Fonte: iG - 28/10/2013 - 6h00
# Com eventos musicais transmitidos pela internet, empresas buscam ampliar a exposição da marca reduzindo as despesas
Bárbara Ladeia - iG São Paulo
Sem lançamentos desde 2005, o rapper Gabriel O Pensador voltou na última semana aos palcos paulistas. Em uma apresentação pouco convencional para um show de rap, seu estilo musical – o Teatro Renault, no centro de São Paulo, não costuma receber MCs, rappers e artistas do gênero. No entanto, cerca de dois terços das cadeiras estavam ocupadas, com cerca de 600 pessoas. A maior parte do público estava bem longe do palco. Eram mais de 9 mil pessoas sentadas em suas casas, na frente dos próprios computadores acompanhando o evento pela página do Facebook da principal patrocinadora do evento.
A transmissão online de shows tem sido uma nova ferramenta de marketing para empresas que procuram formas de se aproximar de um público jovem, apegado com eventos musicais. Na última terça-feira (22), era Gabriel o Pensador quem carregava a marca da Sky do Teatro Renault até os espectadores, em seus computadores, tablets e smartphones. Entre uma rima e outra, um recado para o público presente e outro para a câmera, levando a interação também para quem está longe – e, diga-se de passagem, não pagou nada pelo ingresso.
Esse é o principal negócio da Livebiz. Comandada pelo publicitário Gustavo Marques, a empresa é pioneira em ações de marketing que envolvam música e transmissão online de eventos. “Micareteiro”, Marques foi o fundador do Carna Rio Preto e outros eventos universitários que agitam cidades do interior de São Paulo. Seguiu carreira em uma agência de publicidade totalmente voltada para o mercado digital. Há um ano resolveu unir suas duas especialidades e criar a Livebiz, que hoje atende a empresas como a Sky, a Nissin e a Fiat
A proposta da empresa é uma inversão de ótica no marketing por meio de eventos: em vez dos produtores dos shows procurarem as marcas para patrocínio, as marcas criam seus próprios shows.
O modelo lembra os festivais proprietários, que Marques pretende ressuscitar já no próximo ano, como o Philips Monsters of Rock, o Skol Beats e o Free Jazz, por exemplo. “As empresas vêm comprando cotas de patrocínio sem, muitas vezes, pensar se há uma real conexão com o conteúdo e o público com que trabalham”, diz. “Quando é a própria marca que modela o show, é muito mais fácil conectar o artista, a marca e o cliente.”
Outra vantagem é o custo. O perfil exclusivo de alguns shows menores alimenta os fãs e enxuga o orçamento – a transmissão fica encarregada de disseminar a marca e o artista. Um exemplo foi o recente show da cantora Claudia Leitte no Na Mata Café, em São Paulo. Com ingressos sorteados em fã-clubes, foram 100 convidados para o evento, número desproporcional para o tamanho do público da artista – Cláudia já tocou para mais de 100 mil pessoas em eventos como o Rock in Rio.
O grande público estava em casa: eram 30 mil atrás das telas durante o show. Em menos de 20 minutos, a combinação @claudialeitte no #skylive levou a marca da Sky aos tópicos mais mencionados no Twitter no mundo todo, onde ficou por uma hora. Depois do evento, outros 60 mil assistiram ao show que ficou disponível na internet por cinco dias.
Gerar conteúdo, na visão de Marques, é condição essencial para uma estratégia publicitária eficiente nesses novos tempos em que o apelo da propaganda convencional não toca o consumidor. “Hoje ninguém mais consome só a publicidade, é preciso dar um bom motivo para os fãs falarem de você”, afirma o empresário.
Do ponto de vista de entretenimento, o executivo também vê mudanças. “A maneira como consumimos música mudou radicalmente desde que vieram os formatos digitais”, explica. “Aquele contato com o disco, com o encarte e com o CD, por exemplo, não existe mais.”
Cena independente
A mudança na forma de consumo da música apontada por Marques também é sentida pelos recém-empreendedores Daniel Arcoverde e Rafael Belmonte, fundadores da NetShow.me. Há pouco menos de um mês no ar, a startup já está em processo de aceleração para a primeira rodada de investimentos.
Diferentemente da Livebiz, o foco principal da NetShow.me é oferecer uma forma inovadora de popularizar o trabalho de músicos que ainda não chegaram aos line-ups de grandes festivais e shows. Com data a horário marcado, basta uma boa conexão na internet, uma câmera e um microfone para que músicos possam se apresentar online.
O usuário compra moedas da plataforma e as utiliza para comprar ingressos para os shows e dar gorjetas aos músicos. Pela internet, os artistas respondem perguntas enviadas pelo público, oferecem música para os fãs e até leiloam brindes pela maior gorjeta oferecida.
A NetShow.me morde um pedaço do faturamento total do evento entre bilheteria e adicionais. O desconto varia de 52% a 72% do valor líquido de impostos – quanto maior o faturamento, menor a fatia da plataforma sobre o cachê dos artistas.
Daniel Arcoverde afirma estar em busca de uma parceria de peso para alavancar o peso da plataforma nos meios musicais. “Queremos artistas âncora, que tenham essa motivação de alimentar o cenário independente”, diz.
Por ora, seus principais parceiros têm sido os estúdios, que oferecem aos músicos a transmissão de shows como um novo produto.“Se tudo sair como planejamos, vamos começar a ter resultado positivo em janeiro de 2005”, conta o empresário. A perspectiva do show com artistas de renome, no entanto, pode adiantar esse evento.