Fonte: www.semanainformatica.xl.pt - 30/10/2013
# O T1100, o primeiro computador portátil a chegar à Europa em 1985, foi distinguido internacionalmente enquanto equipamento de grande inovação pelo Institute of Electrical and Electronics Engineers, ao abrigo do Milestone Program. Esta iniciativa visa destacar e reconhecer os mais importantes progressos históricos na área da engenharia eléctrica e electrónica.
O Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), a maior associação profissional do mundo destinada aos profissionais da engenharia eléctrica e electrónica, criou o Milestones Program em 1983, com o objectivo de destacar e reconhecer os mais importantes progressos históricos. Até aos dias de hoje, já foram premiadas cerca de 140 etapas de desenvolvimento a nível mundial.
Agora o IEE reconheceu a importância e o contributo do Toshiba T1100 por ser o computador que deu origem à computação portátil e por ter sido o primeiro computador portátil a chegar à Europa em 1985. Esta é a segunda vez que a Toshiba é distinguida com um IEEE Milestone. O primeiro equipamento foi o processador de texto para língua japonesa da Toshiba, o JW-10.
A Toshiba iniciou o desenvolvimento de um computador portátil compatível com IBM PC em 1984, quando estes últimos se assumiam como o padrão para os desktop PC. Disponibilizado na Europa em 1985, o T1100 teve um impacto imediato e muito positivo no mercado, contribuindo de forma decisiva para o aparecimento e crescimento do segmento dos computadores portáteis.
O T1100 oferecia um ecrã LCD de alta resolução e vinha equipado com uma drive de disquetes de 3,5 polegadas que contribuía para a sua dimensão mais reduzida. O portátil da Toshiba pesava 4,1 kg e trazia o recém-desenvolvido software para controlo de energia, que vinha já integrado nesta máquina, garantia uma autonomia de bateria até oito horas. Importa referir que esse valor está associado a estudos feitos nessa altura pela Toshiba com base no mercado de consumo e na utilização que se fazia dos computadores em 1985.
No início dos anos 80, os desktop PC estavam exclusivamente alocados à secretária onde cada profissional trabalhava. O T1100 conseguiu conquistar a aceitação do mercado exactamente pela portabilidade que oferecia, e vendeu 10 mil unidades no seu primeiro ano no mercado, a grande maioria na Europa.
Em 1986, a Toshiba lançou o T3100, o primeiro computador portátil a integrar um disco rígido em todo o mundo – de acordo com um estudo realizado pela japonesa em 1985 – e a oferecer uma CPU de alto desempenho, até então um exclusivo dos desktop PC. Foi com base nestas conquistas que a Toshiba continuou a apostar na extensão do seu portefólio de computadores portáteis, e na expansão do seu negócio para os Estados Unidos da América e para o Japão.
Da visão à realidade
Passaram mais de duas décadas desde o lançamento do T1100 pela Toshiba Corporation, o primeiro computador portátil do mundo compatível com IBM-PC. Este equipamento, que veio dar origem a uma indústria de milhões de dólares, esteve em risco de nunca chegar a existir.
Os executivos da Toshiba em Tóquio estavam inicialmente cépticos em relação à capacidade da empresa para lançar com sucesso o equipamento, um sentimento agravado pela existência de uma falha no software do equipamento que levou a que um dos responsáveis pelo projecto tivesse que visitar, repetida e insistentemente, um grande número de software houses, até que concordassem criar aplicações que pudessem ser utilizadas naquela máquina.
Em 1985, a ideia de um computador portátil não era uma novidade. Diferentes máquinas de empresas como a Osborne Computer Corp., a Radio Shack Corp. e a Seiko Epson Corp. tinham já chegado ao mercado. Mas o T1100 foi o primeiro equipamento a integrar um conjunto de funcionalidades e características que se constituiriam como standard (nos computadores portáteis) nos 20 anos seguintes: baterias recarregáveis internas, um ecrã liquid crystal display (LCD), uma drive de disquetes de 3.5 polegadas e, talvez o mais importante, compatibilidade com os PC da IBM.
A Toshiba já conhecia a importância desta compatibilidade com os PC da IBM. A sua entrada no mercado americano de PC desktop, uns anos antes, resultara em fracasso, precisamente porque os equipamentos não eram compatíveis com o sistema IBM.
