30 de abril de 2013

EUA e Europa, os grandes mestres de protecionismo

Octávio Costa - Editor-chefe do Brasil Econômico (RJ)

Os países ricos reforçaram os ataques à política industrial brasileira desde meados do ano passado. Reagem nos foros internacionais contra os incentivos fiscais do governo e as desonerações de folha de pagamento, que premiam principalmente as mercadorias de maior conteúdo nacional.

Também consideram inadmissíveis os incentivos oficiais ao desenvolvimento tecnológico. Cobram igualdade de tratamento às empresas nacionais e estrangeiras.

E afirmam que a discriminação não tem caráter temporário, mas, sim, permanente, no que bate de frente com os regulamentos da Organização Mundial do Comércio.

Agora,indo da palavra aos atos, Estados Unidos, Japão e União Europeia prometem ingressar esta semana na OMC com um ação contra a estratégia comercial do Brasil.

Mas chega a ser engraçada a desfaçatez, para não dizer a cara de pau, dos países desenvolvidos. A maioria deles se tornou próspera explorando as riquezas de suas colônias ou levantando inexpugnáveis barreiras a produtos importados.

E muitas vezes pela soma dos dois fatores. As antigas colônias sequer podiam ter produção local. No Brasil, no fim do século 19, até a louça vinha da Inglaterra.

No início do século 20, o cearense Delmiro Gouveia tentou combater o monopólio inglês e instalou uma usina elétrica na cachoeira de Paulo Afonso, em Alagoas, para alimentar sua fábrica de linhas de costura.

Enfrentou os ingleses da Machine Cotton, que produzia as linhas Corrente, e também desagradou alguns coronéis da região. Pagou pela ousadia e foi assassinado em 1917.

Hoje tão ciosos em relação às barreiras protecionistas dos outros, os americanos revoltaram-se contra a Coroa Inglesa em 1773, porque o Parlamento garantiu o monopólio do chá para a Companhia das Índias.

Comerciantes de Boston saíram em defesa dos produtores locais, tomaram conta do cais e jogaram os carregamento de chá no mar. A monarquia reagiu e impôs à colônia leis inaceitáveis, além de pesada indenização.

Surgiu aí, no calor da disputa econômica, o embrião da Guerra da Independência, que foi finalmente vencida em 1776, com o apoio do rei Luís XVI, decapitado anos mais tarde pela Revolução Francesa.

No caso brasileiro, o sacrifício de Delmiro Gouveia não foi em vão. Nossa indústria amadureceu e hoje compete em pé de igualdade com as empresas estrangeiras, mas, em alguns setores, é natural que o governo dê incentivos ao conteúdo nacional e ao investimento em inovação.

Os EUA, vale lembrar, também investem bilhões de dólares em P&D. Além disso, a renúncia fiscal no Brasil faz parte de um conjunto de medidas anticíclicas, cujo objetivo é permitir que o PIB nacional cresça na contramão da crise econômica na Europa e na Ásia.

Os pacotes de desoneração baixados pela Fazenda só não surtem melhor efeito por causa do vento desfavorável que vem do exterior. Em lugar de se preocupar com o Brasil, os países ricos deviam cuidar das próprias feridas.

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Octávio Costa é editor-chefe do Brasil Econômico (RJ)

Fonte: Brasil Econômico - 30/4/2013

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