Fonte: Estadão / 19/3/2014
Especialistas em tecnologia optam por ganhar menos e ter mais satisfação no trabalho com engajamento social
Quando Zac Halbert deixou seu trabalho em uma startup bem sucedida, estava em busca de uma atividade que tivesse mais significado. A ideia não era exatamente se tornar voluntário em algum hospital na África, mas talvez dar suporte em tecnologia para os que trabalham como voluntários.
No ano passado Zac trocou seu emprego de webdesigner na Recurly, empresa de software de gerenciamento de contas, por outrou na Samahope, startup que facilita a obtenção de financiamento por médicos no mundo em desenvolvimento. Custo da troca: uma redução de 40% no seu salários, um forte aperto de cinto e uma mudança de Noe Valley, em San Francisco, para Oakland, cidade mais barata. O que ganhou, contudo, não tem preço.
“O problema em que estamos trabalhando vale a pena resolver”, disse ele. “Em comparação, antes eu trabalhava com um produto banal”. Os fins de semana no campo do voluntariado não são tão excitantes para pessoas que trabalham com tecnologia, como Zac, ´pelo menos quando o trabalho do dia é projetar o próximo jogo do Farmville. “Muitas pessoas do setor que conheço não começam com a intenção de criar um produto banal”, disse ele. “No meu caso eu desejava que o produto do meu trabalho tivesse um impacto mais positivo na maior
parte das horas do meu dia”.
Zac Halbert tornou-se uma espécie de pregador do trabalho não lucrativo, insistindo junto a outros que trabalham com tecnologia para reavaliar seus valores e a maneira como encaram seu trabalho. Recentemente ele esboçou sua estratégia num guia passo a passo no blog da Omakase, nova startup que busca atrair pessoas que trabalham na área de tecnologia para a filantropia.
“Dei este salto depois de anos de busca desanimada por um trabalho que desse mais sentido à minha vida”, escreveu. “E concordei que um trabalho com mais sentido significaria um salário menor”. Theresa Preston-Werner, fundadora da Omakase disse estar encontrando cada vez mais pessoas como Zac.
“Por que você deixaria um emprego tranquilo numa startup? Quanto mais converso com as pessoas mais percebo que elas realmente trocariam de emprego. Elas estão entediadas com o trabalho que têm. Necessitam fazer algo mais com suas vidas”.
Ora, como Zac tem explicado para seus colegas, o mundo do trabalho não lucrativo pode não ter jargões, opções de ações, dinheiro como é o caso do mundo tecnologia onde o objetivo é o lucro, “mas a grande diferença é o resultado do seu trabalho”.
À medida que a aversão pelo setor de tecnologia e o espaço que ela ocupa em San Francisco se propaga, aumenta a percepção do lugar que o setor ocupa na comunidade. Alguns líderes da área de tecnologia têm respondido com auxílio beneficente. Google, depois de meses de protesto contra seus ônibus, outorgou US$ 6.800 milhões para a cidade em fevereiro para o transporte de jovens de baixa renda.
Quando os manifestantes se reuniram do lado do prédio durante o Crunchies Awards em fevereiro, o investidor Ron Conway saudou-os do palco.
“Podemos não concordar com tudo o que os manifestantes lá fora têm a dizer, mas eles representam a inquietude quanto às desigualdades de renda que aumentam cada vez mais”, afirmou ele num chamado filantrópico à luta.
Segundo Alex Tourk, porta-voz da San Francisco Citizens Iniciative for Technology and Innovation, de Conway, a animosidade com relação ao setor apenas intensificou o desejo de pessoas do setor de tecnologia de “assumir um papel mais importante dentro da comunidade”.
Os problemas sociais vêm despertando mais a atenção dos jovens especialistas em tecnologia do que há cinco anos, mas há outras razões que os levam para o mundo do trabalho não lucrativo. Jim Fruchterman disse que, quando fundou a empresa de empreendimento social Benetech em 1989, criar uma organização não lucrativa era um estigma – o “fim da carreira”, uma “passagem sem volta”.
“O setor de tecnologia mudou e está menos preconceituoso com relação ao setor social”.
Para os mais velhos a mudança para uma organização não lucrativa pode vir da conscientização de que, afinal, eles não irão enriquecer, de modo que podem muito bem trabalhar com alguma coisa que tenha importância. Para os mais jovens não ter uma mulher ou filhos é mais fácil dar este salto.
E ao se tornar mais autônomo do ponto de vista tecnológico, o campo de atividades não lucrativas tornou-se um local que oferece desafios àcarreira que podem atrair um engenheiro ambicioso. Eric Nguyen deixou o mundo empresarial e passou a trabalhar para a Samasource (organização irmã da Samahope) de graça durante os primeiros seis meses. Para ele a missão foi absorvente, e o trabalho em si também.
“Todo mundo quer criar um aplicativo de jogo estúpido para celular e atrai as pessoas porque há dinheiro envolvido”, disse Eric, que trabalha hoje no setor não lucrativo do Google.
Levar tecnologia para o mundo em desenvolvimento foi o que motivouMarc Abbyad, 33 anos, a deixar seu trabalho de engenheiro na VerifEyE Technologies em Toronto. Hoje ele é gerente de produto da MedicMobil, com sede em San Francisco, que produz tecnologia móvel para assistência médica.
“Eu realmente gostava do meu trabalho, mas percebi que poderia ter uma atividade que não iria apenas rechear a carteira dos acionistas”, disse Marc, que teve contato pela primeira vez com o voluntariado quando acompanhou sua mulher numa bolsa de estudos para Malawi.
Zac Halbert enfatizou a diferença entre criar produtos que visam lucro e trazem lucro para as pessoas e o tipo de trabalho realizado por organizações não lucrativas. “Eu tornava a vida de contadores e gerentes mais fácil”, disse ele. “Agora, quando digo que torno vidas melhores, são mulheres que estão sofrendo de fístula. Para mim a diferença é da noite para o dia”.