Fonte: A Tribuna - 9/10/2013, página A-2, Editorial
Os preços do café caíram nos últimos dois anos. Após forte elevação em 2010 e no primeiro semestre de 2011, quando o valor de uma saca de café de 60 kg chegou a mais de R$ 500,00, os preços passaram a cair, estando atualmente na metade desse valor. Segundo produtores, os custos de produção empatam com os valores recebidos na venda, o que pode provocar a redução de áreas onde o produto é cultivado no País.
Em Minas Gerais, a mais importante região cafeeira do Brasil, estima-se que a renovação de cafezais cairá 20% neste ano em relação a 2012.
Enquanto os preços caem, os custos de produção aumentam. As cotações do café da variedade arábica caíram 20,35% neste ano. Isso pode levar à saída do setor de muitos produtores agrícolas que, desestimulados, migrariam para outras culturas.
Há séria crise no setor cafeeiro? Para responder, é preciso cuidado. Existem sinais contrários: o consumo mundial do produto continua crescendo, com abertura de novos mercados, notadamente na Ásia, com destaque para a China; não há excesso de produção mundial em relação à demanda, o que poderia justificar a queda do preço. O consumo de café no mundo, hoje ao redor de 140 milhões de sacas anuais, tem aumentado a uma taxa de 1,5-2% ao ano.
Deve ainda ser ressaltado que o café avançou entre o público jovem, transformando a imagem de uma bebida consumida apenas em ambientes de trabalho. As modernas cafeterias, espalhadas por todo o mundo, e novidades como as máquinas domésticas, popularizaram e ampliaram o consumo.
O Brasil segue o principal produtor mundial, com cerca de 50 milhões de sacas. É, de longe, o maior produtor, superando os concorrentes diretos por larga margem (Vietnã, Indonésia, Colômbia), com destaque para o café arábica, de melhor qualidade.
Os problemas de preço decorrem da situação do mercado internacional, influenciado pela situação financeira do mundo, que muitas vezes nada têm a ver com os fundamentos da commodity. Um ponto importante é que o aumento do consumo mundial tem sido suprido pelos cafés robustas, com o conilon em destaque,
que têm derrubado o preço do café arábica. Há ainda a especulação provocada por fundos de investimento que, capitalizados fortemente após a crise de 2008, passaram a atuar de forma decisiva nos mercados de soft commodities, como o café e o cacau.
Voltados a lucros rápidos, romperam o equilíbrio da relação entre produtores e compradores, e têm provocado fortes oscilações entre posições vendidas e compradas no mercado futuro.
Mas a queda de preços é um fato, e preocupante. Atinge produtores, exportadores, corretores. Exige ações que envolvem governos e o setor privado.
Mas os negócios do café oferecem boas perspectivas. Nunca é demais lembrar que crises trazem oportunidades, especialmente de mudanças e avanços.