Fonte: Brasil Econômico / 19/11/2013
Disse por aqui que já estou empenhado na arrumação de fim de ano lá em casa
Daí que encontrei um texto bem interessante, que tem tudo a ver com estudos recentes da pesquisadora Anna Reading, professora do King´s College London. Ela tem sido bastante crítica em relação ao nosso relacionamento com a tecnologia. Segundo Anna, estamos sendo bastante relapsos com o meio ambiente, por exemplo, já que 80% dos produtos eletrônicos descartados são enterrados. E o pior: esse material geralmente é enviado para países pobres, muito pobres, detonando problemas de saúde, conflitos econômicos, exploração de mão-de-obra infantil, o diabo a quatro. Como a obsolescência tecnológica é um processo cada vez mais veloz, a quantidade de lixo produzido estaria muito além do aceitável. Sem falar no consumo exorbitante de energia elétrica e de água para manter essa indústria.
Por conta desses e de outros poréns, a Anna garante que essa história de nuvem computacional (ou cloud computing, em português) nada mais é do que retórica marqueteira. A gente costuma relacionar a nuvem a um ambiente idílico, angelical, fofo. Mas não é bem isso o que deveria acontecer, diz ela, justamente porque há muitos conflitos reais por trás de toda essa estrutura.
Como o nosso consumo de tecnologia é irracional, essas questões não são discutidas. Não se nega a importância nem da tecnologia nem da internet, claro. Mas o que se contesta é uma certa falta de reflexão sobre o que estamos consumindo. É o mesmo discurso usado sobre nossos tênis, por exemplo, que seriam fruto de trabalho escravo infantil na Ásia...
Outro ponto que Anna tem discutido é que tratamos muito mal a nossa memória. Ela diz que deixar nossa história arquivada em mídias digitais é um hábito perigoso, que pode prejudicar a transmissão de cultura, a longo prazo.
Tudo que é digital, afinal, desmancha no ar... (Como, aliás, bem sabe a Ingresso.com, que andou se enrolando, recentemente, com os dados supostamente sigilosos de seus clientes. Um perigo.)
Pois o textinho que encontrei lá em casa ontem tem a ver com essas perdas de referências graças ao surgimento de novas tecnologias. Em "A destruição do passado", o jornalista americano Alexander Stille conta o que ele viu na Somália. Diz ele que uma velha tecnologia de armazenamento e reprodução de dados - a fita cassete - ajudou a derrubar uma ditadura. Isto aconteceu na Somália, entre as décadas de 1970/1980.
É uma história interessante. Na Somália, os poetas sempre tiveram prestígio de superastros da indústria pop. Eles traduzem a voz e o sentimento do povo, que se identifica na poesia deles e por isso os respeita. Graças a uma população composta basicamente por nômades mal alfabetizados, a palavra falada guarda naquele país africano uma força incomum aqui no nosso planeta ahaha civilizado, tão viciado em TVs, rádios, imprensa e tecnologias de informação. Lá não existem editoras, a circulação de jornais é ínfima, e a palavra ao pé do ouvido ainda vale ouro. E alfabetizar o povo é difícil, até porque é complicado traduzir para algum alfabeto os 28 sons vogais da língua somali.
Mas um curioso fenômeno tecnológico contribuiu para essa permanência no analfabetismo. Diz Stille que, nos anos 1970, um aparelho de alta tecnologia chamado gravador de fitas cassete ganhou o gosto popular por ser barato e por dar conta do recado - literalmente. O raciocínio que ganhou as ruas foi basicamente este: para que aprender a escrever se podemos trocar cassetes entre parentes e amigos, fazendo circularem "cartas orais" que divulgam tão bem as ideias de todos?
Foi através de fitas cassete que a ditadura de Mohammed Siad Barre começou a cair, ainda nos anos 1980, entrando pela década seguinte. Deve-se a elas a circulação de poemas revolucionários, que detonaram a derrubada de Siad Barre. E por aí vai uma longa e curiosa história política, a ser contada alhures.
O que me interessa, aqui, é mostrar que o povo somali passou diretamente da tradição oral de cultura para a época da reprodutibilidade técnica (como diria o pensado Walter Benjamin, na década de 1930). Assim, os somalis pularam cinco mil anos de história da escrita para cair na era da mídia eletrônica audiovisual. Sim, porque depois dos gravadores surgiram as... câmeras de vídeo, que inundaram o país nos anos 1990.
Por isso, diz o Stiller, não é de se estranhar que a fita registrando o casamento do poeta mais querido da Somália, Hadrawi, tenha sido uma das mais vendidas naquele país africano em 2000. Este breve retrato da Somália - onde cinco empresas de telefonia brigam por um mercado de baixo custo - mostra como a tecnologia tem modificado, de alguma maneira, o registro cultural de alguns povos do planeta, de acordo com Alexander Stille.
Essa característica da TI provoca pontos positivos - como derrubar uma ditadura.Mas, como diria Anna Reading, o problema estaria no outro lado da moeda. A legítima cultura somali não estaria preparada para o bombardeio consumista da cultura ocidental, que ganha o país graças justamente à disseminação da mídia eletrônica audiovisual. E, pouco a pouco, via celular. Eis aí outra longa discussão.