December 27, 2013

O Mercado Como Ele É... A montanha-russa do Focus

Fonte: Brasil Econômico / 27/12/2013

O índice oficial de inflação vem se movimentando em ziguezague

O IPCA acostumou-se a dar dribles desconcertantes nos bem equipados laboratórios de pesquisas econômicas das instituições financeiras. Os especialistas não se cansam de rever continuamente suas projeções de inflação, mesmo as de curto prazo. Os exemplos são recentes. Antes da divulgação, no dia 6, pelo IBGE do IPCA de novembro, alta de 0,54%, as cem instituições que participam do Focus do Banco Central previam uma taxa acumulada de 5,81% em 2013.

Revelado o índice de novembro, a estimativa foi reduzida para 5,7%. Duas semanas depois saiu um surpreendentemente alto IPCA-15 de dezembro, de 0,75%, elevando a taxa acumulada no ano para 5,85%. E o Focus foi atrás. Se não conseguem acertar o IPCA do mês seguinte, qual a confiabilidade de sua projeção acima de 5,9% para 2014?

Os melhores especialistas, munidos dos mais sofisticados modelos econométricos, não são invulneráveis a deslizes. Mesmo entre os bancos, consultorias e assets que mais acertam estimativas inflacionárias - a elite que o BC chama oficialmente de Top 5 - a imprecisão impressiona. Desde meados de novembro, elas já estavam revendo para baixo os seus cálculos para o IPCA, mas hesitavam em abrir integralmente mão do seu "realismo" (para o governo, pessimismo profissional). Nas quatro semanas anteriores, a previsão do índice acumulado este ano, de 5,84%, condenava ao fracasso o objetivo informal do BC de obter um IPCA aquém dos 5,84% de 2012. De forma relutante, foi baixando até chegar a 5,79% no último Focus de novembro e despencou a 5,68% no primeiro de dezembro. Estão agora fazendo o caminho de volta depois do tranco imprevisto do IPCA-15.

O grande problema é que os frios algoritmos dos modelos são fruto de uma alimentação de dados não conduzida por robôs, mas por seres humanos com expectativas bem humanas. E as surpresas acontecem. Às vezes, nem sempre, é mais fácil prever as atitudes de outros seres humanos, como os oito ocupantes do Copom, do que eventos econômicos sujeitos a mutações inesperadas. A dificuldade em se vaticinar as principais variáveis econômicas, notadamente a inflação, é grave porque o Focus não é um boletim semanal criado apenas para satisfazer a curiosidade dos analistas sobre o que pensam seus pares. Trata-se, na verdade, de peça fundamental do sistema de metas de inflação.

O BC tem a sua disposição três instrumentos para "fazer a cabeça" do mercado: o Focus semanal (as coletas são diárias, mas o resultado só é divulgado uma vez por semana, às segundas-feiras), os Relatórios Trimestrais de Inflação (RTIs) e as atas do Copom. Fazer a cabeça não é força de expressão: é da natureza do sistema de metas trabalhar para conduzir as expectativas inflacionárias para o centro de 4,5%. Se o mercado comprar a ideia de que o BC está fazendo tudo ao seu alcance para desinflacionar a economia, seus relatórios a clientes e imprensa, além dos contatos pessoais com ambos, transmitirão uma visão benigna sobre o futuro. Quem gosta de remarcar preços pensará duas vezes antes de fazer isso.
Quanto mais preciso for o Focus melhor para os objetivos do sistema de metas. Mas deve-se compreender que ele é dinâmico e instável como o próprio andamento da economia real. E sujeito a distorções. Até porque quando uma variável macroeconômica não se coaduna com as projeções ela acaba afetando todas as outras, e o quadro inteiro muda. Por isso, não se deve tomar ao pé da letra projeções muito longas.


Se o Focus pode atuar algumas vezes, independentemente da vontade de acertar dos especialistas, para inflar as expectativas inflacionárias dos agentes econômicos, o que contraria os interesses do sistema de metas, o índice oficial de inflação poderia fechar bem abaixo da taxa que ao final prevalecerá se não existisse o Focus. Isso é o oposto do pretendido.
As demais projeções apresentaram comportamento ainda mais errático ao longo do ano. Em janeiro, as instituições acreditavam que o PIB iria crescer 3,26% em 2013. Em abril, o otimismo já era menor, pois se previa avanço de 3%. Em julho, talvez por contágio das manifestações populares do mês anterior, a estimativa cedeu a 2,34%. Voltou a subir gradualmente nos meses seguintes até chegar a 2,5% em novembro. Depois, nova queda, de volta à casa dos 2,3%. As projeções de Selic apenas referendam as sinalizações do Copom, enquanto as feitas para o dólar, a variável mais imprevisível, acompanham o sobe e desce dos humores do mercado à vista.

Curioso é que, enquanto o Copom puxava impiedosamente a Selic a partir de abril, as projeções de IPCA só subiam, como se o mercado dissesse "é pouco, vai ter de subir mais". Como instrumento de ancoragem e coordenação das expectativas, o Focus não funcionou este ano de debate politicamente radicalizado.

O principal ponto de discórdia entre o mercado e o governo foi a área fiscal. O ano foi inaugurado pelo impacto das piruetas fiscais criadas para que a meta de superávit primário fosse cumprida. Ainda bem que entre os 15 indicadores acompanhados pelo Focus não está incluída a aposta do mercado para o superávit primário, pois se constataria um novo erro. Depois da indignação geral com a excessiva criatividade com a qual as contas públicas foram rearranjadas no final de 2012, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, descartou, em fevereiro, o cumprimento da meta de 3,1% do PIB. Propôs uma nova, de 2,3%. O governo central faria 1,3% e os estados e municípios, 1%.

No meio do ano ficou claro que esses dois entes federados não fariam a sua parte. E Mantega anunciou pacote de cortes para economizar US$ 10 bilhões, elevando o esforço fiscal da União a R$ 73 bilhões. E, nesse momento, o mercado baixou sua expectativa de superávit para a casa entre 1,7% e 1,8%. Nos meses seguintes, os analistas reduziram ainda mais a previsão, agora para 1,5%, já que o governo não se compromete mais a cobrir as deficiências fiscais de estados e municípios. E o debate atingiu um estágio de paroxismo delirante, como se o país estivesse perto de mergulhar numa crise irreversível. Mas, no final de novembro, surpresa: a arrecadação obtida com o Refis e a concessão do Campo de Libra cresceu expressivamente, o suficiente para o superávit retornar ao degrau entre 1,7% e 1,8%.

O carrinho da montanha-russa onde se alojou o Focus em 2013 poderá ganhar um motor turbo no ano eleitoral de 2014.

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