12 de agosto de 2013

A lógica do 'Estado bombeiro' e a cafeicultura

Fonte: CaféPoint / 12/8/2013

Além de colaborador, sou leitor assíduo dos portais da Rede Agripoint. Neles obtemos não apenas valiosas informações sobre o cotidiano de diversas cadeias do agronegócio, como também somos capazes de captar o humor daqueles que delas participam. Seja por meio de uma análise, ou ainda pelas cartas dos leitores, obtemos percepções que ajudam a moldar nossas opiniões e tornam a interação na internet uma experiência valiosa. Pois bem, acompanhando o andamento das discussões, é evidente o mau humor dos agentes ligados à cafeicultura. Os motivos do descontentamento são óbvios, bastando algumas horas no CaféPoint para entender o que incomoda o produtor brasileiro. As soluções, porém, não são tão óbvias, especialmente se o objetivo é um plano capaz de resistir no longo prazo.

Mais especificamente, chama a atenção a recorrência com que a palavra “governo” é utilizada nas queixas dos leitores. Ao que parece, passadas duas décadas de uma experiência transformadora para a cafeicultura brasileira – a desregulamentação do mercado –, boa parte dos produtores nacionais ainda não digeriu totalmente a nova realidade. Nela, o Estado deveria atuar como um criador de condições adequadas para o desenvolvimento das atividades econômicas, evitando, porém, maior intervenção na rotina dos agentes econômicos. E, convenhamos, boa parte da opinião pública critica ferozmente os excessos de Brasília – ou a sua incapacidade de entregar o prometido mesmo com tais “excessos”. Há apenas algumas semanas, milhões de brasileiros protestaram, entre outras coisas, contra tal situação.

Façamos, então, um rápido exercício de abstração. Ocorre que, em tempos de vacas magras, é recorrente no Brasil a busca por apoio desse mesmo Estado que criticamos, independentemente do setor considerado. Os métodos utilizados variam; menos heterogêneo é o tom dos pedidos. Geralmente, o governo é acionado para apagar o incêndio, assumindo os custos derivados do desempenho de uma determinada atividade econômica. Ao mesmo tempo, fala-se sobre reestruturação do setor, novas alternativas para um 'desenvolvimento sustentável', etc. Controladas as labaredas, entretanto, a maioria dos planos de longo prazo são abandonados, enquanto os agentes aproveitam os momentos de bonança. Tudo ficará relativamente calmo até que nova crise ecloda, em um ciclo que se repete continuamente.

A conta, claro, é paga por toda a sociedade. Muitos argumentarão que isso é necessário devido aos milhões de empregos gerados pelo setor beneficiado. Outros que aquele segmento da economia é fundamental para o desenvolvimento nacional. Independentemente do argumento, duas perguntas são incontornáveis: existe alguma hierarquia entre atividades produtivas, sendo algumas mais importantes que outras? Quem deve decidir isso: o mercado ou o governo? Para responder tal pergunta, convém simular exemplos com inúmeros setores, e não apenas aquele em que atuamos. Passando ao desfecho, se este é “sim, existem alguns setores mais importantes” e “o governo deve estar presente apoiando tais segmentos”, chegamos a um estágio em que o Estado decide quem tem que sobreviver, baseado nessa “escala de importância”, e faz tudo pela sua sobrevivência, ainda que as forças do mercado soprem para outro lado.

 

Não precisamos ir muito longe para concluírmos que a conta pode sair bem cara. Diante de um Estado especialmente permeável a demandas populistas – basta ver os rumos que o Congresso está tomando semanas após os protestos, com a votação de leis que demonstram irresponsabilidade em relação ao futuro – o prejuízo para a sociedade pode ser ainda maior. Hora de voltar à cafeicultura. Embora seja compreensível a aflição de centenas de milhares de produtores, temos a obrigação de lembrar que faltam mecanismos que permitam o auto-financiamento do setor no longo prazo, levando em conta os ciclos que o caracterizam. Não podemos oscilar entre a defesa do intervencionismo e a exaltação ao livre mercado de acordo com o contexto que enfrentamos.

Em resumo, ao ler os depoimentos dos leitores e o posicionamento do setor, sinto falta de um maior envolvimento com um plano de longo prazo para a cafeicultura em que os agentes privados ofereçam respostas para os problemas que enfrentam. Nele, o Estado tem um papel, claro; este, porém, deveria ser estruturante. Temas como taxa de câmbio, pesquisa e desenvolvimento, carga tributária e infraestrutura, entre outros, podem e devem ter a participação pública. O aprofundamento da reorganização do setor, porém, cabe aos milhões de integrantes do setor, seja individualmente em suas propriedades, seja coletivamente por meio das organizações que os representam.

É provável que este texto receba uma série de críticas, talvez até algum testemunho revoltado. Antes de fazê-lo, porém, recomendo fortemente a leitura de outro texto publicado no CaféPoint há cerca de um ano pelo Celso Vegro (As boas intenções '1'). Nele, um Plano Estratégico para o setor é dissecado com riqueza de argumentos. Com tantas conquistas nas últimas décadas, tenho certeza que a cafeicultura pode trilhar um caminho exitoso sem que, para isso, tenha que adotar o caminho da pressão ao governo com objetivos de curto prazo. E, justiça seja feita, bons exemplos já existem, de modo que um bom começo seria tentar replicar modelos bem sucedidos existentes em nossa própria realidade.

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