Fonte: Folha de S. Paulo - 18/2/2014 - 3h00
FELIPE BÄCHTOLD
DE PORTO ALEGRE
Diante da piora da situação da economia argentina, empresas brasileiras que exportam ao vizinho relatam o avanço de barreiras para a entrada de produtos, veem com apreensão a possibilidade de calote e passam a exigir pagamento antecipado.
Alguns empresários desistiram do país e passaram a procurar outros mercados.
Setores da indústria ouvidos pela Folha avaliam que, entre as medidas possíveis, o Banco Central da Argentina pode segurar a saída de dólares para pagamentos, como ocorre na Venezuela.
A alta do dólar em relação ao peso, que desvalorizou 20% em 2014, também gera preocupação, já que desestimula os compradores argentinos. "Com o problema cambial, pode ser a gota d'água", afirma Alfredo Bonduki, do Sinditêxtil de São Paulo.
A Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul passou a recomendar cautela nos negócios com os argentinos e a desaconselhar a concentração de vendas no vizinho, segundo seu presidente, Heitor José Müller. Uma das precauções tem sido exigir pagamento antecipado.
O país vizinho se manteve em 2013 como o terceiro maior importador de produtos brasileiros, com US$ 19,6 bilhões -US$ 3,1 bilhões acima do exportado para o Brasil.
Houve uma melhora em relação a 2012, mas os números são piores do que os de 2011.
IMPREVISIBILIDADE
Problemas que pareciam solucionados ressurgiram.
Cerca de 700 mil pares aguardam há meses licenças para entrar no vizinho.
Segundo a associação dos calçadistas, em janeiro, pela "primeira vez em anos" a Argentina não apareceu na lista dos maiores importadores.
A montadora de ônibus gaúcha Comil está com 55 veículos esperando licenças do governo local. A Associação Nacional das Fabricantes de
Ônibus relata que o governo vizinho nem sequer atende aos pedidos de audiência.
"Um pedido grande fica 90 ou 120 dias sem saber o que vai acontecer e não há capital de giro que aguente", diz o presidente da associação, José Fernandes Martins.
A imprevisibilidade gerada sobre os negócios é uma das principais críticas dos empresários brasileiros.
"Talvez seja uma situação temporária", diz o gerente-geral na América do Sul da multinacional de máquinas agrícolas AGCO, Andre Carioba. Espera-se que, a partir de abril, as reservas se recomponham com a entrada de dólares obtidos por meio das exportações de soja.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio diz que acompanha os casos "diariamente".
A Folha encaminhou perguntas a representantes do governo argentino, mas não obteve respostas até o fechamento desta edição.