Para colmatar esta falha, uma equipa de três colaboradores da Toshiba foi enviada para Los Angeles em 1983, durante dois meses, para planear a reentrada da empresa no mercado de computadores dos EUA. Os três executivos – um líder de projecto, um engenheiro e um assistente – trabalharam, juntamente com a McKinsey, no projecto designado por Brighter Blue, e concluíram que o caminho a seguir não era o dos PC desktop.
«Na altura, os computadores transportáveis estavam a tornar-se populares mas eram muito, mesmo muito grandes», afirmou Atsutoshi Nishida, que liderou o projecto na altura e é actualmente Presidente e CEO e da Toshiba Corporation.
«O nosso plano era desenvolver um PC transportável em forma de concha, com LCD, e que fosse compatível com IBM-PC», concluiu.
A equipa voltou a Tóquio, mas a sua proposta foi vista com cepticismo. A administração não acreditava que tal computador pudesse ter aceitação no mercado sob a marca Toshiba. Face a este cenário, Atsutoshi Nishida, chegou mesmo a oferecer a possibilidade de comercialização do equipamento a outras empresas, numa base de original equipment manufacturer (OEM), mas todas declinaram.
As rejeições não abalaram, porém, a confiança de Nishida no computador portátil, de tal forma que este acabou por conseguir a aprovação para o projecto, ainda que sob a condição de conseguir vender 10 mil máquinas num ano.
«Actualmente é um objectivo perfeitamente alcançável mas na altura era extremamente ambicioso», afirmou o presidente da Toshiba.
Apesar da aprovação, a administração da Toshiba não disponibilizou quaisquer verbas para o desenvolvimento do projecto. Para assegurar o seu financiamento, Atsutoshi Nishida viu-se obrigado a recorrer aos fundos gerados pelas suas vendas a nível internacional e ao orçamento de marketing que tinha disponível. O protótipo do projecto é terminado em Agosto de 1984.
Até à comercialização, o projecto teve que enfrentar outra resistência. A experiência tinha ensinado à Toshiba que ninguém compraria um PC sem software. Ora, o T1100, compatível com IBM, baseava-se em disquetes de 3.5 polegadas, numa altura em que a indústria tinha como standard as disquetes de 5.25 polegadas, o que significava que não existia software para disquetes mais pequenas. «Sem software, o nosso produto seria uma mera caixa», afirmou Atsutoshi Nishida.
Para ultrapassar esta incompatibilidade, o responsável pelo projecto reuniu com o então director de vendas para a Europa da Lotus Development Corp., em Windsor, Inglaterra, a quem propôs a criação de uma versão do Lotus 1-2-3 num novo formato de disquete, sugestão que foi negada. Uma segunda visita resultou noutra recusa, tal como a terceira. Só a quarta visita aos escritórios da empresa se revela frutífera.
«Na minha quarta visita, o director de vendas, face à insistência disse-me que iria falar com um engenheiro como favor pessoal, nada oficial. Na visita seguinte à Lotus, tinham conseguido migrar o Lotus 1-2-3 para uma disquete de 3.5 polegadas, que funcionou na perfeição», contou Atsutoshi Nishida.
O passo seguinte foi o do contacto com a Ashton-Tate Corp. (mais tarde adquirida pela Borland International Inc.), uma dos concorrentes da Lotus e responsável pela produção do software dBase II. Com esta empresa, o acordo foi estabelecido mais rapidamente, em parte pelo facto de Nishida ter anunciado a migração do Lotus 1-2-3 para um novo formato de disquete de 3,5 polegadas. A Lotus acordou ainda fazer uma versão do Symphony, que exigiria duas disquetes, pelo que esta teria que aguardar pelo lançamento de um portátil com duas drives da Toshiba.
A compatibilidade do software foi, por si só, responsável por grande parte do trabalho de desenvolvimento do T1100, numa altura em que a compatibilidade IBM não se traduzia numa garantia de que todo o software funcionasse. A Toshiba enfrentou o grande desafio de pôr o Simulador de Voo da Microsoft, uma das aplicações mais populares na época, a correr na nova máquina. A equipa acabou, todavia, por ser foi bem sucedida ao conseguir fazer correr a aplicação no T1100.
O Toshiba T1100 foi lançado na Europa na feira de Hanover em Abril de 1985, tendo a sua comercialização sido iniciada logo a seguir na Alemanha.
O T1100 incluía um processador Intel Corp. 80C88, tinha 256 Kbytes de memória (standard), um ecrã LCD reflectivo de 640x200 pixéis, capaz de apresentar 25 linhas de 80 caracteres, e uma drive de disquete de 3.5 polegadas, que suportava tanto as disquetes de 640K-byte como as de 720K-byte.
