10 de março de 2015

Governo aposta em dez ações para não racionar

Governo aposta em dez ações para não racionar

Fonte:  Valor Econômico - 10/03/2015 ­ 05h00

Por Rodrigo Polito

O governo federal deve iniciar esta semana a campanha publicitária de estímulo ao uso racional e à redução voluntária do consumo de energia elétrica. O programa, que vai priorizar ações na televisão, está sendo coordenado pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) com o apoio técnico do Ministério de Minas e Energia (MME).

A campanha, junto com o impacto previsto do aumento da conta de luz devido ao "realismo tarifário", é considerada pelo Planalto o principal trunfo do pacote de medidas que o governo tem adotado para garantir o abastecimento de energia elétrica sem ter a necessidade de decretar um racionamento. São pelo menos dez medidas já adotadas ou em planejamento. Entre elas, estão a importação de energia de Argentina e Uruguai, o acionamento da térmica de Uruguaiana (RS), a energização da linha de transmissão que conectará a hidrelétrica de Teles Pires (MT) e do segundo linhão que liga o complexo hidrelétrico do Rio Madeira (RO) à Araraquara (SP).

Também está nos planos do governo reduzir o critério de segurança do sistema de transferência de energia do Norte e Nordeste para o Sudeste. Na prática, a ideia é utilizar linhas de transmissão que funcionam de "backup" também para exportar energia da hidrelétrica de Tucuruí (PA) e de parques eólicos e usinas térmicas do Nordeste, o que poderá acrescentar cerca de 5 mil megawatts (MW) de energia para o Sudeste. O Valor apurou que o governo não trabalha com a hipótese de racionamento neste momento. Além do impacto político negativo, a avaliação é que um corte compulsório do consumo de energia neste ano agravaria ainda mais as condições econômicas do país.

A estratégia de implantar um conjunto de ações a fim de evitar o pior foi determinada pela própria presidente Dilma Rousseff e tem sido colocada em prática pelo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga.  As reuniões entre eles têm sido constantes. Da mesma forma, os principais integrantes da cúpula energética de Dilma, entre eles o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, e o diretor­geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, estão frequentemente em Brasília, para encontros com o ministro.

A estratégia do governo é fazer com que os reservatórios das hidrelétricas do país cheguem a pelo menos 30% de armazenamento médio no fim de abril, quando acaba o período úmido. Com isso, considerando que historicamente o nível dos reservatórios recua cerca de 20 pontos percentuais no período seco, a estimativa é chegar em novembro com pelo menos 10% de estoque, o que, segundo o governo, seria o limite operacional das hidrelétricas. Hoje os reservatórios estão com 24,1% da capacidade.

Segundo o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, professor Nivalde de Castro, enquanto não acabar o período chuvoso, o governo deverá adotar essas medidas emergenciais, para reduzir a demanda e aumentar a oferta. "Somente no fim de abril é que o governo vai ter uma posição mais clara", disse ele. Para outros especialistas do setor, o governo adotou a tática do "all in", referência a uma jogada de pôquer em que o participante aposta todas as fichas que possui em uma única rodada. A maior aposta do governo é que a demanda vai cair 5% este ano, mais pelo recuo agressivo da atividade econômica do que pela ação de redução voluntária do consumo.

"Estão colocando fichas que a carga vai cair tanto nos setores industrial, residencial e comercial, que isso ajudaria, mesmo com uma hidrologia adversa", afirmou um especialista do setor, que pediu para não ser identificado.

Para outro consultor do mercado elétrico, o mais preocupante com relação à estratégia adotada é que o governo tem alterado o modelo de operação do sistema de forma estrutural. Segundo ele, pelo segundo ano consecutivo o governo descartou a política de manutenção de água nos reservatórios em novembro. No ano passado, o governo já havia previsto chegar a novembro com apenas 18,5% de estoque.

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