02 de junho de 2015

Expansão do Porto exige obras no estuário, dizem pesquisadores

Fonte: A Tribuna - http://www.atribuna.com.br/ - 2/6/2015, página C-1, Porto & Mar

# Aprofundamento do canal e o projeto Santosvlakte foram debatidos por especialistas em simpósio na Cidade

JOSÉ CLAUDIO PIMENTEL

DA REDAÇÃO

O Porto de Santos está a menos de uma década de atingir seu limite para movimentação de cargas, 230 milhões de toneladas anuais. Para evitar prejuízos e novos gargalos, a ideia é expandir o cais santista, aprofundando seu canal de navegação e implantando um novo complexo fora dele, em mar aberto.

As discussões para viabilizar os dois projetos começaram a ganhar forma no Simpósio Preparatório para a Pianc/Copedec 2016, realizado em Santos, na semana passada, em uma promoção do curso de Engenharia Portuária da Universidade Católica de Santos (UniSantos), em parceria com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), o órgão regulador do setor. Como o próprio nome indica, o evento teve o objetivo de antecipar alguns dos temas que serão debatidos na Conferência de Engenharia Portuária e Costeira em Países em Desenvolvimento (Copedec), organizado pela Associação Mundial para a Infraestrutura do Transporte Aquaviário (Pianc) e que ocorrerá no próximo ano, no Rio de Janeiro.

O simpósio reuniu autoridades locais e nacionais, empresários, consultores e pesquisadores que atuam nas áreas marítima e portuária para avaliar as propostas, que ainda carecem de estudos.

Outra dificuldade apontada é a falta de compartilhamento de informações técnicas sobre o setor, o que prejudica a fluidez dos projetos. O alerta foi feito principalmente pela professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Susana Beatriz Vinzon, doutora em Engenharia Oceânica. Especialista em transporte de sedimentos (caso da lama trazida pelos rios e que se deposita no canal do Porto, reduzindo sua profundidade), ela estuda os impactos de obras de dragagem.

A acadêmica comparou a realidade de Santos com o que foi já feito em complexos portuários internacionais. Atualmente, no cais santista, empresários articulam com a União, desde o início do ano, a execução do Santos 17, projeto que visa, em prol da eficiência, aprofundar o estuário dos 15 aos 17 metros, até 2017. Tal medida permitiria a vinda de navios de maiores dimensões, capazes de transportar um maior volume de cargas por viagem, o que diminuiria o custo logístico relativo do complexo portuário e, consequentemente, aumentaria sua competitividade.

Em portos da Alemanha e da França, por exemplo, a retirada de sedimentos alterou os níveis da maré, além de ter demandado o reforço nas estruturas do cais. Entre as soluções encontradas, estava o despejo desse material em braços de mar localizados nas proximidades, sem comprometer os respectivos canais de navegação.

O reaproveitamento dos sedimentos nunca foi realizado no perímetro do complexo de Santos. “Aqui, a ordem é colocar para fora do cais e longe da navegação dos navios. Se soubermos despejar em lugares certos, dentro do Porto, vamos beneficiar gastos estruturais, além do próprio impacto ambiental”, argumenta a pesquisadora.

As regiões que deveriam receber esses materiais, diz Susana, são áreas que possam garantir o “equilíbrio natural” de um canal, como o de Santos. Isto é, vão permitir que as características naturais (dinâmica fluvial, tábua das marés e correntes), conhecidas há anos, permaneçam as mesmas, sem comprometer a segurança aquaviária.

MENOR CUSTO

Para o professor da UniSantos e da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Paolo Afredini, doutor em Engenharia Hidráulica, é possível aprofundar o estuário e ultrapassar os 15 metros atuais. A expectativa é de que o complexo receba navios de até 14 mil TEU (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés), ante os 10 mil TEU atuais.

“O problema não é chegar aos 17 metros, mas mantê-lo”, afirmou. Estudos realizados nas últimas duas décadas e apresentados por ele no simpósio preparatório, destacaram de onde os sedimentos, responsáveis pelo assoreamento no canal de navegação, são provenientes. Nesse cenário, ele sugeriu obras para barrá-los.

