July 18, 2014

O público secundário de Gilberto Gil e o empreendedor-usuário

Fonte: Terra - 17/7/2014

Terra Magazine

Por Bob Fernandes

Blog da Adriana Salles Gomes

Vocês viram a entrevista com o Gilberto Gil na Folha de S.Paulo de ontem, cujo título era “o público era secundário”? Não havia arrogância ou desrespeito ali; Gil toca para si mesmo, porque é assim que funciona. E não apenas com artistas.

Uma recente pesquisa da Fundação Kauffman, ligada ao empreendedorismo, mostrou a força, nos Estados Unidos, de um personagem dos negócios a que o Brasil presta pouca atenção: o empreendedor-usuário.

Sabe aquele sujeito que inicia um negócio para fornecer um produto ou serviço que ele próprio gostaria de consumir? É, por exemplo, o desenvolvedor de game que queria jogar um jogo específico e, então, o criou, ou as moças que criam uma loja de cupcakes porque adoram comer doces.

De acordo com a pesquisa, as empresas de empreendedores-usuários são 50% das empresas inovadoras que sobrevivem por pelo menos cinco anos. E considerando as empresas não-inovadoras, elas representam 11% do total de maior durabilidade.

Parece óbvio que a gente devia empreender em algo que gosta de fazer, mas isso não acontece, não é?! Prevalece sempre o discurso das necessidades do mercado e muitas vezes o empreendedor acaba trabalhando com algo em que não tem o mínimo interesse. É como querer ser advogado e virar dentista.

(Não estou desmerecendo um estudo sobre demandas do mercado, longe disso; estou valorizando o fato de que o empreendedor é parte de um mercado e sugerindo que as duas coisas sejam somadas.)

Por que aqui isso não é muito comum? Talvez porque muitas empresas, especialmente as mais sofisticadas, nasçam para ser B2B (business-to-business), jargão indicativo de que atendem clientes empresariais e não consumidores finais. Isso faz sentido quando falta dinheiro investidor e é preciso gerar receita logo.

Mas lamento um pouco a raridade no Brasil – e não apenas porque essas empresas tendem a dar mais certo, conforme a pesquisa da Kauffman. Um dos grandes baratos de ser empreendedor é a criatividade e, claro, a vontade de usar algo estimula isso.

Nossos empreendedores do B2B podiam, com um pouco de esforço, começar a projeta-se como o consumidor final de potenciais empresas clientes e, assim, virarem empreendedores-usuários indiretos.

Essa possibilidade, inclusive, faria mais gente animar-se a empreender. Será que não? Até no B2C, ou seja, no negócio que vende para o consumidor final. Ainda há pouco capital de risco à disposição (o tal do “venture capital”, em inglês), mas há. O ecossistema está crescendo e a gente trata muito disso na revista HSM Management de julho-agosto, cuja capa é sobre os clusters de inovação, do Brasil e do exterior.

Eu sei que, neste blog, falo principalmente sobre como a cultura business vem influenciando a sociedade, mas acho que o caminho contrário também precisa ser percorrido: a sociedade deve influenciar mais a cultura business. Não tem essa separação que tanto pregam, erroneamente incluída no pacote do “profissionalismo” (“do que eu gosto não importa, sou um profissional”).

O empreendedor-usuário é um bom exemplo de como a sociedade pode influenciar as novas empresas – ou voltar a influenciá-las. Gil tem suas razões.

 

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