December 20, 2013

O Mercado Como Ele É... Fim do aperto em xeque

Fonte: IG / 20/12/2013

O Banco Central não pôde comemorar por muito tempo a maneira positiva como os mercados responderam ao início do ajuste da política monetária americana

A reação equilibrada ao corte de US$ 10 bilhões que o Federal Reserve vai fazer no volume de títulos que comprará no mês que vem permitiu ao BC reduzir acentuadamente a intensidade de suas intervenções cambiais. Mas, um dia depois, choveram notícias negativas para a autoridade brasileira, capazes de por em xeque seu plano de suavizar sem demora o aperto monetário ora em curso. Dados divulgados ontem sobre inflação, emprego e crédito mostraram que o forte ciclo de alta da taxa Selic ainda não surtiu o efeito desejado.

A Selic subiu de 7,25% em abril para 10% em novembro. Se os canais de transmissão da política monetária à economia real não estiverem entupidos, as primeiras altas já deveriam estar sendo sentidas. E elas parecem estar apenas fazendo cócegas. Os analistas levaram dois sustos ontem, um vindo do IPCA-15 e outro da taxa de desocupação do IBGE. O IPCA-15, índice do IBGE idêntico ao IPCA que baliza o sistema de metas de inflação, só mudando o período de coleta, subiu 0,75% em dezembro, bem acima das projeções dos analistas, de 0,65%. Ele supera tanto o índice de novembro, alta de 0,57%, quando o de igual mês do ano passado, de 0,69%. O resultado elevou a variação acumulada em 12 meses de 5,79% para 5,85%.

Dos nove grupos de despesa, seis subiram, com destaque para o de transportes, leia-se, aumento dos combustíveis. Sorte que os alimentos estão em queda, na visão do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, a "única boa surpresa". O indicador veio caindo de julho (6,4% em doze meses) até outubro (5,75%), acelerou-se em novembro (5,79%) e agora está em 5,85%. "A inflação interrompeu a queda, permanece em nível incômodo, com elevada difusão de preços em alta e níveis rígidos de serviços. O estrago feito pelos combustíveis sugere preocupação com os preços administrados em 2014", alerta Gonçalves.

A esticada do IPCA-15 redobra a importância do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), peça fundamental do sistema de metas de inflação, que será divulgado hoje pelo BC. O Banco Itaú já revisou ontem mesmo sua expectativa de alta do IPCA cheio para o mês, de 0,77% para 0,85%. Se der essa taxa, a inflação irá acumular em 2013 os mesmos 5,84% do ano passado, frustrando a intenção do governo (e do BC, que nunca perseguiu o centro da meta de 4,5%) de festejar um índice anual em queda, nem que fosse pequena.

Não só o IPCA-15 poderá fazer o Copom levantar a guarda de novo. A taxa de desemprego de novembro pegou o mercado desprevenido. Ela caiu de 5,2% em outubro para 4,6% no mês passado. Menor taxa desde o início da série histórica, iniciada em março de 2002, repete os 4,6% de dezembro de 2012. Os analistas tentam entender o que está acontecendo no mercado de trabalho, algumas casas ainda sustentam que não deve estar tão pujante assim, mas o fato é que está longe de mostrar uma economia combalida. O BC não tem o duplo mandato do Fed, inflação e emprego. Ele só se preocupa com a inflação. Pode provocar desemprego para cumprir sua missão desinflacionaria. Mas, depois de um tranco de 2,75 pontos na Selic, não consegue nem uma coisa, nem outra.

O terceiro indicador do dia também comprova a ineficácia, até agora, do aperto monetário executado nos últimos sete meses. O saldo das operações de crédito acusou expansão de 1,5% em novembro, elevando o estoque para R$ 2,647 trilhões. Esse volume, como fatia do PIB, passou de 55,1% em outubro para 55,6% no mês passado. Os números não fecham: 1) as taxas dos empréstimos sobem, acompanhando a alta da Selic, mas o crédito também; 2) o juro médio dos empréstimos é o maior em um ano e meio, mas a taxa de inadimplência é a menor da série histórica.

Não faltaram motivos para avanços dos contratos futuros de juros negociados na BM&F. E ainda receberam o reforço da valorização do dólar e da alta dos rendimentos dos títulos longos do Tesouro americano. A taxa para janeiro de 2015 passou de 10,49% para 10,54%, enquanto que o contrato para janeiro de 2017 saltou de 11,98% para 12,14%. O dólar apenas acompanhou a alta das treasuries. Fechou cotado a R$ 2,3503, em valorização de 0,33%. O rendimento do T-Note de 10 anos avançou de 2,89% para 2,92%.

Como os sinais são de que os mercados globais entenderam e, o que é melhor, aceitaram o plano do Fed de saída do afrouxamento quantitativo, não haverá motivos para inquietações cambiais extremadas no Brasil. O dólar pode até persistir primariamente em alta, com a cotação sendo ajustada ao nível necessário para o fechamento das contas correntes do balanço de pagamentos. Mas até já surgiu a hipótese de a retomada da economia americana autorizar recuperação da balança comercial a ponto de reduzir o déficit externo, hoje equivalente a 3,7% do PIB. Essa percepção impede o mercado de tentar precificar a menor oferta de instrumentos de hedge cambial por parte do BC a partir do dia 2.

Os ajustes anunciados na noite de quinta-feira no programa de oferta de swaps cambiais foram bem recebidos. O BC não vai mais fazer leilões de linha às sextas-feiras. Os empréstimos com compromisso de recompra serão incertos, conforme o nível de liquidez em dólar dos bancos. E a oferta semanal de swaps cairá pela metade, de US$ 2 bilhões para US$ 1 bilhão. Ao invés vender, como agora, 10 mil contratos de segunda à quinta-feira, irá oferecer 4 mil de segunda à sexta-feira. Mas o BC avisa que se trata apenas da oferta mínima. Se o mercado ficar carente de proteção, ele aumentará a ração diária.

O novo programa vale do dia 2 de janeiro até 30 de junho de 2014. Também em relação à política cambial, o BC não abandonou sua "vigilância". O mercado ficou intrigado com o terceiro item do comunicado: "sempre que julgar necessário, o Banco Central do Brasil poderá realizar operações adicionais de venda de dólares através dos instrumentos ao seu alcance". O que são esses "instrumentos ao seu alcance". Prevaleceu a interpretação de que não estava se referindo nem aos swaps nem aos leilões de linha. Só sobrou a terceira via: vendas de dólares em definitivo das reservas.

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