25 de maio de 2015

Construção faz planos para voltar com força no pós-crise

Fonte: A Tribuna - http://www.atribuna.com.br/ - 24/5/2015, página C-1, Economia

# Empresas seguram lançamentos devido à retração do mercado, mas compram áreas ou engatilham projetos

MARCELO SANTOS

DA REDAÇÃO

Em um ano de incertezas, os empresários da construção civil pisaram fundo no freio dos lançamentos, mas não pararam por completo o setor. A estratégia do momento é adquirir terrenos, pois os preços estão mais atraentes, ou engatilhar projetos para que sejam lançados assim que o clima da economia melhore.

O diretor da Pred Center, Luiz Antônio Paiva dos Reis, afirma que os construtores precisam estar preparados para o momento em que a economia voltar a crescer. Mas, segundo ele, as construtoras da região já vinham trabalhando em um ritmo menor mesmo antes das eleições.

O presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (Assecob), Gustavo Zagatto Fernandez, diz que uma das grandes mudanças no mercado regional é a saída das construtoras de capital aberto, o que diminui mais ainda a possibilidade de lançamentos.

Essas empresas tiveram que crescer rapidamente após abrir o capital a partir do final da década passada, e avançaram para várias regiões, entre elas a Baixada Santista. Segundo Fernandez, essas companhias investiram em mercados onde conheciam pouco e agora se voltam para a Capital para se reestruturar.

Esse êxodo melhorou a oferta de terrenos para os construtores santistas. Exemplo disso é o diretor do Grupo Macuco, José da Costa Teixeira. Ele adquiriu há alguns meses área de uma incorporadora paulistana e pagou 30% menos do que a companhia investiu na compra inicial. O diretor regional do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), Ricardo Beschizza, afirma que não pretende fazer lançamentos nos próximos 12 meses. “Há um excesso de oferta que precisa ser absorvido”, diz ele.

A retomada, porém, depende da melhora do clima político e da economia. “Se não houver melhora, os lançamentos serão adiados”. Mas ele acredita que isso não significa uma paralisação total do mercado. Ele acha possível ocorrerem negócios pontuais com algum sucesso. Caso aconteçam, serão tão raros que se tornarão cases (negócios que se tornam referência para o mercado).

O diretor da Real Consultoria Imobiliária, José Kauffmann Neto, afirma que há quatro ou cinco empreendimentos já engatilhados pelas incorporadoras parceiras da

Real e que só esperam sinais mais firmes da economia para lançá-los.

No ano passado, diz ele, terrenos foram adquiridos no Valongo, mas os empreendimentos sairão do papel conforme a Petrobras se recupere de sua crise e acelere os investimentos no pré-sal.

Kauffmann afirma que a queda atual das vendas está atrelado ao medo do comprador com o futuro. “Na hora que começarem as notícias positivas, esse medo vai desaparecer”.

DESEJO E NECESSIDADE

Ele lembra que o processo da compra é motivado pelo desejo e pela necessidade. O desejo, diz Kauffmann, está contido pelo medo. Já a necessidade não tem como adiar. “As pessoas se casam, ficam viúvas, se separam, seus filhos saem de casa”, menciona ele os casos em que os compradores são obrigados a adquirir imóveis.

O executivo lembra que o processo de um empreendimento imobiliário leva de três a quatro anos, da compra do terreno à venda das unidades, para ser concluído. Por isso, mesmo num momento de incerteza e de crise que ainda não mostrou sua intensidade, o incorporador é obrigado a planejar.

Além disso, diferente das crises dos anos 1980 e 1990, quando não se sabia quando o País iria sair da recessão, agora, afirma Kauffmann, há uma expectativa de que a economia volte logo a crescer. A retomada deve acontecer após o mergulho profundo da economia que deve ocorrer como efeito do ajuste fiscal do governo combinado com juros altos.

O economista Delfim Netto estima em pelo menos 15 meses o tempo para o País voltar a crescer. Isso se o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, atingir sua meta principal, que é obter superávit primário de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano (o governo terá que economizar o valor equivalente a esse percentual para convencer o mercado financeiro de que tem caixa para pagar a dívida pública).


# Estratégias

A crise fez o diretor do Grupo Macuco, José da Costa Teixeira, dar uma guinada radical em sua estratégia de negócios. Teixeira é um dos maiores construtores de Santos e muitas de suas torres têm mais de 30 andares. O empresário comprou terrenos até novembro, mas a suspensão das aquisições se deve à expectativa dele de que os preços vão cair mais com o êxodo das construtoras da capital.

Teixeira também revisou sua estratégia de lançamentos. Ele cancelou dois empreendimentos prestes a serem comercializados – um de alto padrão e outro com apartamentos de dois e três quartos.

O cancelamento tem impacto no mercado de trabalho. Teixeira diz que fazia de duas a três demissões por mês. Com as duas desistências, o corte foi de 40 trabalhadores.

“Acredito que estaremos melhor em 2016. A situação é preocupante. Temos um problema econômico e um problema político sério e não há liderança (política) no País. Falta uma liderança de consenso que não pense apenas em si”.

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