09 de abril de 2014

Indústria cresce no rastro da Copa

Fonte: Brasil Econômico - 9/4/2014 - 11h12

Atualizado em: 9/4/2014 - 12h09

# A produção de TVs em Manaus, ao lado do segmento automotivo no Paraná, contribuiu para a alta do setor em fevereiro

Aline Salgado
aline.salgado@brasileconomico.com.br

Fernanda Nunes
fernanda.nunes@brasileconomico.com.br

A indústria brasileira está em alta em dois extremos geográficos — no Paraná e no Amazonas, que, de fato, possuem participação reduzida no total do setor, de 7,2% e 3,4%, respectivamente, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São percentuais simplórios em comparação com a liderança paulista, responsável por 35% do setor.Nos dois casos, Paraná e Amazonas, prevalece a montagem dos produtos, parte tendo como insumo equipamentos importados.

No Paraná, o crescimento é pautado no setor automovito — automóveis de passeios, máquinas agrícolas e caminhões —, impulsionado pela retomada do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Lá estão instaladas grandes montadoras, como Fiat, Nissan, Volkswagen, Renault e Volvo. E também fabricantes de máquinas agrícolas, como a Caterpillar e a CMH.

Mas, no caso, da Zona Franca de Manaus, onde está concentrada a produção do estado da região Norte, a expansão da indústria tem um motivo bastante pontual: a Copa do Mundo, que está estimulando a fabricação de televisores. Parte dos equipamentos utilizados na produção é adquirida na própria Zona Franca de Manaus, onde acontece sua montagem. As telas de alta definição, entretanto, não são fabricadas internamente e, por isso, pesam sobre a balança comercial.

As fabricantes Samsung e a LG figuram na segunda e terceira colocação no ranking de empresas responsáveis pelo maior volume de importações em fevereiro, atrás apenas da Petrobras, segundo dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Juntas, importaram US$ 250 milhões no mês. “Esse tipo de movimentação pesa, certamente, sobre a balança comercial, sobretudo, no grupo de bens intermediários, que já vem demonstrando um volume expressivo de compras externas nos últimos meses”, afirma o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Ele lembra que, no passado, as empresas nacionais ainda produziam modelos convencionais com telas produzidas internamente. Mas, com a modernização dos aparelhos e prevalência dos modelos de alta definição (LCD e plasma), a importação cresceu. Por causa do desenvolvimento tecnológico dos aparelhos, não só vem aumentando o volume de importação para a montagem de televisores, diz Castro, mas também o gasto com as aquisições, por se tratar de produtos de maior valor agregado. O Mdic registra, em fevereiro, importação de US$ 398 milhões de partes de aparelhos receptores ou transmissores, grupo do qual as telas de TV fazem parte, alta de 68% em comparação a igual mês do ano passado.

A realização da Copa do Mundo e o estímulo à fabricação de televisores, no entanto, também gerou consequências positivas para a indústria nacional, garante o técnico do IBGE Rodrigo Lobo. Ele cita o segmento de produção de borracha para a fabricação de televisores como um dos que surgiram nos últimos meses na Zona Franca de Manaus para atender à demanda deste ano.

Pelas contas da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), 1,5 milhão de televisores foram produzidos na região só em janeiro (último dado analisado pela instituição), sendo 1,25 milhão de LCD e 190 mil de plasma. Para o fechamento de 2014, a expectativa do superintendente em exercício de Projetos da Suframa, Gustavo Igrejas, é que seja alcançada a marca de 15 milhões a 16 milhões de televisores fabricados, um crescimento frente aos 12 milhões de unidades registrados em 2010, também ano de Copa.

Segundo Igrejas, em média, 95% dos televisores montados na Zona Franca usam peças e componentes nacionais, produzidos dentro ou fora da zona de livre comércio. Apenas o display ou vidro polarizado é importado, visto que só há cinco fábricas produtoras no mundo. “Toda a produção de televisões na Zona Franca precisa cumprir o processo produtivo básico. Dessa forma, do total de fios e cabos usados na fabricação das TVs, 60% têm que ser nacionais. Com relação às placas montadas, são 100%. Já a parte de injeção plástica, são 90%, assim como os gabinetes", lista.

