July 13, 2015

Receita para enfrentar a crise é inovar ainda mais

Fonte: O Estado de S. Paulo - http://www.estadao.com.br/ - 13/7/2015 - 6h51

CLAUDIO MARQUES

# Dirigente de farmacêutica também diz quais habilidades são necessárias ao profissional

O madrilenho Luis Díaz-Rubio, de 42 anos, preside a farmacêutica Janssen Brasil, do grupo Johnson & Johnson, desde julho de 2012. Graduado em administração pela Universidade Autônoma de Madri, tem MBA pela Universidade Loyola, de Chicago, e iniciou sua carreira na própria Janssen, em 1997. Atuou em diversas áreas até que, em 2005, assumiu o posto de diretor de Vendas e Marketing para as áreas de Sistema Nervoso Central e Primary Care. Em 2008, veio a se tornar o responsável pela comercialização de todos os produtos da empresa em seu país. Em 2011, assumiu o comanda da companhia em Portugal e no meio do ano seguinte veio para o Brasil. Ele defende que investir ainda mais em inovação é a receita para a empresa enfrentar o momento econômico difícil no Brasil. A seguir, trechos da entrevista.

Desenvolvimento

Na Janssen, eu pude colocar em prática minhas capacidades e meu entusiasmo no trabalho. Mas, sinceramente, acho que o meu desenvolvimento tem muito a ver com uma companhia que valoriza muito o desenvolvimento interno, que aposta nas pessoas, dá oportunidades para elas. Eu tenho a sensação de que algumas oportunidades na minha carreira chegaram antes de eu estar pronto para elas e isso ocorreu porque a companhia acreditou em mim, que eu tinha potencial.

Sucesso e valores

Eu acho que, se podemos falar de uma carreira bem-sucedida, isso tem muito a ver com que, desde o primeiro dia, eu me identifiquei muito com os valores e princípios da Janssen, que tem como propósito a busca por produtos inovadores e também porque souberam tirar o melhor de mim, para enfrentar os desafios aqui na empresa.

Os desafios

A companhia me deu desafios e experiências que me fizeram crescer. Aprendo muito com o meu trabalho. Também houve, da minha parte, uma aposta muito forte em formação. Eu também tive a sorte de trabalhar num ambiente onde as pessoas que me chefiavam sempre tiveram visão de médio e longo prazo nos profissionais.

Visão

Quando você é mais jovem e tem menos experiência, você faz uma interpretação relativamente simplista dos motivos pelos quais as coisas acontecem e como as decisões são tomadas. Quando falamos da área da saúde, falamos de uma área que tem muitas peculiaridades, muitas perspectivas, muitos fatores envolvidos, exige maturidade. Então, eu posso ter cometidos alguns erros justamente por não ter uma boa visão do todo, por subestimar a complexidade de um fato, de uma situação.

Crise em Portugal

Eu comecei em Portugal em janeiro de 2011 e em abril houve a crise financeira do país. Então, você pode dizer que eu sou pé frio (risos). Mas foi uma experiência formidável o tempo em que fiquei em Portugal. Foi um momento desafiador, com grandes restrições orçamentárias, um sistema de saúde baseado fundamentalmente no gasto público, um contexto bastante difícil para a incorporação de novas tecnologias. Mas curiosamente coincidiu, e está coincidindo, com um grandíssimo momento de inovação, por parte da Janssen em termo mundiais. Nos últimos cinco anos, ela é a companhia que traz mais novos produtos em nível mundial. É a melhor receita para uma companhia como a nossa, que é trazer produtos inovadores e relevantes para os pacientes. E de fato, fomos bem-sucedidos em Portugal porque tínhamos produtos que acrescentavam soluções para os pacientes e para o sistema de saúde.

