10 de julho de 2014

Investimento em mídia pode ser próxima jogada de Carlos Slim

Fonte: Folha de S. Paulo - 9/7/2014 - 17h04

JOHN PAUL RATHBONE

DO "FINANCIAL TIMES

Carlos Slim construiu sua fortuna como magnata das telecomunicações no México. Agora, ele quer se tornar um homem de mídia internacional.

Ou pelo menos essa é uma possível leitura do enigmático anúncio feito na noite de terça-feira sobre sua intenção de dividir as operações mexicanas da América Móvil, a companhia de telecomunicações que controla.

É verdade que o bilionário mexicano está agindo sob pressão. Nos termos do programa de reforma do governo mexicano para esmagar os oligarcas, a América Móvil precisa encolher em seu país.

No México, a empresa detém 80% do mercado de telefonia fixa e 70% do mercado de telefonia móvel. Os dois números ficam muito acima do teto de 50% estipulado pelo governo.

A dramática resposta da América Móvil deve representar uma injeção de ânimo político para o presidente mexicano Enrique Peña Nieto, que agora pode abafar as críticas sobre a efetividade de suas reformas.

DESCARTES

Mas Slim está apenas anunciando que deseja vender uma companhia que ele talvez fosse forçado a vender. Melhor para Slim identificar os ativos vendáveis antes que as autoridades regulatórias o façam por ele.

Ao contrário de alguns bilionários que começaram do nada, Slim é um investidor nada sentimental. Ele é mais alocador de ativos do que empreendedor - mais um Warren Buffett do que um Steve Jobs, emocionando apegado à sua primeira companhia.

Assim, é provável que os ativos de baixo retorno da América Móvil –no caso, as linhas telefônicas fixas no interior do México– sejam descartados.

Outros descartes podem envolver propriedades de infraestrutura no México, tais como torres de telefonia. Isso deve agradar os investidores.

FRENTE TRIPLA

E em lugar dessas porções vendidas virá um esforço ainda maior para serviços em frente tripla –um pacote completo de telefonia, banda larga e, o mais importante, televisão. Esse, afinal, é o futuro, como disse Slim ao "Financial Times" em entrevista 18 meses atrás.

"O conteúdo é muito importante", ele declarou na entrevista.

"Queremos oferecer aos nossos clientes o que quer que desejem assistir, quando quiserem fazê-lo, e ao preço que preferirem".

O refrão de Slim de que "o conteúdo é rei" é mais que um sonho vazio: é uma jogada concreta de negócios. A América Móvil se pronunciou com muita ousadia a respeito na noite de terça-feira.

A companhia também anunciou que o plano dependia de ela poder "acessar a provisão de serviços convergentes".

Determinar se o governo mexicano permitirá que ela ganhe acesso a serviços de TV é questão ainda a ser determinada. No entanto, o direcionamento estratégico é claro.

INVESTIMENTOS DE SLIM

Além disso, Slim já tem presença em diversos outros fornecedores de conteúdo on-line. Um caso é sua participação de mais de 8% no "New York Times". Outro são os 11% que detém no Shazam, um app para smartphones que permite que usuários localizem e baixem canções.

Um terceiro investimento, potencialmente o mais lucrativo de todos, é o direito exclusivo de transmissão para a América Latina da Olimpíada do Rio, em 2016, que ele adquiriu no ano passado.

Slim pode transmitir esse conteúdo a quase 300 milhões de assinantes em toda a região. (Sob o plano de cisão de seus ativos, as operações internacionais de seu grupo ficarão como estão.)

Bill Gates foi a primeira pessoa a ter declarado enfaticamente que "o conteúdo é rei".

O fundador da Microsoft fez essa afirmação em um texto de 1996, e a ideia funcionou para ele.

Gates continua a ser o homem mais rico do mundo, com uma fortuna de US$ 76 bilhões, enquanto Slim caiu para o segundo lugar no ranking.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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