29 de abril de 2014

Empresas de médio porte têm restrições para inovar por falta de financiamento

Fonte: Brasil Econômico - 29/4/2014 - 8h51

# Estudo mostra que apenas 3,2% da empresas de médio porte têm essa como uma de suas prioridades para os próximos cinco anos

Moacir Drska

mdrska@brasileconomico.com.br

São Paulo - Nos últimos anos, os investimentos e estratégias de inovação têm sido um tema recorrente nos debates em torno dos desafios de produtividade e competitividade das empresas brasileiras. Uma parcela importante da economia local, no entanto, parece cada vez mais distante de desempenhar um papel ativo nessa discussão: as companhias nacionais de médio porte. Um estudo divulgado ontem durante a 14ª Conferência da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei) mostra que apenas 3,2% das médias empresas do Brasil têm a inovação como uma de suas prioridades para os próximos cinco anos. Ao mesmo tempo, 54% dessas companhias disseram não ter nenhum processo formal de inovação e 49% afirmaram desconhecer qualquer tipo de apoio à inovação.

Com a participação de 216 médias empresas, a pesquisa foi realizada em parceria pela Anpei e o Núcleo de Política e Gestão Tecnológica da Universidade de São Paulo (PGT-USP), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Em grande parte dos casos, não se trata da média empresa não priorizar a inovação. A realidade é que, muitas vezes, uma companhia desse porte simplesmente não consegue acesso e não tem recursos para seguir esse caminho”, afirmou Marcelo Nakagawa, pesquisador do PGT-USP e um dos coordenadores da pesquisa. “A empresa média brasileira não tem apoio. Ela tem todas as cargas e desafios de uma grande empresa, mas ainda tem a cabeça e o pensamento de uma companhia de pequeno porte”, acrescentou.

Para Naldo Medeiros Dantas, secretário-executivo da Anpei, uma das questões que explicam — e agravam — esse contexto é a ausência de mecanismos específicos de incentivo fiscal, de isenção tributária e de captação de recursos para as médias empresas no país, tal como acontece nos dispositivos criados para empresas de pequeno porte — como o Simples Nacional — e grandes companhias. “Temos um conjunto de startups e pequenas empresas com potencial e uma série de empresas âncoras, com capacidade de internacionalização, que demandam parcerias de coinovação. Mas, ao mesmo tempo, há uma grande lacuna de inovação na camada intermediária”, disse ele. “Quando uma empresa sai do Simples Nacional, ela é esmagada e sua única preocupação passa a ser reduzir a burocracia e conseguir arcar com a folha de pagamento. É a teoria da sobrevivência. Ela perde a capacidade de inovar e isso se reflete no índice baixo de lançamentos de produtos dessas empresas nos últimos cinco anos, destacado pelo estudo”, observou.

Na pesquisa, as principais reivindicações das médias empresas para crescer reforçam esse panorama. A reforma tributária liderou esse quesito, com 76,3% das respostas. Em seguida, 38,1% das companhias destacaram a necessidade de ter mais acesso a financiamentos, e 16,1% ressaltaram a reforma trabalhista. “Essa empresa não tem acesso a crédito para inovação, que é diferente de capital de giro, pois pressupõe risco. Quando ela tenta acessar esses recursos, ela é submetida aos mesmos parâmetros de avaliação de uma grande empresa, o que é absurdo”, afirmou Dantas.

Esse contexto de barreiras para captar recursos para a inovação foi destacado por empresas presentes ao evento. “Os processos para conseguir uma linha de crédito são muito burocráticos e obscuros. Muitas vezes, parece que eles foram pensados apenas para grandes empresas”, disse Raquel Viana da Silva, proprietária da Feitiços Aromáticos, que trabalha com linhas próprias de cosméticos. “Em muitos casos, você tem a possibilidade de acessar uma linha de crédito mais atrativa, mas o agente financeiro não sabe explicar o que precisa ser feito para alcançar esse recurso”, afirmou Joyce Uliana Rosa da Silva, gerente da Socio Tec, fabricante de equipamentos de automação para o setor de confecções.

Para combater essas barreiras, a Anpei e outras entidades estão trabalhando em uma série de ações. Uma delas é a sugestão de extensão do Simples Nacional para empresas que visam a exportação e têm um faturamento de até R$ 15,9 milhões. Outro foco são as conversas com bancos públicos para estabelecer um novo modelo de avaliação para a concessão de crédito de risco. A definição de políticas para incentivar as parcerias com institutos de pesquisa e universidades completa o pacote de iniciativas. Empresas de médio porte têm restrições para inovar por falta de financiamento

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