Receita para o Brasil

E agora no Brasil, a melhor receita para enfrentar a crise é inovar ainda mais, ter mais iniciativas e desafiar os limites. Consideramos um momento de transição aqui no Brasil, de ajuste da economia. É,claro, um momento com grandes desafios, mas também com grandes oportunidades. E os profissionais que sabem ler de forma adequada a crise, têm resiliência para aprender durante a crise e conseguem tirar o melhor de si mesmos, terminam por serem os melhores profissionais. Aqueles que sobrevivem de forma adequada e aprendem com a crise são profissionais que claramente saem dela reforçados.

O que deve ficar de fora

O profissional não pode ter resistência à mudança e querer viver no passado. Acho que a Janssen é um bom exemplo de companhia que está se reinventando. Nós agora estamos num processo de reinvenção, com foco em drogas altamente inovadoras, devemos desenvolver novas competências, novas capacidades, como organização, pois o setor de saúde mudou.

Foco

Além de inovação, foco é uma palavra-chave, porque este é o momento em que você tem de ter muito claro onde estão as áreas e produtos com os quais você realmente acrescenta soluções diferenciadas. E nós colocamos foco em trabalhar com áreas e produtos que são relevantes e realmente contribuem para a saúde dos pacientes e para a sustentabilidade financeira do sistema. E nós temos produtos que são realmente efetivos e têm realmente um impacto relevante no sistema, de reduzir custos indiretos e melhorar a qualidade e a perspectiva de vida das pessoas.

Acesso

Somos uma empresa fortemente comprometida a dar aos pacientes acesso às tecnologias inovadoras que nós desenvolvemos, pois de nada serve ter a melhor tecnologia, o melhor fármaco, se o paciente não se beneficia. Temos feito um esforço enorme nos últimos anos, e aqui no Brasil temos dado mostras desse esforço para facilitar o acesso. Em hepatite C, por exemplo, estamos fazendo um grande esforço para oferecer as melhores condições e num preço razoável nosso medicamento, para que o acesso da população realmente ocorra. Temos agido com um olhar bem diferenciado para o Brasil.

Transferência de tecnologia

Um exemplo desse olhar diferenciado é uma transferência de tecnologia para a Fiocruz/Manguinhos de um fármaco, o Remicade (o princípio ativo é o infliximabe), que é o primeiro produto da companhia, em nível mundial, a ter transferência de tecnologia. Será uma transferência integral de tecnologia, por meio de uma Parceria de Desenvolvimento Público (PDP), de um produto biológico complexo. O remédio tem indicações para doença de Chron, artrite reumatoide, espondilite anquilosante, colite ulcerativa, psoríase e artrite psoriática.

Qualidades necessárias

Acho fundamental, no mundo de hoje, o profissional estar aberto a desafios, ser flexível, estar apto a trabalhar num ambiente que cada vez mais requer colaboração, mais trabalho matricial. É preciso aceitar a diversidade e entender que as melhores soluções chegam aos times que são diversificados. A diversidade é necessidade, porque enfrentamos desafios mais complexos. Dedicação e entusiasmos também são fundamentais. Otimismo é um fator de bom prognóstico, e o profissional também precisa, além de resiliência, ter uma busca por construir um futuro melhor.

‘Curtoprazista’

A minha recomendação, ainda mais num mercado de trabalho dinâmico como o brasileiro, é não ser excessivamente ‘curtoprazista’. Querer pular passos pode resultar em vitórias de curto prazo – inadequadas para se ter uma carreira bem-sucedida e estável. As carreiras têm de ser sustentáveis, impaciência e ansiedade nos levam a fazer escolhas inadequadas. Mas penso que paciência e ambição são compatíveis.

Princípios e valores

Outra recomendação é encontrar uma companhia que se encaixa com seus princípios e valores. Ou seja, tem de encontrar a “sua” companhia, aquela com a qual você realmente se identifica na forma de trabalhar, além de se identificar com valores e princípios. Eu, por exemplo, não precisei me adaptar aos valores da companhia porque são similares aos que eu tenho.

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