Fonte: Jornal do Comércio - www.jcom.com.br - 5/9/2013 - 7h32
Brasil S/A
Antonio Machado
Enquanto a produção industrial segue patinando, sem força para dar o impulso que só ela é capaz para arrastar a economia em geral, com a inflação e as contas externas em ordem, o governo e um pedaço do empresariado se agarram aos programas de inovação tecnológica como elixir universal para atender todos os problemas devidos à perda de produtividade do grosso das cadeias produtivas brasileiras.
Em tese, é isso, o que pressupõe educação de qualidade e um quadro macroeconômico propício ao investimento. Na prática, há muito mais, a começar por dois fatores cruciais e pouco considerados: primeiro, o espírito empreendedor e a vontade de arriscar, atributos raros na cultura empresarial do país; segundo, um ambiente de competição que torne a ocupação de nacos do mercado um evento sempre efêmero, caso a empresa se descuide de inovar e surpreender o consumidor.
Sem tais premissas, não há inovação em lugar algum no mundo. Para que gastar dinheiro para fazer algo superior, se há comprador para a produção corrente? Os mercados superprotegidos contra a novidade externa, não por acaso, são aqueles em que os produtos estão uma a duas gerações atrasados em relação às economias mais competitivas, além de terem os preços mais elevados. Não é só por culpa de custos altos de produção, sejam impostos, salários, insumos e logística.
Isso vale tanto para carros como para máquinas e equipamentos. Sem diferenciais de qualidade e de tecnologia, a indústria alemã (com o euro estruturalmente valorizado em relação à maioria das moedas e o nível do salário-hora na manufatura seis vezes maior que no Brasil, ou 15 vezes, comparado ao da China) não faria da Alemanha a quarta potência industrial no mundo e terceira na lista dos exportadores.
A concorrência é que sacode os acomodados, semeando a "vocação" do desenvolvimento tecnológico. É também esse senso de sobrevivência o que induz o capital e o trabalho a atuar junto em grandes questões, não em lados opostos. Na Alemanha, depois da grande crise de 2008, surgiram vários pactos de preservação de emprego, com participação no lucro e redução temporária de salário. Foi repetição do que se fez antes da introdução do euro, compensando descompassos cambiais.
Inovação de proveta
Cada país tem um modelo peculiar para se manter competitivo. O que não há é inovação de proveta, em que dinheiro público supre a falta de conhecimento acumulado e de coesão social pelo desenvolvimento, transformando acomodados em campeões tecnológicos. Nem na China é assim, com economia planificada. Lá até estatais competem entre si.
A inovação de ruptura, além disso, é pouco comum. Normal é que ela se dê mais em termos de processos, com adições de valor nas cadeias produtivas, casos típicos do Japão e da Alemanha. Na Coreia do Sul, último exemplo de país miserável do pós-guerra a ascender ao clube dos desenvolvidos, e na China, também. Mas o desenvolvimento chinês tende a levar a economia mais perto do modelo de inovação dos EUA.
Startups criam mais
Quanto mais haja subvenção da pesquisa primária, em universidades e laboratórios públicos, maior o avanço tecnológico. A pesquisa com motivação militar diferencia os EUA, mas é a destinação dada a tais conhecimentos o que é transformador. De tempos em tempos avaliam-se as inovações que não têm ou deixaram de ter relevância estratégia, tipo internet, liberando-as a centros privados, de empresas ou não.
Esse é um fator competitivo poderoso das empresas dos EUA. Não há reembolso do eventual ganho privado da inovação custeada com fundo fiscal. O mais frequente, porém, é que empresas emergentes, as tais startups, cheguem à frente das grandes. Lá, aqui, onde for, grandes empresas tendem a defender as posições e maximizar retornos. Muitas desaparecem por isso. Os startups são postos avançados na fronteira tecnológica. Algumas, como a Apple, viram gigantes. Outras aparecem e são compradas pelas maiores. Mas a roda da inovação não para.
Competição = inovação
O traço afim aos modelos de inovação é a existência de firma local (sem o que não há o que incentivar) ou, como na China, políticas de indução da multinacional a abrir centros de pesquisa no país para conceber bens originais. É o modelo pensado pelo BNDES e implantado pela Petrobras para a pesquisa aplicada ao pré-sal, que trouxe para o Rio laboratórios da BP e da GE, por exemplo. E que mais?
Definir o modelo de inovação. A experiência alemã e chinesa parece mais viável. Além disso, tem de haver concorrência, com aumento de exportação e importação, e apoiar só o que vale a pena. Não é toda indústria nem qualquer tipo de inovação. E se deve cuidar muito bem dos startups. Trata-se, enfim, de fundir a política industrial à de inovação e de relações comerciais externas. Hoje, nenhuma se fala.
É tudo modelo Foxconn
As grandes discussões se perdem, muitas vezes, pela confusão entre os conceitos. Industrialização, por exemplo, significa produção. Já inovação é sinônimo de desenvolvimento. O primeiro caso é o modelo Foxconn, montadora de Taiwan que fabrica por encomenda aparelhos da Apple, entre outros, com fábricas na China, EUA, Brasil. Ela faz o iPad, o iPhone, o Playstation, PCs da Dell e da HP, sem criar nada.
A indústria brasileira, nacional e estrangeira, com exceções, como Embraer, Natura, Petrobras, Alpargatas, é tipo Foxconn: faz, e bem, o que outros desenvolvem. É um modelo que não inova. Outra coisa é inovar a linha de produção. A indústria alemã, japonesa e coreana faz assim muito bem, inclusive gerando patentes. Se há um programa de inovação, no mínimo se deve esperar mais que o modelo Foxconn. A Mobilização Empresarial pela Inovação, da Confederação Nacional da Indústria, vai nessa direção. Mas o caminho continua tortuoso.