Octávio Costa - Chefe de redação do Brasil Econômico
A primeira leitura sobre a decisão do Copom de elevar a taxa Selic para 8% ao ano fez entender que a equipe econômica privilegiou o combate à inflação em detrimento do crescimento da economia. E não havia outra interpretação possível.
Afinal, no mesmo dia que o IBGE anunciou o minguado PIB trimestral de 0,6%, a diretoria do Banco Central resolveu apertar o garrote dos juros básicos.
Não houve maiores explicações, a não ser a necessidade de jogar a inflação para baixo da meta agora e no ano que vem. Diz-se que, com o aumento dos juros, o BC pretende fortalecer o real e injetar confiança nos consumidores.
De qualquer forma, foi geral a surpresa com a dose de 0,5 ponto percentual. Diante do fraco desempenho do PIB, esperava-se no máximo um ajuste de 0,25 ponto percentual e olhe.
O Banco Central, acima de tudo, deu uma sólida demonstração de independência. Deu as costas para o desafio do crescimento e usou seu arsenal para atacar a alta dos preços. Com o voto unânime de seus diretores, mostrou que essa pode não ser a prioridade da equipe econômica, mas é a da autoridade monetária.
E aí, sim, não há motivo para surpresa. Na teoria e na prática, a missão institucional do Banco Central é exatamente zelar pela estabilidade da moeda. Foi esse o recado que Alexandre Tombini e seus pares mandaram para o mercado financeiro ao chutar o balde na reunião de quarta-feira. Se existe preocupação do governo Dilma em fermentar o crescimento do PIB, o BC tem tarefa mais imediata à sua frente: impedir o desgaste do real.
Baste ver o tom seco do comunicado oficial: "O comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano".
Faltaram as referências habituais ao cenário externo e à conjuntura econômica. O Copom concentrou o foco em cima da inflação, como aqueles cavalos de corrida indóceis que usam antolhos laterais para não olhar para os lados.
Com apoio até mesmo dos dois diretores que há um mês votaram contra o ajuste de 0,25 ponto percentual, aplicou uma dosagem ainda mais forte. Vale lembrar, porém, que o BC foi lento ao decidir elevar os juros. Só o fez em abril, quando a inflação já batia no teto da meta. Agora, aplica a alta de 0,5 ponto para quebrar as expectativas inflacionárias.
Mas tudo indica que o BC chegou atrasado na festa dos preços. Os sinais já mudaram. O consumo das famílias está em queda e a inflação se estabilizou. Nesse contexto, o aumento da taxa Selic pode ter o efeito perverso de derrubar ainda mais o ânimo da indústria.
Para a CNI, apesar da boa intenção, a alta dos juros "impõe mais dificuldades para o setor industrial retomar o crescimento". A Fiesp reagiu no mesmo tom: "O Brasil precisa de um choque de competitividade, investimento e produção, e não da mesmice do aumento dos juros".
Todas as previsões sobre o PIB foram refeitas para algo em torno de 2%. O próprio Mantega admitiu que terá de rever as metas oficiais. Foi o que ele afirmou, antes mesmo da decisão do BC. Agora, o quadro ficou ainda mais difícil. O BC tirou a escada e deixou a Fazenda com a brocha na mão.
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Octávio Costa é chefe da redação do Brasil Econômico
Fonte: Brasil Econômico - 31/5/2013