April 30, 2015

Pré-sal levará Brasil a exportar energia em 20 anos, diz economista da BP

Fonte: Folha de S. Paulo - http://www.folha.uol.com.br/ - 30/4/2015 - 12h00

SAMANTHA LIMA

LUCAS VETTORAZZO

DO RIO

Economista-chefe da BP, Spencer Dale diz que a produção de petróleo do pré-sal levará o Brasil a ser exportador de energia ao fim de 20 anos, mas a previsão pode ser revista, se a empresa não conseguir aumentar o ritmo de extração como prometido.

Em entrevista à Folha, Dale explica que o crescimento da produção do pré-sal [de 184 mil para 666 mil barris por dia, segundo Petrobras], em 2014, levou BP a rever para cima a expectativa de crescimento de produção de energia mais do que previsto ano passado.

Em fevereiro, a BP lançou o já tradicional, no setor de energia, Energy Outlook 2015, que analisa as principais tendências nos mercados de energia em todo o mundo, considerando todas as fontes –petróleo, gás, carvão, renováveis– e as emissões de gás carbônico por esse mercado.

Segundo a BP, em 2035 o Brasil vai ter uma exportação líquida de óleo de 1 a 1,5 milhão de barris por dia.

A empresa é a sétima maior empresa de petróleo e gás do mundo, segundo a revista Forbes.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

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Folha - Dado que a Petrobras enfrenta uma crise financeira que traz preocupações sobre a capacidade de aumentar a produção de óleo, como a produção de energia no país vai crescer 115% até 2035, como a BP prevê, mais do que havia previsto ano passado?

Spencer Dale - Esse crescimento se deve à maior produção de óleo, 134%, gás natural, 152%, energia nuclear, 97% e renováveis, 183%. Muito do crescimento em petróleo virá das formações do pré-sal, onde avança mais rapidamente. Previmos esse crescimento com base no forte crescimento no ano passado [quando a produção de óleo da Petrobras avançou 5,3% no Brasil].

- A BP prevê que o Brasil exportará energia em 2035. Quais serão os principais mercados? A exportação será de óleo e gás? A crise da Petrobras é uma ameaça?

Como a oferta crescerá 3,9% por ano, e a demanda, 2,9%, significa que o Brasil será exportador líquido de óleo. Em 2035, será algo entre 1 e 1,5 milhão de barris por dia. Não podemos dizer quem comprará, nesse mercado global. Qualquer coisa que ameace a capacidade da Petrobras de entregar projetos é um risco potencial às expectativas, que refletem nossas previsões de resultado mais provável.

- Quais são os principais vetores do consumo de energia no mundo, nos próximos 20 anos? Isso vale também para o consumo mundial de petróleo? Por que a Ásia vai responder pela maior parte desse crescimento?

Os principais vetores são o crescimento da população e da renda, tanto para energia quanto especificamente para petróleo. Ásia responderá pela maior parte do crescimento porque será onde veremos o maior crescimento em PIB real.

- Comparando com as expectativas em outros países, sejam membros ou não membros da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico] como o senhor definiria a posição do Brasil no mercado mundial de energia, como produtor e consumidor?

O Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de energia. Em termos de taxas de crescimento, o país crescerá mais rápido do que a média dos não-OCDE, tanto na produção quanto no consumo de energia. Brasil se destaca por ter uma parcela relativamente alta de combustíveis não fósseis –42% em 2013, crescendo para 48% até 2035.

- Como o desabamento do preço no barril de petróleo pode mudar a geopolítica mundial? Qual é o piso de preço da cotação do barril sustentável, de acordo com o fornecimento e demanda por óleo e também com a atividade econômica?

O impacto do preço na geopolítica vai além do escopo do Energy Outlook. Claramente estamos em um tempo de incremento de riscos geopolíticos, e isso é uma fonte de incerteza que destacamos no Outlook. Ninguém sabe com certeza qual é o piso desse preço. Até que a gente veja como a oferta e demanda ajusta-se aos movimentos recentes, não seria sábio tentar prever quanto além o preço pode cair.

- Quais desafios aparecem para o Brasil nesse ambiente, por si só, e quando consideramos a crise da estatal brasileira de petróleo?

Como todos os produtores de petróleo e energia, o Brasil vai precisar adaptar-se aos preços baixos, o que significa atacar custos e eficiência através da cadeia de suprimentos.

A queda no preço do petróleo (de US$ 110 em julho para US$ 60 atualmente) começou a ferir algumas petroleiras novas nos Estados Unidos, especializadas em extrair o "tight oil" e "shale gas" (respectivamente, óleo e gás extraídos de reservas de xisto). Essa indústria vai resistir? Caso não, isso pode alterar o equilíbrio da oferta como isso alteraria o equilíbrio entre oferta e demanda no mundo, uma vez que tais reservas estavam levando o país à autossuficiência?

A indústria americana é muito competitiva e inovadora. Não há dúvida de que vá se adaptar a qualquer ambiente. O crescimento dessa produção vai desacelerar, mas dificilmente cairá de forma substancial.

- O senhor crê que a queda no preço do óleo revela o quão fraca se tornou a Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo), que reúne 12 países produtores no Oriente Médio, África e a Venezuela?

O foco do Outlook são as tendências de longo prazo, no qual vemos a instituição continuando a contribuir para uma grande participação na produção de óleo, então continua sendo um grande ator.

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PERFIL BP

Origem: Reino Unido

Presença: 80 países

Funcionários: 85 mil no mundo; 7 mil no Brasil

Receita: US$ 353 bilhões (queda de 7% ante 2013)

Lucro: US$ 4 bilhões (queda de 83% ante 2013)

BP no Brasil: Presente nos segmentos de Exploração e Produção, combustíveis, lubrificantes e energia renovável

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Spencer Dale

Economista-chefe da BP

Nacionalidade: Britânico

Idade: 47

Formação: Mestre em Economia pela University of Warwick; graduado pela University of Wales

Carreira: Antes da BP, foi economista-chefe do Bank of England e membro do Comitê de Política Monetária da instituição

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