18 de setembro de 2014

Matiello: expectativa de safra de café gera expectativa de erro

Fonte: Conselho Nacional do Café - 17/9/2014

Rede Social do Café

J.B. Matiello(*)

A expectativa anunciada pela Conab, de quase 49 milhões de sacas de café, a serem produzidas em 2015, trouxe uma dose de amadorismo, seja na metodologia usada para chegar a esse numero, seja pelo reflexo que esta divulgação pode ter no mercado. Não digo, a principio, que o número possa ser alto ou baixo, mas, com absoluta certeza, afirmo que não é através de aplicação de índices percentuais, de expansão ou retração, calculados por séries históricas, que se chega a um volume de safra em termos confiáveis.

Nós, técnicos, que vimos trabalhando com a lavoura cafeeira por continuados 46 anos, quase uma vida inteira, sabemos que série histórica vale só pra trás, pra frente temos que ver como se encontram as lavouras, agora na época da florada. Os responsáveis pela expectativa poderiam até chegar a esse número ou mesmo mais do que isso, desde que fossem ao campo e, com certeza, verificariam que a definição deste número pouco tem a ver com a realidade. Senão vejamos.

O efeito da falta de chuvas, que se abateu sobre as principais áreas cafeeiras do centro-sul, primeiro no início do ano de 2014, prejudicou a granação dos frutos e dificultou a nutrição das plantas e, assim, as lavouras, em sua maioria, sofreram stress acentuado no pós-colheita. A continuidade de poucas chuvas fez com que, agora em setembro, já se acumulasse um déficit na faixa de 150-200 mm, que agrava a situação de desfolha das plantas.

Assim, se alguém solicitasse um trabalho sobre a expectativa de safra futura de café, o lógico seria fazer uma análise do que está acontecendo em cada região. Nessa avaliação, vemos que a região do Triângulo/Alto Paranaíba em Minas Gerais e o Estado de São Paulo, especialmente sua principal área cafeeira, a Mogiana, sofreram em função da carga alta e do stress hídrico. Em consequência, a capacidade produtiva dos cafezais, nestas condições, deve cair muito para 2015. As lavouras do Sul de Minas vêm, também, prejudicadas pela estiagem e, deste modo, podem produzir, em 2015, no máximo, igual a 2014, isto depois da perda.

A cafeicultura de montanha, da Zona da Mata de Minas e do Sul do Espírito Santo, de café arábica, deve ter aumento de produção, pois em 2014 produziu pouco e estão retornando muitas áreas podadas em 2013. A Bahia deve, por outro lado, reduzir um pouco sua produção de arábica, pois, neste ano, a safra foi alta e houve seca, embora um pouco menos grave do que nas regiões cafeeiras do centro–sul. O Paraná, pela recuperação no pós-geada, por sua vez, pode melhorar para 2015.

Neste processo de combinação entre as diferentes regiões, observando as condições das lavouras, seu nível de enfolhamento, verifica-se que umas diminuindo outras aumentando, acaba acontecendo um empate no arábica. Nesse tipo de café, a expectativa seria de um volume de 27-29 milhões de sacas para 2015.

Como a safra do conilon, por enquanto, mostra boa expectativa, à semelhança do que ocorreu neste ano, pode-se supor que ela venha a ocorrer de forma semelhante a 2014, ou seja, na faixa de 13-15 milhões de sacas.

Embora seja muito cedo pra qualquer expectativa, vemos que a lógica indica que poderemos ter uma safra global, em 2015, na faixa de 40-44 milhões de sacas, baixa semelhante à da atual safra.

Nossa opinião poderia, perfeitamente, ser substituída por um levantamento por amostragem em campo, sobre fotos aéreas, como fazíamos no passado, por longos anos. Hoje não dispomos de equipe e nem de recursos. Que saudades dos velhos tempos.

(*)José Braz Matiello é engenheiro agrônomo da Fundação Procafé.

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