15 de julho de 2015

Fim da linha

Fonte: O Estado de S. Paulo - http://www.estadao.com.br/ - 15/7/2015 - 5h00

The Economist

# Será que a Microsoft finalmente acertou a mão e superou os erros do passado com o Windows?

No próximo dia 29, o Windows 10 - que a Microsoft desenvolveu para suceder seu irritante sistema operacional (OS, na sigla em inglês) Window 8/8.1 - chegará às mãos de fabricantes de equipamentos originais e de alguns usuários privilegiados.

Outros usuários, que se inscreveram para receber uma cópia, serão notificados ao longo dos dias e semanas seguintes. Todas as outras pessoas elegíveis (isto é, usuários de cópias autênticas de Windows 8.1 ou Windows 7) terão a oportunidade de atualizar seus sistemas posteriormente.

Nos próximos 12 meses, o download gratuito do Windows 10 estará disponível para qualquer proprietário de uma cópia genuína de uma dessas duas últimas versões do sistema operacional. (Também o Windows Vista e o Windows XP poderão ser atualizados, mas será preciso desembolsar cerca de US$ 100).

Para os maltratados usuários do Windows, atualizações gratuitas são um presentão, embora sejam um procedimento rotineiro para os fãs de Macintosh e Linux. Quando chegar às lojas, a edição básica do produto (Windows 10 Home) custará pouco menos de US$ 120, enquanto a versão profissional (Windows 10 Pro) sairá por US$ 200.

Distribuir gratuitamente o Windows 10 para consumidores elegíveis - em vez de cobrar a usual taxa de atualização - funcionará como um estímulo poderoso para que os usuários do Windows adotem a nova versão ao longo dos próximos anos. O objetivo da Microsoft é ter 1 bilhão de cópias do Windows 10 em circulação dentro de três anos.

É uma meta ambiciosa. A gigante de softwares da cidade de Redmond, no Estado de Washington, levou cinco anos para vender 400 milhões de cópias do Windows XP - o OS mais popular de todos os tempos, que só alcançou a marca de 1 bilhão de cópias 13 anos depois de ter sido lançado, em 2001.

Também tem levado um tempo enorme para convencer os usuários do Windows a abandonar versões mais antigas. Até hoje, segundo a empresa britânica de segurança em informática Cluley Associates, 60% dos computadores pessoais rodam com o Windows 7, que já tem 6 anos. E, apesar da idade avançada e da inexistência de atualizações de segurança, 18% dos usuários arriscam a sorte com o Windows XP (cujo suporte foi descontinuado em abril de 2014). Apenas 22% usam o Windows 8/8.1 - a maioria por ter adquirido máquinas novas com o sistema operacional pré-instalado.

Houve momentos em que essa fragmentação do mercado obrigava a Microsoft a oferecer suporte simultaneamente a meia dúzia de versões. Convencer o grosso dos usuários a migrar para o Windows 10 representará uma economia monumental e simplificará enormemente as coisas.

Em Redmond, o receio é que legiões de usuários do Windows 7 (há em torno de 900 milhões deles) simplesmente se recusem a atualizar o OS de suas máquinas. Por que o fariam? Lá atrás eles receberam a garantia de que continuarão tendo acesso a “remendos” de segurança e outras atualizações até 2020. Muitos ainda estão bastante satisfeitos com o Windows 7.

Outros são afugentados pelas histórias de horror que circulam sobre as versões subsequentes do OS. A Microsoft viveu pesadelo semelhante em 2006, quando lançou o Windows Vista para substituir o Windows XP. Até 2012, a fatia de mercado do XP era m+aior que a do Vista e do Windows 7 (lançado às pressas para suceder o malfadado Vista) juntos.

Renovação. Para a Microsoft, o Windows 10 vem em boa hora. Ainda que nem de longe se compare com o desastre do Vista, o Windows 8 foi uma grande decepção. Qualquer que tenha sido a razão - arrogância, ignorância ou puro irrealismo tecnológico -, o fato é que, com o Windows 8, a Microsoft pôs carradas de consumidores para correr. O problema não foi o sistema operacional em si, mas a interface radicalmente diferente que a empresa tentou enfiar goela abaixo dos usuários. Tudo gira em torno de uma tela inicial onde são exibidos os programas em operação em segundo plano, que a pessoa pode acessar tocando com o dedo no “bloco dinâmico” apropriado, numa tela sensível a toque.