Alfredini constatou que parte do estuário é impactada pelos sedimentos fluviais, carregados pelas correntes internas e precipitações. As regiões da barra e da entrada do estuário sofrem influência das correntes marítimas, principalmente durante as ressacas, cada vez mais frequentes.

BARRAGENS E MOLHES

Para reduzir a chegada dos sedimentos ao estuário e seu assoreamento (depósito desse material) na via marítima, o pesquisador defende duas medidas.

Um deles é a construção de barragens para conter o escoamento dessas partículas. O outro é a implantação, no início do estuário, na Baía de Santos, de molhes guias-correntes, estruturas que vão afunilar e direcionar as correntes do canal, aumentando a intensidadedas correntes e, assim, reduzindoo assoreamento no local.

“Além de evitar a entrada de material (sedimentos) no estuário, colocaríamos um fim ao desassoreamento da Ponta da Praia e ao assoreamento da Praia Góes, em Guarujá”, afirma o acadêmico. De acordo Alfredini, com a obra, torna-se possível manter a profundidade do canal em 17 metros com menores gastos de manutenção.

 


 

# Informações pertinentes

As pesquisas acadêmicas surpreenderam o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Mario Povia, que participou do Simpósio Preparatório para a Pianc/Copedec 2016. “Às vezes, o trabalho dos professores acaba não chegando até nós. Além de pertinentes, são mais do que importantes para tomarmos decisões”, afirmou.

Para Povia, o reaproveitamento dos sedimentos e as maneiras de reduzir a necessidade de dragagem no Canal de Santos podem servir de exemplo para outros complexos marítimos no País. “O objetivo é aprimorar toda a nossa estrutura e criar condições para o crescimento”, finalizou.

 


 

# Projeto Santosvlakte é viável, afirma especialista

Fonte: A Tribuna - 2/6/2015, página C-2, Porto & Mar

# Empreendimento prevê construção de terminais de águas profundas na costa de Guarujá

JOSÉ CLAUDIO PIMENTEL

DA REDAÇÃO

A viabilidade do projeto de ampliação do Porto de Santos, com a construção de um complexo de terminais de águas profundas fora do Canal do Estuário, na costa de Guarujá, também foi debatido por executivos e acadêmicos durante o Simpósio Preparatório para a Pianc/Copedec 2016, na semana passada.

Não por acaso, o empreendimento foi apelidado como Santosvlakte, referência a Maasvlakte, a área de expansão do Porto de Roterdã, na Holanda, construída na costa do país, ao lado da foz do Rio Maas. A instalação europeia foi construída pela autoridade portuária holandesa para abrigar instalações capazes de receber navios de grandes dimensões.

O primeiro passo para viabilizar o projeto santista foi um acordo firmado entre a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp, a Autoridade Portuária de Santos) e o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), iniciado em 2014. O contrato prevê que a instituição de ensino irá pesquisar os fenômenos estuarinos, oceânicos e meteorológicos da região, como as condições das marés, das correntes e dos ventos – dados necessários para se planejar a construção do complexo de terminais.

Atualmente, Docas e USP analisam a realização de novas parcerias, a fim de aprofundar os estudos necessários para o Santosvlakte. Para isso, avaliase até a construção de um modelo reduzido da baía e do estuário de Santos, para provas e testes – seu projeto foi apresentado durante o simpósio preparatório.

Ele seria implantado em uma parte das instalações da Fundação do Centro Tecnológica de Hidráulica da universidade, na Capital. Professor da UniSantos e da EscolaPolitécnica da USP, Paolo Alfredini acredita que, com base em pesquisas realizadas nas últimas três décadas, a instalação de uma estrutura portuária nas proximidades da Baía de Santos, em mar aberto, é possível. “É algo seguro, que não sofrerá influência impeditiva das correntes, por exemplo. Mas requer cuidados e vamos verificar os limites”, explicou.

Estudos encomendados pela Codesp demonstram que, até 2024, o cais santista deverá ter mais restrições operacionais do que hoje. Não somente nos acessos terrestre, mas também no aquaviário, devido ao aumento das dimensões dos navios e da demanda das empresas marítimas. Nessa situação, a construção dos terminais de águas profundas na costa é uma solução para garantir a expansão das operações portuárias na região.

