April 30, 2014

Mantega com os pés no chão

Fonte: Brasil Econômico - 29/4/2014 - 20h23

Atualizado em: 30/4/2014 - 8h23

# Pela primeira vez, ministro admitiu que a economia vai crescer 2,3%, ficando abaixo da previsão do orçamento, de 2,5%

Octávio Costa

ocosta@brasileconomico.com.br

O ano vai passando, o mês de maio bate à porta e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, trata de corrigir sua previsão para o crescimento da economia brasileira. Não quer repetir o erro de 2012, quando manteve pé firme na projeção inicial de 4,5% e viu o PIB crescer apenas 0,9%, a menor taxa desde a crise de 2008.

Na época, Mantega qualificou de “piada” uma projeção pessimista da União de Bancos Suíços. Mas, com o resultado modesto, quem se desgastou foi ele. De lá para cá, o ministro passou a se precaver e, de tempos em tempos, refaz os cálculos do percurso. Foi o que fez ontem, durante palestra em São Paulo. Pela primeira vez, admitiu que a economia vai crescer 2,3%, ficando abaixo da previsão do orçamento, de 2,5%. E explicou que o número dos relatórios oficiais ainda é 2,5% porque não pode mudar as tabelas “a toda hora”.

Em entrevista, Mantega não quis dar o braço a torcer e explicou que não abandonou totalmente a projeção de 2,5%. “Não é revisão. É uma previsão e previsão não é precisa. Algo como 2,3% e 2,5%. A gente vai revendo esse número à medida que tivermos números concretos”, disse. Apesar da resistência do ministro, que procura manter o otimismo, a verdade é que o próprio Banco Central já se rendeu aos fatos e está trabalhando com um crescimento em torno de 2%. para este ano. Mas a previsão do mercado financeiro é ainda pior. Ontem mesmo foi divulgado o boletim Focus e a estimativa das principais instituições financeiras sofreu ligeiro ajuste de 1,63% para 1,65%, bem mais baixa do que a do BC. Para 2015, sim, espera-se algo perto de 2,0%.

Seria mesmo muito difícil alcançar um PIB mais gordo em 2014. A prioridade do governo Dilma é o combate à inflação. A munição clássica é a alta das taxas de juros, que tem o objetivo exatamente de refrear o consumo e esfriar a atividade econômica. Esse é o preço a pagar. Na opinião do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, o remédio já está surtindo efeito. Em entrevista ao Brasil Econômico, o ex-presidente do BNDES afirmou que a alta dos juros “reduziu o consumo de forma importante, fazendo a demanda recuar”. Ele considera que não são necessários novos aumentos da Selic, porque já há sinais de menor ímpeto na demanda. Mas, polêmico como sempre, ressalva que “só um demente acreditaria que o juro, sozinho, levará a inflação ao centro da meta”.

O ajuste monetário certamente não levará a taxa de inflação aos 4,5% e nem é este o objetivo de Mantega e Alexandre Tombini. Por enquanto, o desafio dos dois é manter a inflação abaixo do teto da meta, de 6,5%. E, na medida do possível, alcançar uma taxa de crescimento acima das previsões mais sombrias. “ Hoje, temos mais pessimistas que otimistas, por isso, ouso dizer que, do meu ponto de vista, as perspectivas para o Brasil são boas”, afirmou o ministro da Fazenda. Ele aposta que o País está preparado para a retomada, “que já está começando”. Mas, pelo sim, pelo não, vai dar um empurrãozinho. Pressiona os bancos por maior flexibilidade na concessão de crédito ao consumo e quer reabrir as torneiras do financiamento de automóveis. As vendas de veículos caíram e as montadoras estão pedindo, além do crédito, a volta do incentivo fiscal, com abatimento do IPI. O governo decidiu atendê-las. O novo pacote vem aí. Com eleição à vista, já é hora de azeitar o principal motor da economia.

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