Ao criar essa interface, a Microsoft cometeu dois equívocos. Primeiro, ignorou as inúmeras lições extraídas das décadas de experiência que os usuários tiveram com o Windows. Partiu-se do pressuposto de que tocar objetos numa tela possibilitaria uma interação mais intuitiva com o computador do que usar um mouse e um teclado. É possível que a suposição esteja correta. Mas não se compara aos truques e atalhos que os usuários foram descobrindo ao longo dos anos - e que passaram a ver como sinônimos do que significa usar um computador -, conforme fuçavam suas telas com o mouse e clicavam em ícones para fazer as coisas acontecerem.

O outro erro da empresa foi imaginar que todas as plataformas capazes de rodar o Windows 8 - fossem smartphones, tablets, laptops e desktops, sistemas embarcados ou mesmo consoles de videogame - dariam conta de operar com uma interface de usuário comum. A ideia era permitir que as pessoas alternassem entre aparelhos - passando de um laptop para um smartphone, por exemplo - sem ter de sair do ecossistema Windows, e, assim, ampliar as vendas.

Todos os consumidores, estivessem eles em busca de aplicativos para smartphone, videogames ou softwares para computador, seriam atendidos pela mesma loja online Microsoft. Para esse esquema grandioso virasse realidade, julgou-se que seria essencial adotar uma abordagem centrada em telas sensíveis ao toque. E assim a sorte foi lançada.

Decepção. Infelizmente, o resultado não foi o esperado. Olhando para trás, é fácil ver por quê. As telas sensíveis ao toque funcionam muito bem com smartphones e tablets, que a pessoa segura com uma mão e manuseia com a outra - mantendo, na maior parte do tempo, o dispositivo na horizontal. Nas telas verticais e de maior dimensão de laptops e desktops, a abordagem centrada no “toque” proporcionou algumas experiências frustrantes e deixou muita gente com o braço dolorido.

Os usuários do Windows também puseram a boca no trombone por conta do desaparecimento de seu adorado “botão iniciar” - que, posicionado no canto inferior esquerdo da tela, sempre tinha sido, do Windows 95 ao Windows 7, a marca distintiva do sistema operacional. Ao obrigar a grande maioria das pessoas a reaprender a usar seus computadores, o Windows 8 estava desde o início fadado ao fracasso.

Castigada, a Microsoft se esforçou para mostrar que aprendeu a lição. Um jeito de fazer isso foi pular aquela que deveria ser a versão seguinte do OS, saltando do Windows 8.1 para o Windows 10 - para indicar um rompimento com o passado recente e anunciar um recomeço.

Nova era. Em muitos aspectos, o Windows 10 faz tudo isso e mais alguma coisa. A Microsoft enxertou elementos de uma interface mais user-friendly (o Windows 7) em pilares de sustentação industrial (Windows 8.1), ao mesmo tempo em que reforçou de modo geral o OS. A empresa sabe muito bem que o segredo da longevidade do XP foi o casamento da robustez e versatilidade do Windows NT, voltado para usuários corporativos, com a facilidade e acessibilidade do Windows 98, mais adequado a consumidores domésticos.

O Windows 10 faz algo parecido, trazendo de volta (em resposta ao clamor popular) o pranteado “botão iniciar” e o menu, além de se concentrar mais no uso do teclado e do mouse.

Para concluir, vale a pena acrescentar que o Windows 10 é o fim da linha a última versão (pelo menos em termos de versões numeradas) do principal OS da Microsoft. Não haverá nem Windows 11, nem Windows 12. Atualizações críticas, de segurança e acréscimos de softwares serão disponibilizados aos usuários à medida em que forem sendo desenvolvidos, em vez de serem reunidos num futuro “service pack” ou num lançamento novo propriamente dito. É possível que o Windows 10 evolua, mas vai continuar sendo essencialmente o mesmo. A esperança é que ele se torne um burro de carga venerável e útil como o longevo Windows XP.

THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM http://www.economist.com

 

 

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