29 de maio de 2014

Inovação ainda depende de ajuda oficial

Fonte: Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - http://www.gvces.com.br/ - 29/5/2014

Valor Online - Por Jianne Carvalho | Para o Valor, de São Paulo

# Meio empresarial está mais atento aos ganhos de competitividade

Inovação como garantia de competitividade é receita ditada pelo governo, empresas e meio acadêmico.  Há iniciativas em todas as esferas, que, no entanto, não alcançaram a eficácia necessária para melhorar o desempenho da economia brasileira.  Faltam recursos públicos e as empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D), são ainda dependentes de ajuda oficial.  Outros itens relevantes, como integração universidade-empresa, estão longe do ideal, assim como a cultura em relação às patentes.

O professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-Eaesp) e membro do Fórum de Inovação da FGV, José Augusto Corrêa, no entanto, vê avanços relevantes no meio empresarial, hoje mais atento ao ganho de competitividade.  Correia aponta uma distorção típica brasileira em relação ao tema.  "Diferentemente do que ocorre no exterior, no Brasil as palavras inovação e tecnologia estão coladas, como se fossem uma coisa só.  A inovação aqui precisa caminhar em outras direções, na melhoria dos processos, da gestão e também dos negócios."

Para Corrêa, parte dessa distorção resulta de políticas públicas que canalizam recursos basicamente para projetos de tecnologia.  "Fazemos quase uma pregação para que as empresa entendam que podem inovar não apenas em produtos, muitas vezes sem tanto investimento.  Basta fomentar a cultura interna."

Dados reunidos pelo departamento de competitividade e tecnologia da Fiesp (Decomtec) apontam que, no Brasil, os investimentos de P&D em relação ao PIB somam 0,64% de recursos públicos e 0,55% que têm origem privada.  Resultado inverso ao que ocorre, por exemplo, na Coreia do Sul (1% público e 2,97% privado) ou no Japão (0,56% contra 2,59%, respectivamente).

Sérgio Cavalcante, superintendente de Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R) - centro privado de inovação - diz que as empresas precisam assumir mais riscos.  "O empresário precisa entender que, apesar dos riscos, os ganhos são altos e compensam."

A adoção de incentivos pelo governo para estimular P&D é defendida Gustavo Zevallos, sócio da consultoria EY.  "No Brasil, os incentivos são relevantes e por um motivo simples.  O juro e a carga tributária aqui são altos.  Quando o governo dá estímulos, financia o investimento em inovação, está apenas corrigindo uma distorção", diz.  Zevallos destaca que, na grande empresa, há mais independência.  Com estruturas montadas, temas prioritários dispõem de recursos em volume suficiente para investimento.

No Brasil, o apoio do governo à inovação é feito de três formas: financiamento reembolsável, não reembolsável - por meio de lei que permite subvenção econômica a atividades prioritárias - e ainda pela chamada 'Lei do Bem', que concede incentivos fiscais às pessoas jurídicas que realizam P&D.

Os programas de incentivo à inovação, considerados de maior êxito, estão sob a alçada da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) - empresa pública ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia.  A Finep atua tanto com recursos reembolsáveis, quanto não reembolsáveis e investimento direto.  Há também uma linha de recursos para incentivo a centros de pesquisa e incubadoras nas universidades.

Os projetos não reembolsáveis, cuja dotação orçamentária para este ano é de R$ 300 milhões, são ligados a áreas definidas pelo governo como prioritárias.  "São projetos com caráter de subvenção econômica, como tecnologia da informação, saúde, defesa e desenvolvimento social, como habitação", explica Paulo Resende, superintendente da área de fomento de novos negócios da Finep.

Já o valor disponível neste ano para as empresas, dentro da modalidade reembolsável, é de R$ 10 bilhões, 66% mais que em 2013.  A contrapartida das empresas fica entre 10% e 50% do projeto.  "A ideia da Finep é estimular as empresas para que invistam em inovação e partilhem os riscos", diz Resende.  Outro projeto com participação da Finep, mas em parceria com o BNDES, é o Inova Empresa, abrangendo interesse nacional, como Inova Aero Defesa, Inova Agro e Inova Saúde.  "De forma conjunta com o BNDES, vamos investir R$ 32,9 bilhões nos projetos."

Na tentativa de responder à forte demanda das empresas por recursos para inovação, a Finep fez dois movimentos recentes.  Criou a Finep30, uma plataforma que permite a análise total de um pedido de crédito on-line em até 30 dias.  "Há dois anos, gastávamos 422 dias para concluir todo o processo, da análise à liberação do financiamento", explica Resende.  Outra iniciativa foi a criação de um Fundo de Investimento em Participação (FIP), gerido pelo BTG Pactual, para empresas com faturamento acima de R$ 40 milhões.  O executivo informa que a instituição tem planos de lançar outros fundos em 2014.  "A Finep vive um momento de reinvenção para atender à demanda."

A ideia é colocar no mercado R$ 1 bilhão em projetos.  A demanda por recursos é cinco vezes maior que a oferta.  Vem de setores como fármacos, energias renováveis, agronegócio e teles.  "É importante que a inovação atinja também modelos de negócios e processos, mas a finalidade da Finep é voltada para produtos com viés mais tecnológico", diz Resende.

Jose Roriz, diretor-titular do Decomtec/Fiesp diz que entre 2007 e 2012, a demanda por financiamento cresceu 47% ao ano, enquanto os desembolsos cresceram 36% ao ano, em média.  "Isto demonstra o interesse das empresas em investir em inovação", diz.

Com orçamento de R$ 2 bilhões, a Finep apoia centros de pesquisa e incubadoras.  "O orçamento para a área é menor, mas é relevante", diz Roriz.  A abertura da Copa do Mundo, por exemplo, terá uma pessoa paraplégica utilizando um exoesqueleto para dar o pontapé inicial.  A Finep investiu R$ 33 milhões no projeto 'Andar de Novo', desenvolvido pelo neurocientista Miguel Nicolelis.

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