05 de junho de 2013

'Marcas precisam entender vontade do consumidor participar', diz presidente do Google no Brasil

MORRIS KACHANI
DE SÃO PAULO

Quem são os novos players do mercado audiovisual brasileiro? Em que medida a internet vem mudando os paradigmas deste mercado? O governo ajuda ou atrapalha? É legítimo censurar vídeos no "YouTube"? A pirataria sobreviverá?

O cineasta Fernando Meirelles, de "Cidade de Deus", sócio de uma das principais produtoras do país, a O2, recebeu na manhã de terça (4) Fábio Coelho, presidente do Google no Brasil, em uma conversa mediada pela Folha.

"É um encontro feliz, porque reúne um representante de uma companhia de tecnologia com um profissional de criatividade estruturada de alto nível", saudou Braga. "A tendência é que estes dois perfis caminhem cada vez mais próximos", acrescentou.

O motivo do encontro foi o lançamento da campanha "The Walkers", da Johnnie Walker, que consiste em seis curtas-metragens de produção independente que venceram um concurso promovido pela marca e que serão exibidos em mais de 2.000 salas de cinema no país, a partir de quinta. Fábio e Fernando participaram do corpo de jurados.

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Folha - Como visualizam o momento atual?

Fábio Coelho - Hoje ninguém se conforma em ser apenas consumidor todo mundo quer participar, compartilhar, comentar. É uma mudança dramática na comunicação: as marcas não podem mais aparecer somente em peças isoladas de 30 segundos na TV. Observamos o surgimento de ecossistemas paralelos, de comunidades de co-criação, fã-clubes mais estruturados ou mesmo defensores das marcas.

Fernando Meirelles - No momento estamos criando um novo núcleo de mídias digitais e projetos especiais. Oferecemos produção e estratégia de como veicular na internet. A O2 aliou-se a alguns parceiros que agenciam grandes blogueiros.

Quem são os defensores das marcas?

Coelho - É o que pessoal de marketing mais procura - pessoas que defendam e sejam advogados de sua marca, espontaneamente. Hoje em dia de 60 a 70% das grandes decisões e escolhas comerciais são feitas na web.

Qual o reflexo disso tudo no audiovisual?

Meirelles - Na nossa área que é de contar história com imagens, todo mundo vira produtor. Com isso temos um volume muito maior de vídeos, de onde aparecem surpresas como "Porta dos Fundos", um fenômeno que hoje dá mais audiência que quase todas as emissoras de TV aberta. Outra mudança é de hábito, com a tal da segunda tela: em uma você assiste o filme, na outra está digitando.

A qualidade em geral piorou?

Meirelles - Tem coisas incríveis. Se você quiser ver animação boa ou vídeos experimentais, não vai para TV ou cinema, vai para internet. As experiências de ponta estão ali.

Apoiam a lei que obriga a TV paga a exibir três horas e meia de programação nacional?

Coelho - Tudo que venha fomentar o desenvolvimento é bem vindo desde que não caia em protecionismo ou reserva de mercado. A liberdade de expressão comercial e operacional é fundamental.

Meirelles - A lei representa uma mudança de paradigma. Estamos começando a aprender a fazer séries. Achei "FDP", da Prodigo, muito boa. "Contos de Edgar" tem qualidade de produção 'A'. E "Três Teresas", um texto e nível de interpretação muito bons.

Coelho - o Brasil precisa de incentivo. É o nono produtor mundial de conteúdo de "YouTube" e o segundo consumidor. Ainda temos 100 milhões de pessoas não conectadas. Apenas 6% da região norte está conectada, é um deserto digital, como me comentou o ministro Paulo Bernardo.

O que o Netflix representa no contexto deste mercado?

Meirelles - Globalmente o Netflix já é maior que a Sky, maior provedor de TV paga. E isso aconteceu em muito pouco tempo. As emissoras de TV aberta continuarão mas com poder de fogo mais reduzido.

Coelho - A audiência está indo para o digital. Nove em dez brasileiros participam do YouTube. O YouTube cresce astronomicamente no país.

Meirelles - A Globo está perdendo audiência. Em 2008 fizemos uma minissérie, "Som e Fúria", que rendeu uma média de 19 pontos de ibope. Não quiseram fazer uma segunda temporada porque consideraram a audiência muito baixa. Hoje esse horário dá 15. O que foi um fracasso quatro anos atrás hoje é um sucesso.

O que a pirataria representa em seus negócios?

Coelho - A Apple é quem abriu o conceito do micropagamento do consumidor pagar por conteúdo específico. E isso representou uma mudança no mercado. Em outras palavras, quando o preço é razoável, as pessoas se dispõem a pagar. O que não queriam era pagar 60 reais pelo DVD. Acho que a pirataria tende a sumir - para que comprar um software pirata de 10 reais com risco de vírus etc, se encontro produto melhor a um preço razoável?

Meirelles - Mas o fato é que quando lanço um filme, dois dias depois a audiência já é maior fora do cinema. E perdemos uma receita importante: antigamente, 60% vinha da bilheteria e 40% do DVD. Agora temos a TV paga, mas a receita diminuiu.

Qual a importância do marco civil da internet?

Coelho - Ele estabelece regras claras para investimentos de curto e médio prazo. A falta afugenta o investidor. Estamos falando de propriedade intelectual, remoção de conteúdos, remuneração de investimentos na web.

Onde remoção de conteúdo e censura se encontram?

Coelho - Onde a sociedade quiser.

Meirelles - Mas alguém vai lá e aperta o botão. O WikiLeaks por exemplo, presta um serviço também, é uma contribuição.

Coelho - A remoção de conteúdo é necessária. Tudo que é ilegal tem que ser proibido. Ninguém em sã consciência vai apoiar a pornografia, o racismo, a homofobia e isso não é censura. Já no caso do WikiLeaks quem define é a Justiça.

Meirelles - Fábio, gostaria de fazer uma pergunta. É que me sinto muito enganado pela internet. Achava que a tecnologia ia libertar o homem, no entanto o que acontece é o contrário, vejo o mundo do trabalho invadindo meu tempo livre. Não tem um lado big brother nisso?

Coelho - Sim, mas você é dono ou vítima de seu destino. Eu consigo me desconectar muito bem. Um dos erros que todos nós cometemos é do multitasking --o multiprocessamento é maléfico porque no fim você não presta atenção em nada. Não podemos ser escravos de nossas opções. Sabe quantas vezes uma pessoa normal usa o celular por dia? 150.

Que acham do momento econômico atual?

Meirelles - Minha sensação é de que a mágica passou. O Brasil está perdendo uma grande janela de oportunidade. É notícia ruim atrás de notícia ruim. Foram muitas opções erradas, e faltas administrativas. Não sei se Dilma segura o país até a eleição do ano que vem, é um desgoverno assustador.

Coelho - Sou esperançoso por definição. Sinto que há intenção de melhorar setores estratégicos como infraestrutura e educação.

Meirelles - Mas não está indo. Estamos perdendo a famosa janela demográfica, que é onde os países crescem. Até 2025/2030, o grosso da população estará em idade de trabalho, depois vamos começar a envelhecer. A partir dos anos 90 houve a universalização do ensino, mas na primeira década a melhoria na qualidade de ensino não aconteceu. Este é um grande problema.

Fonte: Folha de S. Paulo / Uol - 5/6/2013

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