O El Niño é um fenômeno que vai além do oceano: é socioeconômico com impactos diferentes em todos os lugares. Esse foi um dos alertas do pesquisador José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que abriu os painéis do El Niño Day, realizado nesta quarta-feira (21), na Associação Comercial de Santos, para discutir os possíveis impactos do fenômeno e contribuir para a preparação dos setores envolvidos.
Com a apresentação “El Niño: o que é? Por que será ‘super’?”, o especialista destacou que não se trata de um fenômeno novo e lembrou que o pior episódio se deu entre 1877 e 1879 registrando muitas mortes. “O clima não é o único responsável pelos eventos extremos, ele agrava um problema que já pode existir, como as ilhas de calor, o crescimento das cidades e a urbanização desenfreada”.
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico ficam mais quentes do que o normal por vários meses. Muito forte, ele pode alterar significativamente os padrões de precipitação e temperatura em todo o mundo e intensificar eventos climáticos extremos.
As projeções para o ciclo 2026/2027 indicam a atuação de um El Niño intenso, cenário que pode provocar reflexos em diferentes atividades econômicas. Foi o que confirmou Lucas Carvalho, do Climatempo. “Até abril, a chuva tende a ficar 300 mm acima do esperado e isso traz, por exemplo, impactos na logística do porto e pode ocasionar alagamentos. Há muito não se via uma Primavera tão chuvosa”.
Rodrigo Moreira Albano da Silva, da cooperativa de café Cooxupé, falou sobre os efeitos do fenômeno no campo, do plantio à colheita. “O ciclo do café é bianual, ou seja, leva dois anos para produzir e chegar na safra. O clima afeta toda a cadeia produtiva e você não o controla, apenas gerencia o risco”.
O capitão-tenente Fellipe Romão Sousa Correia, da Seção de Previsão do Centro de Hidrografia da Marinha (CHM), da Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) da Marinha do Brasil, apresentou os possíveis impactos no transporte marítimo mundial e nos portos do Atlântico Sul. Entre os pontos, ele destacou a importância de o setor operativo manter monitoramento contínuo das condições ambientais locais para a tomada de decisão, além de ser imprescindível o monitoramento por fontes oficiais de Meteorologia, como Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Fernanda Alarcon, da área de Mudanças Climáticas (Seclima), da Prefeitura de Santos, e a professora Alexandra F. P. Sampaio, do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas/Unisanta, encerraram o El Niño Day falando sobre os impactos do El Niño nas cidades, em especial em Santos, que é pioneira na construção do Plano de Ação Climática.
Fernanda trouxe o dado do Banco Mundial de que cada R$ 1 investido em prevenção e adaptação evita até R$ 7 em resposta emergencial às mudanças climáticas, enquanto Alexandra comprovou a importância do monitoramento e da prevenção. “Dar um aviso prévio 24 horas antes de um evento extremo pode reduzir os danos materiais em até 30% e salvar muitas vidas”.
Futuro – Presente no evento, o presidente da Associação Comercial de Santos, Elber Justo, afirmou que “o que aprendemos com tudo isso é que meio ambiente, agricultura, transporte e desenvolvimento urbano estão profundamente conectados. Por isso, enfrentar esses desafios exige diálogo entre governos, empresas, universidades, produtores, operadores logísticos e a sociedade”.
Ronald Pires de Moraes, coordenador da Câmara de Exportadores de Café da ACS, destacou que o recado do evento é que todos os setores precisam estar preparados. “Nós não podemos controlar o tempo, podemos nos preparar, no campo, na logística e na cidade”.