21 de maio de 2026

Último dia do XXV Seminário Internacional do Café tem debate sobre tarifas americanas

As incertezas regulatórias provocadas pela iminente implementação da legislação antidesmatamento da União Europeia (EUDR, na sigla em inglês), prevista para entrar em vigor no fim deste ano, e o cenário de imprevisibilidade gerado pelas tarifas alfandegárias norte-americanas ditaram o tom na manhã desta quinta-feira (21), no último dia do XXV Seminário Internacional do Café. Especialistas afirmaram que, embora o avanço do protecionismo global imponha novas barreiras comerciais, o ecossistema cafeeiro do Brasil desponta como um dos mais preparados para responder às exigências. As atividades do fórum prosseguem no período da tarde, no Santos Convention Center.

Mediador do painel Regulação, no qual o assunto foi tratado, o CEO do Cecafé, Marcos Matos falou a respeito de distorções da nova regra europeia, como o fato de a legislação não diferenciar florestas nativas de áreas plantadas. "Temos propriedades com florestas comerciais de eucalipto, por exemplo, o que já traz um risco de interpretação pela União Europeia. Além disso, o café solúvel ainda não entrou na lista de exceções da moratória, o que exige atenção", ponderou.

Para detalhar o enfrentamento à legislação europeia, o secretário-adjunto de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Augusto Luís Billi, criticou o caráter unilateral da medida. Para ele, os europeus têm dificuldades de entender a agricultura brasileira.

“Já falamos para eles sobre a dificuldade de implementação da EUDR. Aqui, temos nosso Código Florestal brasileiro (o qual exige a preservação de pelo menos 20% das propriedades rurais), que é mais rígido. Para nós, ele é justo. Agora, vou exigir que só exportem para cá países que obedeçam a nossa regra? Isso é colonialismo”, disse, ressaltando que não acha correto que a União Europeia obrigue as demais nações a se enquadrarem a sua realidade. Ele também disse que o governo federal tem ajustado sua comunicação, a fim de mostrar para os gestores da Europa “que somos diferentes”, o que torna incompatível adotar, aqui, medidas implementadas no Velho Continente.

Apesar das críticas ao modelo europeu, Billi assegurou que o Brasil figura entre os países mais bem preparados para atender às novas exigências. O secretário-adjunto destacou que, embora outros setores ainda possam enfrentar dificuldades estruturais, a cafeicultura nacional desponta na vanguarda do cumprimento das metas regulatórias.

Este cenário de conformidade prática foi corroborado pelo gerente sênior de Relacionamento e Comércio de Café da Rainforest Alliance, Kevin Lardner. De acordo com o executivo, o cruzamento de geodados fluiu de forma acelerada, permitindo que, atualmente, 70% dos detentores de certificados da Rainforest Alliance no Brasil já estejam plenamente alinhados aos critérios da EUDR. “Nossa expectativa é que o percentual cresça”.

Superados os debates sobre o Velho Continente, os holofotes do painel se voltaram para o cenário de imprevisibilidade gerado pelas barreiras alfandegárias norte-americanas. O presidente e CEO da National Coffee Association of USA (NCA), Bill Murray, detalhou que o governo do presidente norte-americano, Donald Trump, enxerga os impostos sobre a importação como um instrumento central.

Além disso, o executivo explicou que, embora a Suprema Corte dos Estados Unidos tenha considerado ilegais as primeiras tarifas lineares de 50%, o governo americano mantém uma taxa geral de 10%, que expira em julho, e já se articula para um novo pacote tributário. "No futuro, estaremos em dificuldade por causa das tarifas, que atendem aos interesses do Trump. Não há garantia para o futuro", advertiu Murray, pontuando o clima de incerteza que se desenha para o comércio global.

Economia mundial - O cenário macroeconômico mundial seguiu em pauta no evento. Isso por causa da palestra especial "Geopolítica - O Fim da Hiperglobalização e o Brasil", proferida pelo economista, professor, autor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Eduardo Giannetti. Em uma análise profunda sobre a reconfiguração dos mercados internacionais, o especialista defendeu que o enfraquecimento do modelo de integração global irrestrita, abalado sequencialmente pela crise financeira de 2008/2009, pelos gargalos logísticos da pandemia de covid-19 e pelas recentes diretrizes protecionistas do governo de Donald Trump, abre uma janela histórica de oportunidades para o Brasil.

Em sua explanação, Giannetti afirmou que o Brasil está diante de uma conjuntura única, porque o novo cenário global mudou os critérios de decisão de governos e grandes corporações, que agora priorizam segurança, diversificação e parcerias com nações diplomaticamente estáveis. Segundo ele, neste contexto, a nação desponta como uma potência cobiçada por ser um território geopoliticamente bem resolvido, sem conflitos com vizinhos e com trânsito livre entre as grandes potências. Além disso, o economista destacou que o Brasil detém ativos fundamentais para o futuro: uma matriz de energia limpa altamente requisitada, com potencial solar quase inesgotável, vastas reservas de minerais raros e críticos para as novas tecnologias e a consolidada condição de potência alimentar.

“Hoje, o mundo está a favor do Brasil. Viramos a página desta ridícula polarização (política entre direita e esquerda), que não nos leva a nada. O Brasil representa 3% do PIB (produto interno bruto) mundial. Nossas exportações, 1%. Podemos mudar a lógica", sustentou Giannetti.

Ao voltar a comentar sobre a necessidade global de diversificação e segurança no fornecimento de alimentos, Giannetti projetou um novo horizonte para o agronegócio do País, enfatizando a relevância de agregar valor às exportações. "No café, vamos vender menos in natura e mais industrializados", concluiu o economista, apontando a industrialização e o comércio como caminhos fundamentais para que o Brasil converta seu potencial agrícola em desenvolvimento técnico e competitividade internacional.

Infraestrutura - Quem também subiu ao palco do seminário foi o diretor-executivo do Centro Nacional de Navegação Transatlântica (CentroNave), Fábio Lavor. Ele proferiu a palestra Infraestrutura para o Comércio Exterior Brasileiro. Nela, o executivo salientou que um dos grandes impasses do setor é a incapacidade de os portos nacionais receberem os maiores e mais novos navios da frota global, que hoje estão mais de quatro gerações à frente da nossa infraestrutura.

Em sua fala, o especialista deu um exemplo do contexto atual, citando embarcações de 366 metros (escala 366M). Segundo Lavor, nenhum dos oito portos homologados no País para embarcações maiores consegue recebê-las em total capacidade operativa.

"É um cenário de perda para todo mundo. Perdem os armadores, perde o porto, que não atua com sua total capacidade, e perde a carga", advertiu, destacando o prejuízo na competitividade de produtos como o café e o impacto ambiental, já que navios modernos são fundamentais para as metas globais de descarbonização por emitirem menos carbono.

O XXV Seminário Internacional do Café Santos tem patrocínio de ApexBrasil, Brasil Terminal Portuário, MSC, StoneX, Autoridade Portuária de Santos, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Governo Federal, Contegran, Nucoffee, LDC, Ofi e Sucafina. Cafeteria oficial: Cooxupé, SMC e Prima Qualit

O cenário macroeconômico mundial esteve na pauta no último dia do evento, que contou com representantes de 28 países

Compartilhe

Este site usa cookies e dados pessoais de acordo com os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade e, ao continuar navegando neste site, você declara estar ciente dessas condições.