July 18, 2014

Inovação ou Modernização?

Fonte: Jornal GGN - http://jornalggn.com.br/ - 18/7/2014 - 12h45

Por Luiz Martins de Melo, em comentário ao post "Brasil 2015: o desafio de mudar o tripé econômico"

A estratégia de estabilização monetária original do Plano Real, mesmo tendo sofrido um forte revés em 1998/1999 com a crise cambial, continuou a ser implantada. A sua inconsistência macroeconômica ficou provada com o uso político do câmbio extremamente valorizado para garantir a reeleição de FHC.

O que se denominou de tripé macroeconômico, taxa de câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário, foi a nova política macroeconômica para sustentação do Plano Real, visando a manter a estabilidade da moeda com base na estreita ligação entre taxa de juros elevada e câmbio valorizado. A disciplina fiscal estabelecida na Lei de Responsabilidade Fiscal foi mais um complemento para dar confiança aos agentes financeiros sobre a solidez da dívida pública.

Essa convenção hegemônica de política macroeconômica, mantida no governo Lula, com ligeiras modificações para enfrentar a crise global de 2009, tem pesados efeitos negativos na dinâmica industrial. Essa incompatibilidade entre a política macroeconômica e os altos custos que ela impõe à indústria faz com que seja muito difícil o enfrentamento do padrão de competição estabelecido pelo complexo produtivo e de competividade internacional do sudeste da Ásia (Coréia, China e Japão).

Alto diferencial de juros em relação às taxas internacionais, câmbio valorizado e política fiscal restritiva além de formarem um  contexto negativo para o investimento industrial, mantidos por mais de 20 anos obrigam as empresas brasileiras a definirem estratégias defensivas ou imitativas caracterizadas pelo acompanhamento da fronteira tecnológica sem incorrer nos riscos das firmas inovadoras e inovar com base nos conhecimentos disponíveis (compra e licenciamento de tecnologia).

Essa estratégia defensiva e imitadora é caracterizada por um investimento modernizador em detrimento daquele para construção de novas plantas (greenfield). Isso significa a melhoria das instalações existentes pela incorporação de novos equipamentos ou à por expansão dessas plantas por meio de novas linhas de produção e, em alguns casos à compra ou fusão com outras empresas que já operavam nos mercados. Isso significa que a estrutura industrial não se move, apenas se reorganiza sem alterar o seu padrão.

O investimento em inovação das empresas nessas condições fica mais restrito por ser mais arriscado, incerto e de maior prazo para retorno. A ausência de mecanismos institucionais e de coordenação de políticas (articulação entre poder de compra governamental e a política de inovação)  não possibilita a formação de um ambiente de confiança nas empresas para enfrentar os riscos muito altos e os tempos de retorno muito longos dos gastos em inovação e, na comercialização dos seus resultados (novos produtos e/ou processos). Isso reforça a tradicional estratégia de modernização tecnológica (imitação) que marcou e marca o processo de industrialização brasileiro, que acarreta uma degeneração da sua estrutura.

A inadequação do sistema financeiro para fazer frente a esse desafio, também uma característica histórica da nossa industrialização, restringe o desenvolvimento  industrial ainda mais. A indústria, mais do que a agricultura e os serviços, depende de modo crucial do financiamento por ser o centro irradiador de produtividade para o resto da economia.  Política monetária restritiva (taxas de juros reais elevadas) e volatilidade cambial restringem a capacidade da constituição de fundos para investimento e da sua mobilização pelo sistema financeiro conceder crédito no longo prazo. Também fragiliza a formação da avaliação de ativos intangíveis pelo mercado de capitais o que dificulata o acesso das empresas em sua capitalização.

Uma nova fase de crescimento pode ser iniciada aproveitando o dinamismo do mercado interno. O novo caminho passa pelos investimentos, especialmente os investimentos articulados pelo setor público, como na infraestrutura. Investimento gera demanda para máquinas, equipamentos e matérias primas, e, nesse processo, novos empregos e salários.

Quanto menos fragmentada for a política industrial, ou quanto mais sistêmica e integrada for a sua conformação, maior será a sua capacidade em causar um efeito, positivo nas expectativas das empresas.

Os setores industriais que poderiam ser os prioritários seriam aqueles com as seguintes características:

- intensivos em emprego, para manter o dinamismo do mercado de trabalho conquistado nos últimos anos;

- setores de energia petróleo, biocombustível, eólica e solar;

- defesa e medicamentos, setores de maior intensidade tecnológica, onde o setor público poderia desempenhar o papel relevante de garantir a demanda (poder de compra);

- serviços públicos: transporte, saneamento, saúde e educação.

O papel do setor público é induzir a demanda.  As políticas industriais de maior êxito têm duas características básicas:

- dar confiança ao empresário ao definir o horizonte para cálculo do investimento.

- estruturar as formas de financiamento para toda a cadeia produtiva, em especial para a articulação e integração das inovações de maior conteúdo tecnológico para os setores prioritários.

Nenhuma cadeia produtiva consegue sobreviver a uma política de stop and go como a Brasil viveu nos últimos vinte anos.  Será que essa ausência de investimento em “green field” e inovação é devido a falta de aptidão dos empresários para o risco a incerteza?  Será que um empresário japonês, alemão, americano, chinês ou sul-coreano teria comportamento diferente nas mesmas condições de política macroeconômica?

Share

Este site usa cookies e dados pessoais de acordo com os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade e, ao continuar navegando neste site, você declara estar ciente dessas condições.