Fonte: Brasil Econômico / 30/01/2014
Ontem foi dia de reunião da cúpula do Federal Reserve, o banco central norte-americano, que confirmou a redução de US$ 10 bilhões na compra de bônus do Tesouro, limitando a US$ 65 bilhões o estímulo monetário à economia dos EUA
Com o início do fim da política de Easy Money, estima-se que haverá menos dólares disponíveis para aplicações de maior risco. Os investimentos devem se concentrar nos países mais ricos. E é aí que o bicho vai pegar. Nesse novo cenário, é inevitável o efeito negativo nas taxas de câmbio de países emergentes. E alguns Bancos Centrais não perderam tempo e se adiantaram ao que vem por aí. Sob pressão da fuga de dólares, a Turquia elevou a taxa básica de juros de 7,75% para 12% ao ano. A Índia, na mesma toada, anunciou aumento de 0,25% na taxa referencial, elevando-a para 8% ao ano; e a África do Sul, de 5,0% para 5,5%.
Ainda é muito cedo, portanto, para se falar em fim da crise internacional deflagrada em 2008. Os países ricos, sem dúvida, começam a tirar o pé do lodo. Na frente do bloco, aparecem os Estados Unidos, que já exibem crescimento de 3% ao ano. Mas países da Europa Ocidental, como a Inglaterra e a Alemanha, também dão sinais de evolução. No outro prato da balança, estão os personagens que sempre pagam o pato: as economias em desenvolvimento.
Se sofreram a partir do estouro do mercado de hipotecas nos EUA, também sofrem agora sob o peso da recuperação do mundo desenvolvido. Ou seja, os emergentes respiram de vez em quando, mas são os maiores prejudicados em qualquer circunstância. Na viagem de ida e na viagem de volta.
O remédio é aumentar os juros para evitar uma desvalorização maior da moeda. O Brasil saiu na frente desse movimento e ontem a África do Sul também anunciou um ajuste na remuneração do rand. Mesmo assim, as moedas perdem valor frente ao dólar. A cotação da moeda norte-americana, em poucos meses, pulou de R$ 2,00 para R$ 2,40 e deve fechar esta semana em R$ 2,45. Na Turquia, a desvalorização recente foi de 20% . Na Argentina, o peso também perdeu 20%, mas em poucos dias. Enquanto o dólar oficial está cotado em 8 pesos, o paralelo sobe a 12,25 pesos.
Segundo o ministro Guido Mantega, os emergentes sofrem os efeitos do que acontece nos EUA e também na China, que está crescendo menos do que se esperava, com reflexo negativo no fluxo de comércio internacional. "São movimentos de acomodação que podem ser transitórios. Temos tido momentos de volatilidade. Alguns países sofrem mais e outros menos", explicou.
O Brasil, afirma o ministro da Fazenda, tem uma situação mais sólida, porque se antecipou no ajuste das taxas de juros e tem um colchão confortável de reservas internacionais. De fato, são US$ 370 bilhões em comparação aos mirrados US$ 29 bilhões à disposição da Argentina. Mas quando o ministro Guido Mantega fala, recomenda-se sempre descontar um pouco de seu proverbial otimismo. É bom ter em mente que a situação da Argentina está se agravando rapidamente e os respingos na economia brasileira parecem inevitáveis.
Já faltam produtos nas prateleiras dos supermercados em Buenos Aires e o jovem ministro da Economia, Axel Kicillof, perde tempo precioso em bate-bocas com empresários. Desorientada, a presidente Cristina Kirchner diz apenas que o país é vítima de ataques especulativos do mercado. Todo cuidado é pouco. No exterior, muita gente ainda confunde o Brasil com a Argentina.