Do grupo de 14,5 milhões de televisores fabricados em 2013, menos de 50 mil utilizaram componentes totalmente importados, informa Igrejas. “Geralmente, as empresas usam as suas cotas de importação para produzir televisores em escala menor, como nichos de mercado, como as TVs acima de 65 polegadas”, afirma.

As estatísticas demonstram ainda que grande parte do crescimento industrial da região é impulsionado pelo consumo interno. Mas a zona de livre comércio também exporta para a Argentina e para outros países da América Latina. “Acreditamos que este ano o polo industrial chegará à marca de US$ 41 bilhões em faturamento, em função dos televisores e tablets. Visto que o segmento de motocicletas vem se retraindo”, projeta o superintendente.

Não fosse a expansão de 15% da produção industrial do Amazonas, onde está a Zona Franca, e de 17,7% do Paraná, em fevereiro, comparado a igual mês de 2013, a produção industrial média do país não teria alcançado os 5% que surpreenderam o mercado. Com esse resultado, o setor acumulou avanço de 1,3% no ano, após a desaceleração no fim do ano anterior.

O fato de o crescimento estar centrado em dois estados com pouca participação no total da indústria é interpretado por Lobo, do IBGE, como um indicativo de que a recuperação do setor ainda não ocorreu. “São Paulo não recuperou a perda de 7,3% de novembro e dezembro de 2013”, salientou. Na verdade, a indústria paulista teve um desempenho aquém da média nacional em fevereiro, com avanço de 0,3%, comparado a igual mês de 2013, e alta de 0,7%, ante janeiro.

Ao todo, sete dos 14 locais pesquisados apresentaram queda de produção, em relação ao mês anterior. Espírito Santo (-4,3%), após avançar 2,2% no mês anterior, e Pernambuco (-3,9%), reverteram quatro meses de resultados positivos consecutivos e, com isso, assinalaram as quedas mais elevadas.

“Minha expectativa é que a produção industrial despenque em março, já que o bom resultado médio de fevereiro foi impulsionado também pela existência de mais dias úteis do que em igual mês de 2013”, projeta o economista do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre) Aloisio Campelo. Ele ressalta que os indicadores antecedentes do setor, com expectativas do empresariado, ainda não revelam recuperação.

IBGE destaca avanço do setor em MG, favorecido pelo câmbio

O estado que demonstra crescimento mais categórico neste ano é o de Minas Gerais, segundo o técnico do IBGE Rodrigo Lobo. Aprodução industrial mineira interrompeu a sequência de oito taxas negativas de crescimento, em fevereiro de 2014 ante igual mês do ano passado. A produção no estado avançou 9,5%, com dez das 13 atividades pesquisadas apontando crescimento. A principal influência positiva foi observada no segmento de veículos automotores (49,9%), seguido do ramo de metalurgia básica (13,6%), ambos impulsionados pela maior produção de automóveis e de veículos para o transporte de mercadorias.

A indústria mineira também contou com crescimento expressivo no setor de alimentos (6,2%), máquinas e equipamentos (13,7%), minerais não-metálicos (7,8%), indústrias extrativas (3,2%) e refino de petróleo e produção de álcool (5,5%).  Lobo ressalta que o câmbio vem ajudando a indústria local. Ele afirma que, por causa da desvalorização do real em comparação ao dólar, foi possível expandir as vendas externas, especialmente de produtos de metalurgia básica e extrativo mineral.

O mesmo movimento, segundo o técnico do IBGE, contribuiu para a melhora desses segmentos no Espírito Santo. Ainda assim, o conjunto da indústria local caiu 3,6% em fevereiro, ante igual mês de 2013.

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