhões de sacas) e da exportação (32 milhões de sacas), mesmo com a produção menor deste ano (45 milhões de sacas). No entanto, a repetição do problema em 2015 poderá trazer problemas maiores.

Há muitos desafios para os produtores de café no Brasil. O clima é um deles, mas é preciso ousadia e criatividade para avançar no mercado internacional: investir na qualidade das marcas e agregar valor a elas é o caminho necessário. É preciso ser capaz de ocupar espaços no mundo, onde o produto café continua em alta.

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