Fonte: A Tribuna - 7/12/2014, página C-6, Porto & Mar
# Entrevista - Lawrence Pih, Presidente do Moinho Pacífico
LEOPOLDO FIGUEIREDO
EDITOR
As dificuldades enfrentadas pela economia brasileira neste ano devem continuar em 2015. Uma recuperação depende pontualmente da atuação da equipe econômica e da autonomia que a presidente Dilma lhe dará, analisa o presidente do Moinho Pacífico, Lawrence Pih. Ele é o entrevistado desta semana da série 2015 em Análise – que A Tribuna publica aos domingos, até o início do próximo mês. À frente de um dos principais moinhos do País, com instalações no retroporto de Santos, Pih ainda destaca a importância de o Governo reavaliar seus programas sociais e defende a nova Lei dos Portos. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
- O Governo prevê que a economia em 2015 apresentará resultados semelhantes à deste ano. O crescimento do PIB, por exemplo, deve ficar em 0,2% agora e chegar a 0,8% no próximo ano. Qual sua expectativa para 2015?
Na realidade, 2014 foi um ano bastante difícil. Nós vamos ter eventualmente um crescimento de 0%. E 2015 é a continuação dos efeitos de 2014. O fato de não termos a expectativa de um aumento mais forte da economia é em função de 2014 e as políticas que o Governo implementou nos últimos quatro anos. A inflação continuará no teto, na margem de 2% a mais da meta central, que seria 6,5%. O câmbio, provavelmente, estará mais perto de R$ 2,60 até o final de 2015. Mas isso vai depender muito da equipe econômica. Vamos analisar as peças centrais, que são essencialmente Fazenda, Banco Central e Planejamento.
- Qual sua avaliação sobre a indicação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda?
Nós vamos ter uma pessoa que tem uma formação acadêmica mais para monetarista do que para desenvolvimentista. E, na minha modesta opinião, é do que precisamos hoje. O Joaquim Levy tem um currículo de prestação de serviços ao setor público e ao setor privado. Eu vejo nele uma pessoa com visão dos dois lados. E o fato de ele já ter participado da máquina administrativa do Governo lhe credencia um pouco mais.
Ele tem experiência em lidar com o universo político, que é um pouco diferente do universo privado. Eu vejo nele a pessoa certa para a Fazenda. Para apaziguar um pouco a resistência da ala mais radical do PT, Nelson Barbosa foi para o Planejamento, que é mais heterodoxo. E não seria a pessoa adequada para a Fazenda.
- Por quê?
Ele é mais desenvolvimentista. Ele abraça um pouco mais a visão da presidente Dilma, que a gente chama de Dilma 1.0. E agora é, no segundo mandato, Dilma 2.0. Ele se assemelha mais à Dilma 1.0, com todo aquele modelo econômico que, hoje, muitas pessoas acham que foi um equívoco. Então ele é uma forma de apaziguar um pouco do ânimo da ala mais à esquerda do PT. E o (Alexandre) Tombini é um bom economista a meu ver, uma pessoa competente. Entretanto, ele não teve a independência e a autonomia para agir no primeiro mandato.
Eu não acredito que ele teve toda essa autonomia que todo mundo no Governo alega que ele tem. Vamos ver agora se a presidente se conscientizou da gravidade da situação do País e deixa a economia fluir dentro de sua própria lógica.
- O sr. acha que a equipe econômica terá maior autonomia?
Eu acho que eles vão ter vontade de fazer isso. Acredito que, provavelmente, mais o Levy do que o Tombini deve ter dito à presidente, quando foi convidado, que ‘eu preciso de autonomia para poder implementar o que eu acredito que seja necessário nesse momento’. Como ela se dispôs a convidar o Levy, sinaliza que ela concorda com a visão dele da economia e concorda com o mercado. Os governos têm muito poder, mas o mercado é infinitamente mais poderoso do que qualquer governo.
Não esqueça de uma coisa: nenhum investidor é obrigado a investir no Brasil, tanto os investidores domésticos quanto os estrangeiros. Se acham que o Brasil não é uma boa aposta, simplesmente levam-se os recursos a outro país. E sabemos que o Brasil necessita de investimento, porque o setor público não tem capacidade de investir. Neste momento, acredito na quase necessidade de algum respeito à lógica do mercado.
- Dilma 2.0 está mais sensível ao mercado do que Dilma 1.0?
A presidente Dilma está mais sensível ao mercado, pois não tem alternativa. O DNA da presidente é socialista. É o modelo socialista, no sentido puro da palavra. Não é social-democracia, mas socialismo mesmo. E nisto, se ela mudou, ela mudou por circunstâncias. A minha pergunta e a de todo o povo brasileiro é a seguinte: até que ponto a presidente vai tolerar desemprego e crescimento perto de zero. Até quando ela conseguirá aguentar isto. Porque a dor vai ser prolongada. Não se resolve o problema em seis meses.
As questões estruturais são tão complexas no Brasil e tão difíceis de equacionar que, simplesmente, mudar a equipe e a orientação econômica não basta.
