07 de janeiro de 2014

Coletivo espanhol de arquitetos usa "lixo" para recuperar espaços públicos

Fonte: Folha de S. Paulo - 7/1/2014 - 7h30

MACARENA SOTO

DA EFE

Conhecidos por obras de recuperação do espaço público em lugares emblemáticos como os viadutos do Chá e Minhocão, em São Paulo, ou o parque madrileno Campo de la Cebada, o coletivo espanhol de arquitetos Basurama recorre a resíduos (lixo) para "perverter a paisagem" e contribuir para "a conquista de uma democracia real".

Eles já atuaram em mais de 18 países, realizando intervenções como a criação de um parque infantil com pneus em Lima, no Peru, ou uma mesa de música eletrônica itinerante em Miami (EUA), nascida de resíduos eletrônicos.

"Em São Paulo, montamos balanços no viaduto do Chá e crianças e adultos fizeram fila para subir", lembra Miguel Rodríguez, um dos fundadores do Basurama, formado em sua maioria por arquitetos espanhóis que sentiram a necessidade de buscar espaços livres e criativos que, segundo eles, a universidade não oferecia.

Em 1997, 11 estudantes de arquitetura da Universidade Politécnica de Madri embarcaram nesta aventura "de lixo" que, conforme conta Rodríguez, dá-lhes de comer e a opção de criar projetos participativos que buscam provocar "uma mudança de percepção" das cidades.

"A conquista de uma democracia saneada é a conquista do espaço público saneado, porque espaço público e cidadania estão absolutamente relacionados", diz o arquiteto, que em São Paulo dirige o Basurama Brasil com a colaboração de Ángela León.

Nesta linha, ambos afirmam que São Paulo está vivendo "uma catarse total com o uso dos espaços públicos" e que, sendo "uma típica grande cidade americana", sofre "insegurança precisamente pela falta de uso destes lugares".

"De repente, São Paulo começa a reconhecer que tem espaços públicos e surgem movimentos de classe média urbana que lhe dão uso", diz Rodríguez.

Na Virada Cultural de 2013 em São Paulo, o coletivo instalou balanços de pneus descartados no Viaduto do Chá (região central)

LIXO CULTURAL

Para o Basurama, o lixo fala sobre o cidadão", já que é "um elemento que define as cidades e os países tanto como a gastronomia ou o artesanato".

"Surge-nos a 'faísca' do lixo [a ideia do projeto] quando nos damos conta de que há muita gente sensível aos resíduos, em geral pessoas que trabalham com lixo e aquelas mais pobres, já que ele se torna sua fonte econômica e sua forma de trabalho", diz Rodríguez.

No entanto, apenas em 2011 o Basurama obteve relevância internacional, quando vários membros tiveram a oportunidade (ou a vontade) de ir para outros países e, conta o arquiteto, "ver coisas que na Espanha já não acontecem há décadas, porque o lixo está privatizado".

"Viemos para aprender, não para dar lições a ninguém, aqui vemos coisas que na Espanha se perderam e que achamos positivas", diz Rodríguez.

O arquiteto critica que a reciclagem faça "parte do pacote que nos vendem com o desenvolvimento", mas que, segundo ele, "está carregada de perversão".

"Cria-se toda uma indústria baseada na destruição de vasilhas e na nova criação delas quando, na realidade, teríamos que tender à redução e à economia energética", afirma.

PLANOS

Para o futuro, o Basurama continuará com intervenções no Brasil e em outros lugares através de projetos como o já criado RUS (Resíduos Urbanos Sólidos) ou Pan Am, de documentação sobre diferentes lugares abandonados.

Além disso, entre os planos para os próximos meses também está a publicação de um guia prático dos processos de intervenção para que "qualquer um possa mudar seu bairro com os resíduos que tem à mão", diz Rodríguez.

Compartilhe

Este site usa cookies e dados pessoais de acordo com os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade e, ao continuar navegando neste site, você declara estar ciente dessas condições.