CRONOGRAMA

Para o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Mário Povia, o Santosvlakte é algo para daqui 20 ou 30 anos, o que não é muito tempo considerando as pesquisas que terão de ser realizadas para implantá-lo e aprovar um empreendimento como este. “O aprofundamento é algo imediato e a expansão tem que ser pensada a longo prazo. Mas temos que executá-la, se essa for a alternativa que garanta o crescimento do Porto e do País”, afirmou.

Povia acredita que a Conferência de Engenharia Portuária e Costeira em Países em Desenvolvimento (Copedec), a ser realizada no Rio de Janeiro, no próximo ano, será fundamental para aprimorar os projetos previstos para os portos brasileiros. Isso acontecerá, segundo ele, com a aproximação de pesquisadores, profissionais e acadêmicos que, juntos, poderão articular ações concretas.

 


 

# Santosvlakte

Elaborado por técnicos da Codesp, o projeto Santosvlakte prevê a instalação de terminais de águas profundas na costa de Guarujá, na entrada da Baía de Santos. Os primeiros estudos para sua implantação são feitos por pesquisadores da USP.

O envolvimento da universidade foi oficializado a partir de uma parceria firmada com a Docas no ano passado.

 


 

# Usina de ondas no Porto é tema de pesquisa

Fonte: A Tribuna - 2/6/2015, página C-3, Porto & Mar

Geração de energia a partir do mar é estudada por ex-alunos do Campus Santos da Unip

JOSÉ CLAUDIO PIMENTEL

DA REDAÇÃO

A fim de ampliar a oferta de energia no Porto de Santos, pesquisadores do Campus Santos da Universidade Paulista (Unip) estudam a utilização das ondas do mar e do movimento da maré na região, como fonte para a geração de eletricidade. A ideia é inspirada na primeira usina do gênero da América Latina, instalada no Porto de Pecém, no Ceará.

A possibilidade de explorar novas fontes energéticas é estratégica para o Porto, especialmente neste momento, quando a Secretaria de Portos da Presidência da República (SEP) planeja a implantação de novos terminais marítimos no complexo.

Atualmente, a eletricidade que abastece o cais santista é proveniente da Usina Hidrelétrica de Itatinga, de propriedade da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp, a Autoridade Portuária de Santos), e das distribuidoras Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) Piratininga e Elektro Eletricidade e Serviços S/A.

Até o final do século passado, a usina conseguia atender a demanda do cais. Mas com o crescimento das operações e o surgimento de novos terminais, houve a necessidade de o complexo receber energia das concessionárias que servem a região.

É esse o cenário analisado pelos pesquisadores da Unip, que se formaram em Gestão Portuária pela universidade no ano passado. O tema começou a ser explorado no trabalho de conclusão de curso do grupo, que retornou à instituição para dar continuidade ao projeto. A iniciativa foi abraçada pelo corpo de professores, que quer aprofundar a questão.

Integrante da equipe de pesquisa, Verônica Inchaspe, de 44 anos, explica que o projeto não propõe substituir as fontes hoje utilizadas, mas avaliar a possibilidade de complementá-las, de modo que as instalações sejam abastecidas por redes principais e alternativas. “Temos que aproveitar o que nossa região oferece. Não temos vento suficiente para fazer a propulsão das pás eólicas, mas temos ondas capazes de gerar a energia de que precisamos”, afirma a gestora portuária.

Segundo Verônica, a exploração das ondas e da maré não será suficiente para manter a operação dos terminais, especialmente os de contêineres. No entanto, é capaz de atender a demanda dos prédios administrativos, que já exploram energias alternativas, como a solar, obtida a partir de células fotoelétricas.

Os equipamentos para a geração de energia a partir do mar podem ser instalados em píeres ou trechos de cais que não sejam utilizados para a navegação ou a atracação de navios.

E, no futuro, eles podem ser remanejados para outros espaços, uma vez que sua estrutura é móvel.

Além de Verônica, integram o grupo de pesquisa os gestores portuários Leandro Dias, Sérgio Oliveira Raika Andrade e Diane Sampaio.

COMO FUNCIONA

Conforme a pesquisa, a usina de ondas pode ser construída em módulos. Isso permite que ela seja ampliada de acordo com o aumento da demanda.