Essas medidas não mexem com a estrutura do País. E isto é que é necessário para o Brasil crescer em seu potencial, que é muito, muito além de 2%, 3%.
- Quais as medidas necessárias para mudar a economia?
Conjunturalmente, seriam elevar os juros, cortar gastos e deixar o câmbio flutuar. Mas vai além disso. As nossas contas externas vão chegar a um quadro de US$ 85 bilhões de déficit. Até outubro já chegou a US$ 79 bilhões. Ao mesmo tempo, vemos definhar o investimento externo direto, que, a cada ano, cai um pouco. Nós temos um gap de passivo externo bruto e todo ativo do Brasil externo de US$ 900 bilhões.
Vamos supor que esses US$ 1,7 trilhão almejem um retorno de 10%. Você está falando de US$ 170 bilhões por ano de possíveis remessas ao exterior. Se alguém investiu aqui quer retorno, evidentemente. Então você vê que o nosso déficit em conta corrente é estrutural.
- E os números domésticos?
Na parte interna, nas contas fiscais do Governo, não vamos conseguir manter a metade 1,9% do PIB de superavit primário, que é para pagar os juros. Você pode tirar toda a maquiagem do Governo – e, agora, tem o projeto no Congresso, por parte do Executivo, para simplesmente esquecer o déficit. Ninguém é burro.
Você pode maquiar o número que você quiser. Então você tem uma situação em que as contas externas estão muito difíceis, as contas internas também muito difíceis, o Governo sem capacidade de investir, a carga tributária de um nível europeu com um retorno com certeza não equivalente ao padrão europeu. Então você tem uma situação em que há poucas saídas. No Brasil, hoje, existem mais de 110 milhões de brasileiros que recebem algum tipo de benefício do Governo.
São 50 milhões só no Bolsa Família. Se você acrescenta aposentadorias, benefícios por invalidez, abonos, benefícios para os desempregados, são 110 milhões de brasileiros. Evidentemente o estado de bem-estar social é um objetivo do Governo. A questão é se essa generosidade cabe no orçamento do Governo.
- E qual o impacto dessa generosidade no desenvolvimento e na economia do País?
Na realidade, é uma opção da sociedade. Mas o Governo tem de arbitrar isso. A população sempre vai querer mais benefícios. É da natureza humana.
Todo mundo prefere trabalhar menos e ganhar mais ou, preferencialmente, não trabalhar e continuar ganhando. Mas como isso é impossível, por que alguém tem de produzir, cabe ao Governo ter a sabedoria e também a responsabilidade de dizer: podemos ir até tal ponto.
- E quanto tempo levará para deixar a casa pelo menos apresentável?
Sob o aspecto de curto prazo, tudo isso que pode ser feito por essa equipe é paliativo. Eu acho que, no final de 2015, se essa equipe tiver o apoio da presidente, de continuar com uma política séria e segura, então a percepção para 2016 pode mudar um pouco. Pelo menos, os investidores vão estar mais animados a investir.
- Quais suas expectativas para os próximos quatro anos?
Serão difíceis. E não vejo saída, pois não tem vontade política para isso. Não esqueça que tem de mudar a cultura. E cultura não é fácil de mudar.
- O sr. citou a dificuldade de o Brasil escoar sua produção, a fim de exportá-la. Qual sua análise sobre o setor portuário brasileiro?
O setor portuário é muito importante para o agribusiness. Eu acho que, sem uma estrutura eficiente, nós continuamos tendo dificuldades para aumentar nossas receitas de exportação. O importante é que o Brasil realmente invista mais em infraestrutura. Mas, nisso, também vejo dificuldades.
E há outro obstáculo, que é a questão ambiental. E tem a confiança política e a disponibilidade de recursos ao setor privado, no País, também é limitada. A percepção de ceticismo do investidor externo em relação ao Brasil também é outro fator. Então tem menos entusiasmo para investir no Brasil.
Mas tenho de reconhecer que a Dilma avançou nesse sentido, de tentar democratizar mais a coisa, de torná-la mais transparente.
- A nova Lei dos Portos reduziu a autonomia das companhias docas, concentrando o poder decisório em Brasília. Qual sua opinião sobre o nível de autonomia das docas?
Se dá muita autonomia, acontece o que acontecia antes. É difícil. Eu critico a presidente em muitas coisas, mas ela está tentando trazer maior seriedade à gestão pública. Sobre essa concentração, acontece o seguinte: gato escaldado tem medo de água fria. A presidente Dilma conhece muito bem o que aconteceu em todos os portos do País. Então, ela disse: ‘Olha, se eu não controlar, a coisa não vai melhorar. Então, tenho de concentrar as decisões nas mãos das pessoas em quem eu confio’. E ela não está errada, dado o histórico do setor. Vamos voltar aos anos do PMDB.
Mas concordo que a concentração de poder em Brasília torna o processo mais lerdo e ineficiente. Agora, deixar a raposa cuidar do galinheiro também é um problema.