O computador media 31.1 cm x 6.6 cm x 30.5 cm e pesava 4.1 kg. Este portátil possuía ainda um sistema operativo compatível com IBM, desenvolvido pela Toshiba, e utilizava um BIOS (Basic Input-Output System) da Microsoft.
Atsutoshi Nishida passou o Verão seguinte a visitar as maiores empresas europeias para promover o T1100. As vendas iniciais deram a Atsutoshi Nishida as munições necessárias para levar a cabo mais negócios. No final de 1985, o T1100 faz a sua primeira aparição nos Estados Unidos da América, na Comdex, tendo iniciado a comercialização neste país no início de 1986.
No final de 1985, Atsutoshi Nishida tinha vendido quase 10 mil unidades. «De facto, faltavam 230 unidades (para o objectivo de 10 mil) mas vendi-as logo a seguir. Mantive a minha promessa», salientou.
Desafios tecnológicos por solucionar
Apesar do sucesso da introdução do T1100 no mercado, a Toshiba deparar-se-ia ainda com alguns obstáculos. Em 1984, os ecrãs LCD não ofereciam as melhores condições de leitura, mas os ecrãs de plasma, por seu turno, eram muito dispendiosos e consumiam muita energia, pelo que não se constituíam uma alternativa. Adicionalmente, só os PC de topo utilizavam um disco fixo, o que tornava difícil acreditar num T1100 com mais memória, e dotados de um controlador.
A tudo isto acrescia a exigência cada vez maior por parte dos utilizadores, que reclamavam capacidades de processamento superiores, mesmo em portáteis. Uma exigência difícil de satisfazer, uma vez que um processador mais poderoso - como o CPU80286 – trazia consigo a dificuldade de integração de um número consideravelmente elevado de circuitos.
A Toshiba conseguiu, contudo, ultrapassar estas barreiras. Com a ambição de tornar o T1100-PLUS no mais pequeno PC com ecrã LCD, acrescentou ao equipamento uma segunda drive de disquetes. A empresa alargou ainda a implementação do CPU 80286 aos modelos T2100 e T3100, que já possuíam ecrãs plasma. Estes modelos apresentavam um disco rígido integrado (standard) e uma memória principal de 2.6 MB. Todas estas tecnologias desenvolveram-se num esforço da companhia para se diferenciar dos principais concorrentes.
A integração do disco rígido nos equipamentos colocou problemas ao nível dos efeitos provocados pela vibração e pelo choque. A Toshiba ultrapassou esta questão pela introdução de um disco de 10 MB protegido por um “colchão em borracha” de apenas 1cm de espessura, tornando-se a primeira empresa a colocar uma drive de disco rígido num portátil.
O elevado consumo de energia do ecrã plasma, que constituía uma das principais preocupações na fase de planeamento, acabou por ser também ultrapassado: dado que a maior parte dos utilizadores destes equipamentos trabalhavam em locais abastecidos por energia eléctrica, a opção da Toshiba foi pela utilização de uma fonte externa de energia, em substituição da bateria, para alimentar o equipamento.
Os modelos T2100 (Janeiro 1986), T3100 (Janeiro 1986) e T1100PLUS (Junho 1986) foram lançados com sucesso. Esta gama de equipamentos e tecnologias mereceram avaliações extremamente positivas e diversos prémios atribuídos pelas maiores revistas especializadas.
Ao apresentar três modelos em tão curto espaço de tempo, a Toshiba afirmou-se como criadora e impulsionadora do mercado dos portáteis. Em 1986, a PC Magazine nomeou o T3100 como o «Rei dos Portáteis». As vendas de portáteis em todas as regiões, incluindo a Europa, a Austrália, os Estados Unidos da América e o Canadá aumentaram.
Em jeito de balanço, podem considerar-se três factores-chave para o sucesso da história. O primeiro foi o seguimento da regra dos três “Cs”, ou seja, a combinação do produto certo, com o marketing certo, no tempo certo. O segundo consistiu na abertura para responder os desafios, apesar das dificuldades, e a capacidade de apresentar as tecnologias mais avançadas, sempre à frente da concorrência mais directa. O último deles foi a forte cooperação entre subsidiárias – a divisão de Computadores, a divisão internacional de Marketing e Vendas Internacional e a divisão de japonesa de I&D.