Fonte: Folha de S. Paulo - 4/12/2014 - 2h00
DE SÃO PAULO
A escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda minimiza o risco de que o Brasil perca o grau de investimento, mas o Congresso e o Judiciário são obstáculos à a política de austeridade prometida, avalia Luis Stuhlberger, gestor de um dos maiores fundos de investimentos multimercados do mundo um dos "oráculos" do mercado financeiro.
O grau de investimento é uma espécie de certificado de bom pagador dado pelas agências de rating e usado por investidores, como grandes fundos, para balizar a colocação de recursos.
Evitar o rebaixamento da nota de risco do Brasil deveria ser a prioridade do governo do momento, segundo Stuhlberger, diretor da Credit Suisse Hedging-Griffo e sócio fundador da Verde Asset Management, pois a perda do grau de investimento é o principal entrave ao crescimento de investimentos no país.
No momento, o Brasil está a um degrau de perder o grau de investimento na avaliação da agência Standard & Poor's, com a nota BBB-. Na agência Fitch, o país está dois degraus acima da "nota de corte", com BBB. Na Moody´s, a nota também está dois degraus acima (Baa2), mas a agência colocou em setembro o Brasil com perspectiva de baixa.
Para Stuhlberger, a prometida política de cortes de despesas, aumento de impostos e alta de juros para conter a inflação tem potencial para reverter "a lenta e previsível deterioração dos fundamentos da economia brasileira", se for sustentada por um período de pelo menos dois anos.
"O difícil é saber se o país vai conseguir passar por uma fase de 'sangue, suor e lágrimas' depois de ter vivido anos de 'sexo, drogas e rock & roll'. Não é fácil essa execução. Não é trivial essa convivência, no Ministério da Fazenda, com tantos interlocutores, de interesses tão distintos."
O mercado, portanto, estará atento ao cabo de guerra que se instalará entre a necessidade de equilibrar as contas públicas e as pressões por mais gastos ou menos elevação de receitas. "E o principal risco não é a suposta discordância ideológica da presidente. É a atuação do Congresso e do Judiciário", que poderiam resistir a aumento de imposto ou cortes de gastos, avalia Stuhlberger.
Embora aponte que o mercado já deu um voto de confiança para a nova equipe econômica –que pode ser visto, na prática, no comportamento dos preços futuros de câmbio, inflação e nos contratos de CDS (Credit Default Swap, espécie de seguro contratado pelos investidores contra calotes, que mostra o quanto os estrangeiros estão mais desconfiados do Brasil), ele se diz "cético" em relação ao sucesso da política de austeridade fiscal.
UM DIA APÓS O OUTRO
A confiança do mercado será reavaliada um dia após o outro, segundo o presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira. "Sinais serão emitidos e captados, um sinal após o outro."
Um dos sinais acompanhados de perto será justamente a capacidade do governo de cumprir a meta de economia anunciada por Joaquim Levy na semana passada, de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto).
Para Pereira, é fundamental que o governo restaure a confiança do empresariado, para que haja retomada de investimentos. "Há muito capital global interessado em investir no Brasil, particularmente em infraestrutura", diz o presidente do Credit Suisse, que acaba de voltar de um congresso de megainvestidores globais realizado na China.
Na sua avaliação, para ter sucesso, o governo precisa lançar um programa de concessões sem "tabelamento" de taxa de retorno nem subsídios do BNDES ao custo de capital. "Há outras formas de manter tarifas reduzidas, como alongar os prazos de concessão, ou mesmo dar subsídios claros, como acontece em contratos como os de PPPs (parcerias público-privadas)."
NOVO FUNDO
As afirmações de Stuhlberger e Pereira foram feitas durante entrevista em almoço promovido pelo banco de investimentos Credit Suisse.
Com várias das unidades afetadas pela perspectiva de alta da taxa Selic (juro básico) –que concorre com produtos de investimento do banco– e a manutenção dos juros subsidiados do BNDES –que concorrem com produtos de financiamento–, uma das áreas que mais devem crescer em 2015 é a de fundos de crédito.
Isso acontece porque a modalidade é anticíclica –tende a crescer em momentos de crise porque atende a empresas necessitadas de crédito e sem acesso a outras formas de financiamento.
Segundo Alexandre Coutinho, diretor responsável de fundos de crédito da Credit Suisse Hedging-Griffo, 2014 já foi um ano bom para o setor e a perspectiva é otimista para 2015.
O banco também informou que planeja abrir um novo fundo de hedge no Brasil no ano que vem.
Chamado de Gauss, o fundo terá como diretor responsável Fábio Okumura, contratado do Itaú Unibanco.
Presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira falou sobre as condições desfavoráveis ao desenvolvimento de produtos financeiros de longo prazo no Brasil. "Debêntures de infraestrutura, por exemplo, seriam uma boa forma de desenvolver o mercado, mas sofrem concorrência de produtos de liquidez diária e isentos de IR, como LCI [Letra de Crédito Imobiliário] e LCA [Letra de Crédito do Agronegócio]."
Uma das soluções possíveis, em sua avaliação, seria direcionar parte dos recursos que hoje vão para bancos públicos para fundos privados de crédito, que, ao criar um bom histórico de desempenho, trariam mais investidores.
"A melhor coisa para desenvolver mercado é histórias de sucesso. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a onda de IPOs [aberturas de capital de empresas na Bolsa] da década passada."