03 de novembro de 2014

"A prioridade é comercializar e colocar o conhecimento no mercado"

Fonte: Época Negócios - 3/11/2014 - 10h04

ATUALIZADA EM: 3/11/2014 - 10h17

# DIRETORA ADJUNTA DE CIÊNCIA E INOVAÇÃO DO REINO UNIDO NO BRASIL, CAROLINA COSTA FALA COMO O PAÍS SAIU DE 14.º PARA A SEGUNDA POSIÇÃO NO GLOBAL INNOVATION INDEX

POR CRISTIANE BARBIERI

Em cinco anos, o Reino Unido passou do 14.º lugar no Global Innovation Index para o 2.º lugar, atrás apenas da Suíça. Feito pela Universidade de Cornell, pelo Insead e pela Organização Global de Propriedade Intelectual, o ranking tenta identificar quais países têm o melhor ambiente para a inovação, vetor que estimula a produção, a criação de empregos qualificados e a competitividade. Carolina Costa, diretora adjunta de Ciência e Inovação no Consulado Britânico em São Paulo, explica como o país conseguiu galgar tão rapidamente posições no levantamento e como uma parceria entre os dois países pode ajudar na volta do crescimento e do fortalecimento de uma indústria brasileira mais competitiva. Entre as iniciativas estão a conferência Innovate UK, que acontecerá entre os dias 3 e 7 de novembro, em Londres e uma parceria entre o governo britânico e o Sapiens Park, de Florianópolis.

- Como o Reino Unido conseguiu ganhar tantas posições como um dos países mais inovadores, em tão pouco tempo?

Com a crise em 2009, o governo de coalizão assumiu uma política de austeridade, mas o orçamento destinado a Ciência e Inovação não foi cortado. Esse foi um sinalizador muito forte da importância do tema inovação no Reino Unido. Um dos pontos fortes, por exemplo, é o capital humano, construído em universidades e o Reino Unido tem várias entre as melhores do mundo. Já há um ambiente que favorece o sistema de  inovação britânico, como o mercado de capitais forte e um sistema legal que não é tão complicado. Um bom ambiente de negócios também atrai o capital de risco, que é outra das bases da inovação. Mas também foram feitas mudanças em áreas importantes, que melhoraram o ambiente de negócios para a inovação. Tornou-se prioridade comercializar o conhecimento e colocá-lo no mercado. Também houve uma abertura maior para investidores estrangeiros, que viram no Reino Unido um polo de entrada para o ambiente europeu. Mas o mais relevante foi mesmo o apoio nessa transição, da parte da pesquisa para o ambiente de negócios. Até algum tempo atrás, quem trabalhava com conceitos de inovação o fazia de uma maneira sistêmica: o professor da universidade fazia uma startup, que fazia a prototipagem para ver se podia ser vendida comercialmente e, se tudo der certo, virava empresa. Hoje, se vê inovação e seu processo como algo mais dinâmico. Os pesquisadores, por exemplo, licenciam para empresas e há outros caminhos mais complexos e menos lineares.

- Como isso foi feito, na prática?

Existem outros caminhos e ligações dentro desse sistema de atores que é muito mais complexo do que esse sistema que se via de uma forma linear. Foi dentro da complexidade desse sistema que o governo britânico atuou e envolveu agências, mecanismos de financiamento, para estimular todo esse tipo de ligações. Não só estimulou o relacionamento entre universidades e indústrias, como criou centros de inovação que fazem desenvolvimentos variados. Se houver, por exemplo, a tecnologia para desenvolver uma caneta de bambu, os centros farão estudos para ver se é comercialmente viável fazer essa caneta numa escala maior.

- O que são centros de pesquisa catapultas?

São centros divididos em área de pesquisa e que estão distribuídos pelo país inteiro e unem indústrias, governo e academia. Elas têm ferramentas diferentes e em estágios diferentes. Algumas foram anunciadas no ano passado e outras já existem há alguns anos. Esses centros usam investimento público e privado para viabilizar a inovação. Trabalha um pouco como a Embrapi, criada nos moldes da Embrapa, mas para outras áreas da indústria e não só do agronegócio. É uma maneira de estimular inovação na indústria. É ums forma de a empresa ter acesso a centros de pesquisa de ponta, sem ter de construir um centro de P&D . Nas catapultas, há laboratórios, pesquisadores e governo envolvidos e em que várias áreas são envolvidas para estimular a inovação. Há centros de engenharia avançada, em Sheffield, em que há muito desenvolvimento com a Boeing, nas áreas automotiva e espacial e é um dos grandes centros de inovação britânica e que está com várias parcerias no Brasil.

- E como é o Sapiens Park, que o Reino Unido está apoiando em Florianópolis?

O governo britânico no Brasil está co-financiando, em parceria com o MCTI, um estudo sobre os gargalos e desafios dos parques tecnológicos no Brasil. A Fundação Certi, gestora do Sapiens Park, que está conduzindo este estudo e articulando com a Associação Britânica de Parques Científicos (UKSPA) e com a UK Business Incubator. A proposta é utilizar a experiência britânica na gestão de parques para identificar pontos de crescimento e auxiliar a gestão e formulação de políticas de apoio aos parques de forma mais eficiente. Os resultados finais do estudo serão apresentados nos dias 3 e 4 de dezembro em um evento em Brasília.

- O relatório go Global Innovation Index aponta que os gastos com P&D no Reino Unido diminuiram em 2014 e tendem a cair no próximo ano. Há risco de o país se tornar menos inovador?

Os investimentos em P&D em relação ao PIB no país estão abaixo da média que se propõe para a Europa, mas sempre foi assim. Isso não irá se traduz em queda no ranking de inovação. Teremos mudanças com as eleições, mas nos últimos anos a política de ciência é vista como prioridade. O governo britânico sabe que grande parte do PIB é proveniente de setores de alto conhecimento e indústrias como de educação, ciências da vida, farmacêutica, biotecnologia e engenharia avançada. São áreas que exigem capital humano forte.

Compartilhe

Este site usa cookies e dados pessoais de acordo com os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade e, ao continuar navegando neste site, você declara estar ciente dessas condições.