Cada parte da usina de ondas é constituída por uma bacia flutuante (que fica na linha d'água, no mar), um braço mecânico (que vai se movimentar para cima e para baixo) e uma bomba hidráulica, conectada a um circuito de água doce (em solo). Juntos, eles são capazes de gerar energia para as proximidades.

A movimentação permite que as bombas em solo sejam acionadas sem qualquer troca de líquido com o ambiente ou emissão de poluentes. A água doce, sob efeito de pressão, vai para um acumulador com água e ar compridos, capazes de transformar o movimento em eletricidade.

EM PECÉM

A Usina de Ondas está localizada no quebra-mar do Porto de Pecém, a 60 quilômetros de Fortaleza (CE). Ela foi construída em 2012,a partir de um projeto desenvolvido pela Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os equipamentos, segundo dados oficiais, são capazes de gerar entre 50 e 100 quilowatts (KW) para abastecer o porto, o principal daquela região.

Sua implantação representou um investimento de R$ 18milhões, custeado pela iniciativa privada. Mas o empreendimento foi interrompido.

Os pesquisadores da UFRJ, no entanto, iniciaram um projeto semelhante na costa do Rio de Janeiro, pela metade do preço. A capacidade de geração seria a mesma que a da unidade de Pecém.

 


 

# Recurso disponível

“Não temos vento suficiente para fazer a propulsão das pás eólicas, mas temos ondas capazes de gerar a energia de que precisamos”

Verônica Inchaspe, integrante do grupo de pesquisa da Unip

 


 

# Professor propõe integrar projeto com Santosvlakte

O professor de Logística e Gestão Portuária Gilberto Alves Filgueira é o responsável por orientar o estudo sobre a usina de ondas do Porto de Santos. Além de considerar a proposta viável economicamente, ele defende que a estrutura seja integrada ao projeto de expansão do complexo marítimo, com a construção de terminais de águas profundas na entrada Baía de Santos, o Santosvlakte.

Mas essa integração ocorreria apenas em um segundo momento. Segundo Filgueira, no começo, em uma fase de testes, o recomendado é que a usina seja instalada no estuário, nos píeres existentes. O fato de o canal de navegação ser uma área mais abrigada do que a costa não afetaria o projeto. “A geração (de energia) funciona a partir da movimentação das ondas e da maré. Dentro ou fora do Canal, nós temos bastante”, afirma.

Após os exames, em uma segunda etapa, a usina poderá ser implantada nos terminais do Porto planejados para alto-mar, previstos no projeto conhecido como Santosvlakte (ou Santos 2). Esse empreendimento visa ampliar a capacidade do complexo marítimo para receber grandes navios, com a construção de instalações na entrada da Baía de Santos, na costa da Ilha de Santo Amaro, em Guarujá.

O nome do projeto é uma referência à Maasvlakte, a área de expansão do Porto de Roterdã, na Holanda, o principal complexo marítimo do Ocidente.

Para conseguir mais espaço para operações, a autoridade portuária holandesa aterrou uma área do Mar do Norte e ali ergueu seus novos terminais.

LOCAL

De acordo com o professor, “a geração de energia (a partir das ondas e da maré) poderia ocorrer ali mesmo, nos píeres que estarão em mar aberto. Nesse local, temos ainda mais interferência das ondas e, consequente, maior produção”.

A implantação do projeto da usina deve levar cerca de 20 anos, prazo semelhante ao estimado para a construção do Santosvlakte.

Na semana passada, esse projeto de expansão do Porto foi debatido no Simpósio Preparatório para a Pianc/Copedec 2016, evento realizado na Cidade e que adiantou os temas a serem discutidos na Conferência de Engenharia Portuária e Costeira em Países em Desenvolvimento (Copedec), a ser realizado

em outubro do ano que vem, no Rio de Janeiro. Segundo pesquisadores presentes ao simpósio, a construção desses terminais de águas profundas é viável e pode contar com ações sustentáveis, como a implantação da usina de ondas.

 


 

# Potencial

“A geração (de energia) funciona a partir da movimentação das ondas e da maré. Dentro ou fora do canal (do Porto), nós temos bastante”

Gilberto Alves Filgueira, orientador da pesquisa e professor de Logística e Gestão Portuária da Unip

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