July 29, 2014

Kjell Inge Roekke, o magnata gigantomaníaco da Noruega

Fonte: Folha de S. Paulo - 29/7/2014 - 12h00

GWLADYS FOUCHE

JOACHIM DAGENBORG

DA REUTERS, EM OSLO

Ele é um homem que veio de baixo e mudou a maneira de fazer negócios na Noruega e, a partir desta semana, Kjell Inge Roekke, um extravagante bilionário conhecido pelo temperamento explosivo e pelo apego ao gigantismo, pode também se classificar como barão do petróleo.

Sua companhia, a Det norske, até recentemente uma modesta empresa de exploração de petróleo, pagou US$2,1 bilhão em dinheiro pela aquisição das operações norueguesas da Marathon Oil, e se tornou a segunda maior companhia petroleira da Noruega, atrás da Statoil.

Foram transações como essas que transformaram Roekke, 55, em um dos homens mais ricos da Noruega, e fizeram de sua holding, Aker ASA, um dos maiores grupos industriais privados do país, com participações acionárias controladoras na Det Norske; na Aker Solutions, uma companhia de serviços petroleiros; na fabricante de equipamentos pesados Kvaerner; e em estaleiros e empresas de pesca.

SUBIDA

Foi uma escalada rápida. Nascido em Molde, uma pequena cidade na costa oeste da Noruega, ele abandonou a escola sem diploma, na adolescência (é disléxico), e cruzou o Atlântico para se tornar pescador de caranguejos e julianas, tendo Seattle como base.

Ele investiu na compra de alguns barcos velhos de pesca, os reformou e transformou em modernas traineiras-fábrica e dessa forma construiu sua fortuna.

No começo dos anos 90, ele voltou à Noruega para chacoalhar o acomodado mundo empresarial do país.

Roekke e um sócio tomaram por alvo um dos mais veneráveis conglomerados noruegueses, o Aker, estabelecido 173 anos atrás, e rapidamente adquiriram 40% de suas ações e o fundiram ao seu Resources Group Internacional, antes de tomar o controle da Kvaerner quatro anos mais tarde.

"Ele foi o primeiro a trazer o capitalismo agressivo, em estilo norte-americano, à Noruega, e ousou usar o poder dos acionistas para conseguir o que queria", disse Steinar Dyrnes, jornalista do diário norueguês "Aftenposten" e autor de uma biografia de Roekke.

"Na época, isso era inédito na Noruega", disse ele.

Quando Roekke capturou a Aker, muita gente temia que ele pretendesse agir como saqueador de empresas, dividindo a companhia e vendendo seus ativos separadamente para fazer dinheiro rapidamente.

Mas não era isso que o propelia, então ou agora, dizem seus associados de negócios.

"Ele mostrou exatamente o oposto", disse Erik Haugane, antigo presidente-executivo da Det norske. "Mostrou que pensa em longo prazo quando faz investimentos e adquire empresas".

"Ele é um construtor", diz Kristin Krohn Devold, antiga ministra da Defesa e companheira de Roekke no conselho da Aker. "Ele tem prazer em construir coisas... Ama expandir uma companhia, expandir setores, encontrar novos produtos".

PAIXÃO NÁUTICA

Em um país protestante e social-democrata no qual o igualitarismo importa mais que o materialismo, Roekke causou sensação com suas namoradas glamourosas, jatinho particular e casas vistosas. Surgiu até uma canção pop sobre sua mistura de negócios e uma vida de agito.

A paixão duradoura do empresário é por barcos de todas as formas e tamanhos - mas especialmente os grandes. Ele criou a maior frota pesqueira mundial e conquistou manchetes com um ostentoso iate de US$ 90 milhões, e um veleiro de 217 pés (66 metros). E também por um acidente com uma lancha em uma corrida.

Em 2007, ele foi condenado por subornar as autoridades a fim de obter uma licença de condução de barcos, e passou 23 dias na prisão.

Mesmo lá o carismático Roekke se tornou um sucesso, e quando libertado havia gastado mais de US$ 3 mil em pizzas para seus companheiros de cárcere.

"Roekke é um homem emotivo e capaz de expressar suas emoções de modo muito forte", diz Dyrnes.

"Isso significa que ele muitas vezes é charmoso e amistoso demais. Mas existe um outro lado. Ele também pode se zangar facilmente, o que não é nada norueguês".

RAIVA

"Quando você experimenta sua zanga pela primeira vez, isso pode chocar", disse Haugane, o ex-presidente da Det norske.

"Você fica tentando descobrir o que aconteceu. Mas a raiva passa. E da segunda e terceira vez que acontece, não é tão ruim".

Em 2009, o alvo de sua ira era a ministra da Indústria, Sylvia Brustad, que alegou que Roekke havia comprado e vendido ativos de maneira que o beneficiava mas não aos demais acionistas da Aker Solutions, entre os quais o governo norueguês.

Ele rebateu em uma entrevista ao vivo, alegando que Brustad estava errada sobre os fatos. A entrevista, que durou horas, também descambou para o lado pessoal, com o empresário zombando do sotaque rural da ministra.

E no entanto, quatro anos depois, ela foi contratada por uma das companhias de Roekke para administrar suas relações com o governo.

DECISÕES

"O ponto forte dele é desenvolver muitas ideias novas e estratégicas. Mas ele precisa de alguém que lhe diga quais de suas ideias são inteligentes e quais não são", disse o biógrafo Dyrnes.

Na Aker, o homem que o ajuda a decidir que ideias funcionarão é o presidente-executivo da companhia, Oeyvind Eriksen.

"É verdade que temos capacidades complementares. Temos uma colaboração e relacionamento únicos", disse Eriksen.

Nem todas as decisões de Roekke parecem inteligentes. Em 1997, ele adquiriu uma participação no Wimbledon Football Club, de Londres, e decidiu mais tarde transferi-lo a Milton Keynes, cidade 90 quilômetros ao norte de sua sede tradicional, o que foi tomado como traição pelos torcedores. Com uma perda recorde de público e resultados medíocres, o time terminou na concordata.

Hoje, Roekke, que tende a não aceitar pedidos de entrevista, se comunica principalmente por meio de suas cartas a acionistas, publicadas no balanço anual.

Em carta publicada no balanço de 2011, ele admitiu seu apreço por coisas incomumente –e superfluamente– grandes.

"(Minha mulher) Anne Grete está completamente certa quando diz que sofro de uma doença incurável: a 'gigantomania'. Ela tentou me curar, mas desistiu", ele escreveu.

"Concordamos em comprar um veleiro de 66. Anne Grete queria dizer 66 pés, mas eu estava pensando em metros. Terminamos com 66 metros", ele acrescentou.

Roekke se recusou a dizer se tinha planos gigantescos para a nova aquisição petroleira da Det norske, mas outras pessoas da companhia disseram que isso ajudaria a financiar o desenvolvimento do campo de petróleo Johan Sverdrup, de US$ 20 bilhões, no Mar do Norte –o maior depósito de petróleo localizado em águas norueguesas em décadas.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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