14 de julho de 2014

Esportes capitalistas

Fonte: Brasil Econômico - 14/7/2014 - 11h33

# A maior parte dos donos de times na Europa é de amantes do esporte enquanto os norte-americanos estão mais preocupados com o lucro

Heloísa Villela

heloisa.vilela@brasileconomico.com.br

Uma Copa do Mundo por ano. É o que a Liga de Futebol Americano, a NFL, organiza em um prazo mais longo. Com exatamente 32 times, como a Copa, o campeonato nacional leva quatro meses e comanda a maior arrecadação de eventos esportivos do país. Obviamente também, a maior audiência. Os times são divididos em duas conferências e cada uma produz um campeão. São eles que disputam, em fevereiro, a final do campeonato, o famoso Super Bowl, que se tornou mais conhecido no mundo por conta dos comerciais milionários de televisão do que por causa dos passes, disparadas em direção ao fim do campo ou chutes naquele gol estranho e alto, que vale pelo menos 5 pontos.

O que conta nisso tudo é o projeto empresarial, que se revelou o mais bem-sucedido do mundo. Um modelo de negócio esportivo sem adversário à altura por enquanto. Vamos aos números, que sempre ajudam: em fevereiro, na final do último campeonato, 110 milhões de espectadores acompanharam ao vivo os encontrões e disputas em campo. Empresas interessadas em divulgar seus produtos pagaram US$ 4 milhões por comerciais de 30 segundos na televisão. A "empresa" NFL é uma máquina de fazer dinheiro tão competente que já planeja faturar US$ 25 milhões até 2027, o que igualaria a liga esportiva ao faturamento de empresas com McDonalds, Nike e a fabricante de pneus Goodyear. Tudo isso sem perder sequer um jogador para campeonatos estrangeiros e sem favorecer financeiramente os times das grandes cidades em detrimentos das equipes de mercados menores.

John Vrooman, economista especializado em esportes e professor da Universidade Vanderbilt, comparou o que se faz na Europa com a organização dos esportes nos Estados Unidos. E me explicou que existem duas vertentes básicas: o modelo baseado no mérito (os melhores jogadores ganham mais e quem tem dinheiro para comprar o passe deles monta o melhor time) e o chamado modelo da solidariedade (a arrecadação com venda de ingressos e direitos de transmissão das partidas é distribuído igualmente entre os times). Existe, ainda, o modelo híbrido, que faz um pouco de um e um pouco do outro.

A NFL e as outras três ligas importantes do país (beiseball, basquete e hockey) apostaram no tal modelo da solidariedade no que diz respeito aos direitos de transmissão nacionais. Mas enquanto os times da NFL não têm arrecadação alguma nos mercados locais, os times de outras ligas ficam com 50% do valor total da venda de direitos para a transmissão local de partidas, o que aproxima o basquete e o hockey americanos do modelo adotado pela maior parte das ligas europeias de futebol. Um pouco lá, um pouco cá.

O que a Europa não tem são os limites de volume máximo que os times podem gastar com salários e os impostos altos para quem ultrapassa esse limite. A ideia é criar um pouco de equilíbrio entre as equipes para que as competições sejam duras e imprevisíveis, com chances para qualquer time. A NFL é a liga americana onde esse resultado é mais nítido. Já na NBA, que mesclou os dois sistemas, apenas 8 dos 30 times profissionais de basquete do país ganharam o campeonato nos últimos 50 anos.

Na Europa, não existe unanimidade. Na Espanha, a liga que reúne os famosos Barça e Real Madrid está sendo pressionada para adotar um sistema mais solidário. Os dois times se tornaram os donos do campeonato no país e já abocanham 50% da receita com os direitos de transmissão dos jogos de futebol espanhóis. Quanto mais dinheiro têm, melhores jogadores do mundo podem comprar, e se tornam ainda mais imbatíveis. A Liga da Grã-Bretanha, a da Alemanha e a Francesa seguem um esquema híbrido, que garante o incentivo ao desempenho dos jogadores e impede o fortalecimento financeiro excessivo de um time em relação aos outros.

Nos Estados Unidos, nos quatro grandes esportes do país, os jogadores são organizados e brigam por fatias cada vez maiores da renda das transmissões dos jogos. Na liga que tem o melhor resultado, a de futebol americano, os jogadores também ganham mais. No novo contrato, passarão a ter 55% da verba das transmissões. Boa parte do dinheiro vai para planos de pensão e de aposentadoria e o restante reverte para os jogadores como salário. Os atletas, especialmente as grandes estrelas do esporte norte-americano, são milionários.

Depois de analisar as percentagens e os volumes que se seguem aos cifrões, o professor Vrooman explicou que existe também o indivíduo. Ele também divide os donos dos times em duas categorias: os apaixonados pelo esporte e os que visam exclusivamente o lucro. "A teoria econômica diz que a distribuição igualitária da renda não vai afetar a competitividade entre os clubes e vai provocar apenas um achatamento dos salários dos atletas, mas isso só acontece quando o dono do clube está interessado apenas no lucro. Se o dono é o que eu chamo de um apaixonado pelo esporte, que está ali para ganhar o jogo e não apenas para acumular dinheiro, então a divisão equânime dos rendimentos leva a um equilíbrio maior e a salários mais altos. As evidências indicam que a maior parte dos donos de times na Europa é de amantes do esporte enquanto os norte-americanos estão mais preocupados com o lucro. Eu imagino que os donos dos times brasileiros são amantes do esporte e a divisão igualitária das receitas aumentaria o equilíbrio entre os times e elevaria os salários dos jogadores".

Verdade seja dita, ele avisou que não conhecia a estrutura econômica do futebol brasileiro. Mas sabe da paixão do povo brasileiro pelo futebol. Por isso, arriscou o palpite. E não sou eu que vou explicar ao economista que, no Brasil, cartola é bem mais do que algo que se usa na cabeça. E a comparação dá o que pensar. Dá para entender que aquele 7 a 1, com certeza, foi também uma goleada muito além do gramado.

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