Fonte: O Estado de S. Paulo - 17/4/2015 - 5h00
André Borges, Adriana Fernandes, Lu Aiko Otta - O Estado de S. Paulo
# Equipe econômica quer acabar com o projeto concebido no primeiro mandato de Dilma Rousseff, de ceder a exploração da linha férrea para quem cobrar a menor tarifa, e voltar ao sistema dos anos 90, em que o vencedor é definido pelo maior pagamento no leilão
BRASÍLIA - A necessidade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em turbinar os cofres públicos para garantir o cumprimento da meta fiscal pode levar o governo a retomar o modelo “antigo” nas concessões ferroviárias, no qual é cobrada uma taxa de outorga pelo direito de exploração da linha.
No modelo “novo”, lançado pela presidente Dilma Rousseff em 2011, essa taxa não era cobrada. Vencia o leilão o candidato que concordasse em cobrar a menor tarifa.
A nova estratégia defendida pela área econômica caiu como uma bomba nos setores do governo envolvidos na definição das regras de concessão ferroviária, segundo apurou o Estado. Na direção contrária do planejado inicialmente, a proposta é vista como mudança radical no modelo de concessões para o setor ferroviário, porque praticamente joga fora o plano que Dilma sempre defendeu. Não há consenso entre os ministérios sobre a mudança.
Norte-Sul. O alvo das outorgas são as ferrovias já concluídas e aquelas que estão em vias de ser finalizadas pela estatal Valec, vinculada ao Ministério dos Transportes. Recentemente, foi entregue uma malha de 855 km da Ferrovia Norte-Sul, que liga Porto Nacional (TO) a Anápolis (GO). Até o início do ano que vem, uma extensão de 669 km da Norte-Sul estará pronta, ligando Ouro Verde de Goiás (GO) a Estrela d’Oeste (SP).
Ao adotar o modelo de outorga, o governo passaria o trecho da ferrovia para as mãos de uma única empresa, que seria a concessionária responsável por aquele trecho. Na prática, trata-se do mesmo tipo de proposta das concessões feitas na década de 90, modelo que sempre foi criticado por Dilma.
No início do ano, a Valec começou a testar o prometido modelo aberto de exploração ferroviária, no qual a estatal assume o papel de gestora e vende capacidade de tráfego para qualquer companhia interessada em transportar carga, seja sua ou de terceiros. O modelo, conhecido como “open access”, é defendido justamente porque tem capacidade de quebrar o monopólio nas antigas outorgas de ferrovias, levando mais concorrência para o setor. Pelo menos duas empresas de logística já apresentaram pedidos formais à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para atuar na Norte-Sul sob as novas regras.
A nova proposta é analisada em conjunto pelos Ministérios dos Transportes, Fazenda, Planejamento e Casa Civil. Avalia-se que a outorga do trecho da Norte-Sul que acabou de ficar pronto poderia gerar receitas da ordem de R$ 3 bilhões. Em 2007, a Vale pagou R$ 1,478 bilhão para operar, por 30 anos, um trecho de 720 quilômetros da Norte-Sul, entre Palmas (TO) e Açailândia (MA).
As outorgas atuais atrairiam empresas porque há malhas já concluídas ou perto disso, com poucos riscos. Já chegou a Levy a informação que os trechos têm capacidade de atrair interessados no curto prazo.
Apesar das resistência de parte da cúpula dos Transportes, onde a informação é de que ainda “nada mudou”, a área econômica não vê no leilão das outorgas uma ruptura do modelo desenhado. O entendimento é de que estaria garantida “a lógica crucial” do direito de passagens de outras empresas no trecho concedido. Críticos da proposta afirmam, porém, que as outorgas atuais dificultam a passagem de terceiros, impondo restrições operacionais, burocracias e custos pesados.
Garantias. O impasse do Ministério dos Transportes com a área econômica não está restrito às ferrovias já construídas e envolve os trechos que ainda não saíram do papel. Com a tarefa de arrumar as contas públicas, Levy já mandou o recado de que não pretende repassar R$ 15 bilhões em títulos do Tesouro como garantia da União para bancar o “risco Valec’’ na construção de ferrovias.
Ou seja, segue inabalada a desconfiança do setor privado de a Valec honrar os compromissos financeiros de novas concessões ferroviárias.
Desmonte da política econômica:
- Desoneração da folha
Em 2014, a desoneração da folha vira permanente. Em 2015, com Levy, governo anunciou o anúncio do aumento das alíquotas para as empresas.
- Reintegra
Em 2014, programa que devolve tributos a exportadores foi recriado com alíquota de 3% para 2015. Levy reduziu a alíquota para 1% esse ano.
- ICMS
Governo prometeu dois fundos com dinheiro do Orçamento para compensar os Estados na reforma do ICMS. Levy quer novo modelo de financiamento, mais barato para a União.
- PSI/BNDES
O Programa de Sustentação do Investimento (PSI) foi criado para estimular a economia. Levy anunciou aumento da taxas de juros do programa e iniciou trajetória de alta da TJLP
- Repasses ao BNDES
Dilma manteve no primeiro mandato os repasses do Tesouro ao BNDES. Levy afirma que banco não receberá mais aportes.
- Minha Casa
Dilma lançou o Minha Casa Melhor, linha de crédito da Caixa para a compra de eletrodomésticos com taxas subsidiadas. Programa está suspenso por falta de repasse do Tesouro.